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O CISMA DE PENUDE
(Por Manuel Gonçalves da Costa, Paróquias Beiraltinas Penude e Magueija, Lamego 1975 pp. 175-191)

Nota: O autor deste texto, historiador penudense de renome, não disfarça a sua pouca simpatia pelo Pe. Justino (que qualifica de “mentalmente desequilibrado”) e seus adeptos. A sua clara propensão apologética em relação ao Pe. Manuel Gonçalves da Costa o prestigiado historiador da nossa terra a acentuar sobretudo as notas negativas da personalidade e acção do Pe. Justino. Ao fazermos, porém, o balanço desinteressado dos males e benefícios do movimento reformista suscitado pelo Pe. Justino, não podemos esquecer que foram muitos os frutos positivos da sua acção, nomeadamente no que concerne à promoção cultural e moral das gentes da freguesia que, de boa fé, aderiram às suas ideias. Se a árvore se deve julgar pelos frutos, há que fazer justiça a esse homem de zelo exagerado, mas bem intencionado, que morreu sozinho com as suas convicções, mas que deixou marcas (nem todas negativas) nas gentes de Penude. Feita esta ressalva, o texto de Manuel Gonçalves da Costa continua a ser a melhor síntese escrita sobre o “cisma de Penude” cujos contornos continuam ainda a depender sobretudo das memórias vivas cada vez menos frescas dos que directa ou indirectamente estiveram envolvidos.


«Um cisma supõe uma tomada de posição fundada em determinadas motivações, perante um problema religioso, dimensionando-o para fora das tradicionais disposições canónicas da Igreja. Parece, pois, estranho, que um tal fenómeno se tenha verificado entre uma população profundamente arraigada às tradições religiosas e culturalmente atrasada. A explicação encontra-se na personalidade do homem que desencadeou esse movimento e cujo carácter rigorista ia precisamente ao encontro do sentimento religioso do povo sobre o qual mais directamente actuou. Embora mentalmente desequilibrado, não faltava ao P. Justino inteligência, destemor e coerência de vida com a doutrina que pregava. Daí o seu fascínio. Podia ter sido um reformador, se vivesse depois do Vaticano II, pois muitas das suas críticas eram absolutamente válidas face a certos formalismos cultuais discutíveis quanto ao seu valor. Foi demasiadamente longe arrastado pelo próprio processo, tornou-se orgulhosamente exclusivista e morreu excomungado. Salvou-o possivelmente a sinceridade subjectiva das suas intenções.»


Vida e PERSONALIDADE DO Pe. Justino

 

Justino Augusto de Freitas nasceu no lugar de Quintela, a 24 de Julho, de 1867, filho de José Casimiro Granginho e de Guilhermina Augusta de Freitas, primo direito por parte da mãe do P. Manuel Gonçalves da Costa. Teve um único irmão, Luís, antigo aluno do colégio da Lapa; formou-se e viveu praticamente toda a vida longe de família e da terra. Os seus pais passaram a residir na sua quinta do Grandal, junto a Sucres.

Mostrando inclinação para a vida eclesiástica, o jovem Justino foi autorizado, por provisão episcopal de 30 de Abril de 1883, a usar hábito talar e sobrepeliz nas funções religiosas da paróquia, o que aliás sucedia com outros jovens piedosos. No ano seguinte, ao completar os 17 matriculou-se no seminário diocesano como externo, ficando a morar no Paiol, em casa de seu tio capelão da Senhora dos Remédios. Em 1885 já frequentava as aulas na qualidade de interno, gratuito, declarando, contudo, no fim do ano, desistir do exame. Fê-lo três anos mais tarde, de latim e aritmética, matriculando-se a seguir na cadeira de francês. Ordenou-se dezoito meses depois de seu primo P. Costa. A licença para celebrar a primeira missa tem a data de 25 de Julho de 1894. Até 1910 desempenhou o cargo, de prefeito do seminário, sendo a 18 de Fevereiro desse ano nomeado capelão de Nossa Senhora do Outeiro, em Penude, função que desempenhou até ser suspenso, pouco antes da sua morte, sucedida a 11 de Novembro de 1935, na sua casa do Grandal por ele reconstruída em ordem a um futuro convento. Desde 20 de Junho de 1912 começou a celebrar 2 ª missa, aos domingos e dias santos, na capela de S. Silvestre de Quintela.

Como prefeito do seminário era tido por bom confessor, distinguindo-se por certas singularidades e conhecida teimosia. Um dos seus súbditos, o Mourão de Fozcoa definiu-o como homem agarrado à sua opinião e pronto sempre a dar sentença sobre todos os assuntos, o que lhe ocasionou vários dissabores com os seminaristas, nomeadamente com Alberto Herculano Mendes, que aparava todas as afirmações do P. Justino com um «distingo» não isento de ironia.

Esta intransigência na defesa das próprias opiniões manteve-a até ao fim da vida. Não admitia que alguém tivesse razão contra ele, um fanatismo que transmitiu aos seus sequazes. Tendo-se imposto a si mesmo uma conduta de rigorosa ascese e contínua mortificação corporal e sentimental, apresentava-se como modelo a todos os que pretendessem escalar a difícil subida da perfeição. Quem se desviasse dessa norma, estava em pecado mortal e no caminho da perdição eterna. Não concedia outra alternativa. Seco de carnes, espessas sobrancelhas de raça a ensombrar-lhe uns olhos encovados, aquele homem nunca condescendeu com qualquer apetite carnal, se é que os teve. Viveu em perpétuo jejum, tomando apenas ao meio dia um caldo verde, sem mais nada.

 

Uma moral rigorista

 

Condenador de todo o luxo, no qual incluía a higiene, também o não usava na sua pessoa. Calçava tamancos, excepto durante a celebração dos actos de culto e o seu vestir era do mais grosseiro. A sua atitude para com o sexo feminino obedecia ao princípio, por mais duma vez proclamado, de que pecava mortalmente quem olhasse directamente para uma mulher. Estas eram obrigadas a vestir de preto e para que mesmo aqui não pudesse entrar veneno de vaidade, nãos podiam usar peça nova sem algum remendo. Quanto aos homens, bastava-lhes colocar uma fita negra no chapéu. Quando a mãe do autor lhe pediu, em 1921, para lhe dar a sagrada comunhão, ele persuadiu-a a não o fazer, pois cometeria sacrilégio por vestir de claro. Este princípio estendia-se às próprias imagens veneradas nas altares e por isso mandou substituir um vestido, branco, curto, bordado a oiro, num Menino Jesus da capela de Quintela por um saio liso, até aos pés. [as imagens vestidas de preto de S. Juliana e outro santo que ainda hoje se conservam em mãos seguras eram o modelo a imitar por todos os seus seguidores]

Em princípio condenava a existência de imagens, mas não de retábulos pintados. Ordenou a remoção dum S. Silvestre da referida capela que um freguês, de nome Bernardo, levou consigo para casa, com estas palavras: «Anda lá, meu santinho; já nem tu escapas da boca do mundo». Em Cristo só via o Crucificado. O corpo era, por essência, pecado e o homem só podia salvar-se crucificando-o através da mortificação continua. Consequentemente o matrimónio, gerador de corpos, era uma invenção do demónio e não havia outra solução senão suprimi-lo. Deus era suficientemente poderoso para criar novos seres no seio materno por ministério dos anjos, no caso de ser sua vontade continuar a humanidade. Este assunto constituía matéria das suas homilias e a quem lhe opunha alguma objecção retorquia que fora da sua doutrina e da sua regra de vida só existia o demónio e os seus servidores.

Como era de esperar, o elemento feminino constituía a parte mais numerosa e mais dedicada do seu rebanho. Entre elas constituiu um grupo de activistas especialmente preparadas para andarem pelos povos a indagar do que se passava nas vidas particulares e o relatarem ao seu «santo padre», fornecendo-lhe assim assunto para as suas longas pregações condenatórias. Também o clero, sem excluir o próprio Prelado, foram objecto de críticas e acusações por se recusarem a aceitar as suas interpretações doutrinárias.

 

DA COMUNHÃO À EXCOMUNHÃO

 

A 12 de Maio de 1921, celebrou-se na igreja paroquial a festa da comunhão solene das crianças, precedida dum tríduo de pregação, com a presença do bispo e abrilhantada por uma orquestra de Lamego. Contaram-se para cima de 800 comunhões, sendo 180 de crianças. Foi administrado o crisma geral e à despedida do Prelado estralejaram no ar umas dúzias de foguetes. No domingo seguinte, nas homilias que duraram duas horas, o P. Justino condenou directamente a cerimónia e os seus organizadores, afirmando:

A comunhão das crianças não foi comunhão mas excomunhão e constituiu um montão de pecados e sacrilégios. A única pessoa que recebeu o Senhor em graça foi a cega de Sucres. Tudo ali foi vaidade, a começar pelo Bispo com a sua inútil corrente de oiro ao pescoço. Quanto às crianças, vestidas de véus que nada cobriam, era preferida apresentarem-se despidas. Ele, P. Justino, conversou com o Prelado e com alguns padres na sacristia, sem que nenhum deles pudesse responder às objecções que lhes pôs contra o uso do oiro e da prata: calaram-se, deixando-o mais uma vez vencedor. Observou o modo como decorreu o crisma, que não passou dum verdadeiro escândalo. Houve até uma mulher que o recebeu em cabelo por lhe cair o lanço. Não foi uma festa, foi uma feira, ou antes uma rede do diabo para levar as almas para o inferno. Todas as festas são mal feitas e pecam mortalmente os que para elas contribuem com esmolas ou serviços. O abade devia colocar, à porta da igreja, o seguinte letreiro: «Aqui é a casa do diabo e a porta do inferno».

O pároco havia-lhe escrito pedindo-lhe para anunciar a vinda do senhor bispo, recomendando-lhe ao mesmo tempo explicasse ao povo a doutrina sobre o sacramento do crisma. Mas a única coisa que ele podia dizer era que nesse dia só iria à igreja quem andasse cego. Quem lá ia era para pecar e fazer pecar os outros, como sucedeu com o próprio Bispo que se viu obrigado a afastar o cabelo da testa de algumas mulheres para lhes fazer a cruz. A música transformou o templo num teatro lírico. O Prelado não cumpre os seus deveres, aliás proibiria aos párocos de organizarem semelhantes festas, as quais agradam menos a Deus do que uns poucos cães a ladrar.

O pregador do tríduo, P. José Maria, fez no último dia um apelo a favor do seminário, exortando os fiéis a auxiliá-lo com algumas ofertas. A esse propósito, afirmou o P. Justino, na capela do Outeiro, a 19 de Junho, conforme o testemunho duma pessoa qualificada:

Para haver salvação é necessário haver desharmonia. Jesus Cristo veio trazer desharmonia à terra. Na freguesia já alguma gente se salva, porque veio a ela pregar o diabo enviado pelo inferno. O missionário afirmou que o oiro não era pecado, como o não era a cor do vestido. Esse homem não passa dum intrujão, que só deitou blasfémias do púlpito para baixo. Que ninguém se fie da sua doutrina, nem dos doutores Pedrosa e Paiva, ou do senhor Bispo, que só sabe falar alto por ter bons pulmões. No cabo, não passam duns ignorantes, porque não estudam. «Fiai-vos só em Deus e nas minhas doutrinas, porque eu estudo muito e por isso sei o que digo; só eu vos digo a verdade». O próprio abade diz falsidades, pois não tem tempo para estudar. Quanto às esmolas para o seminário, elas só servem para se ordenarem diabos que vêem depois cá para fora pregar doutrinas falsas.

Depois de duas horas de dislates deste jaez lançadas aos ouvidos duma gente simples, paciente, mas já bastante desnorteada, o P. Justino terminou oferecendo a soma para o tempo muito avultada de 4 mil escudos a quem fosse capaz de o contradizer. Afirmou que viveu durante 24 anos no seminário como aluno e prefeito e sabe o que lá se faz. Por isso, peca mortalmente quem enviar esmolas para o Seminários sem verificar antes se elas são empregadas em pessoas dignas. O assunto das homílias não saía destes temas. Segundo ele, ninguém na diocese expunha a verdade. Os pregadores encobriam os vícios dos fiéis, pois de contrário eles não lhes dariam dinheiro a ganhar. O mesmo acontecia com o abade, que se tornava cão mudo para não ficar de mal com os fregueses.

Tal como sucedia com as festas, o P. Justino atacava também a devoção ao S. Coração de Jesus, procurava desviar o povo de se inscrever nas confrarias e não só suprimiu o ensino da doutrina mas pressionava as famílias no sentido de impedir que enviassem os filhos à catequese paroquial. Nas reuniões realizadas na capela da Matancinha, centro da nova ceita, e na direcção espiritual intensiva, esforçava-se por agudizar as discórdias entre os fregueses e o pároco legítimo, insistindo até à saciedade na afirmação de que todos os outros sacerdotes pregavam a mentira, só ele ensinava a verdade.

A situação tornava-se perigosa face à desorientação que se estava a criar nos espíritos. Por isso, a 20 de Junho do citado ano de 1921, o pároco achou seu dever oficiar ao Prelado pedindo-lhe mandasse fazer uma sindicância por pessoa imparcial para depois tomar as providências que julgasse oportunas a fim de tranquilizar os fiéis. A resposta de D. Francisco José foi que, antes de intervir, precisava de conhecer casos concretos. Daí a inquirição feita na presença do abade e algumas testemunhas juradas, as quais firmaram o que acabámos de expor. Uma delas, Macário Gonçalves, de Quintela, acrescentou que deixara de assistir às práticas do P. Justino por não estar de acordo com a doutrina exposta.

Entretanto o capelão do Outeiro, que através das suas espias andava a par do que se passava, voltou à carga no dia 3 de Julho, censurando asperamente o pároco pelas suas diligências. Como resultado, este tomou a resolução, de não presidir à festa de Nossa Senhora do Rosário, no dia 15 de Agosto, a não ser que fosse obrigado por uma ordem formal do senhor Bispo. Os mordomos, José Lamelas, Joaquim da Costa Cardoso, Justino da Silva e José Alves da Silva avistaram-se com D. Francisco José, a 5 daquele mês, tendo recebido a mesma resposta: que o pároco lhe apresentasse factos comprovados por testemunhas e só então tomaria providências. Afinal, a festa acabou por ser suprimida, celebrando-se outra na véspera em honra doe Santo António, na qual pregou o jovem presbítero Aníbal R. de Bastos o qual, a propósito dos exemplos do santo taumaturgo, exortou os fiéis a obedecerem aos legítimos superiores, no final aludiu também às necessidades do seminário, pedindo se mostrassem generosos com ele como o foram com a capela para a qual acabavam de adquirir um carrilhão de sinos, quando afinal bastava uma sineta. E para inflamar o ânimo dos ouvintes declarou que, se não falasse verdade, rasgaria a batina ou daria a própria vida. Comentário do P. Justino na homília do dia 15:

O pregador só ensinou a mentira e o erro, com a agravante de ter misturado algumas verdades para iludir o povo. A verdade é que somos obrigados a obedecer aos superiores unicamente quando estes forem bons; de contrário, temos de desobedecer-lhes como fez Santa Bárbara com relação a seu pai. Ora, são padres maus todos os que vestem indecentemente, usam cabeção alto, calças à moda botas engraxadas, etc.; são bispos maus os que se não apresentam como S. Pedro, que deu exemplo, com vestes rotas, descalço, etc. Hoje, porém, só escolhem para bispos fidalgos gordos, amigos de bons jantares, vaidosos, aperaltados, que gostam de vestir-se de seda, com cruz de oiro ao peito e botas luzidias. A seguir voltou a atacar o seminário e a responsabilizar pelos males causados pelos padres aqueles que os ajudassem a formar-se.

Como era seu hábito, retomou o assunto, nos domingos seguintes, com afirmações como esta: Foram os padres que crucificaram a Jesus e um bispo quem lavrou a sentença de morte. Os actuais não são melhores, pois todos os dias cometem sacrilégios. Só ele, P. Justino, prega a verdade como Jesus Cristo e por isso é odiado pelos padres. O P. Anibal afirmou que rasgaria a batina, mas não ofereceu dinheiro a quem o desmentisse, como ele, que apostou a 4 contos. É fácil rasgar a batina, pois os maus padres odeiam-na. Afirmou também que daria a sua vida: mas quem quer um cadáver? Não passam duns escandalosos. Ele, P. Justino prega a verdade da Bíblia e esta lhe basta para vencer todos, os padres e o próprio Bispo. A propósito dum pároco que negou valor ao trajo negro, afirmou que o tal não passava dum verdadeiro diabo e quem se fiasse nele iria direito ao inferno.

 

CAPELA DA MATANCINHA

 

Temos de reconhecer que o desequilíbrio mental não explica, só por si, tantos dislates, muitos dos quais denunciam uma intencionalidade malévola, bem que um tanto infantil. O P. Justino tornara-se vítima dos próprios acontecimentos que o levaram a lançar mão de todas as distorções, conscientemente ou não, para defender a sua orgulhosa posição. A mesma atitude se manifesta, na questão, da capela da Mantancinha.

Num pequeno largo, a meio da povoação levantava-se, desde o século XVII, um característico cruzeiro de pedra, com o Senhor Crucificado e a Senhora da Piedade a meio da haste inferior, que pelos anos de 1932 foi, por diligências do pároco, indevidamente retirado para a beira da estrada nacional. Consta que o povo costumava rezar o terço e ocasionalmente praticar outras devoções à volta do piedoso monumento, facto que podia ter despertado a ideia da erecção duma capela. O plano foi perfilhados pelo F. Justino que imediatamente traçou planta gravando-a à navalha num cepo de castanho; e de acordo e com a colaboração do pároco, a pedra, embora um tanto porosa foi cortada na lombada fronteira, entre a Camba e a ponte de Reconcos, tomando a povoação um ar festivo sempre que os lavradores de Penude e Magueija chegavam com os carros chiadeiros embandeirados de flores. Ainda hoje, na referida lomba, se pode contemplar a chamada «Cruz do P. Justino», cravada sobre um penedo ovalado, numa face do qual foi aberto a pico a inscrição: «Esta Cruz foi feita a 30/X/1917. Ó Boa Cruz, por ti me receba quem por ti me remio S.to André»; e na outra: «Salve, ó Cruz preciosa».

Na planta primitiva estava prevista uma capelinha em honra do Anjo da Guarda, em frente da principal, esta dedicada à Exaltação da S. Cruz, seguida de outras 7, em memória das 7 Dores de Nossa Senhora, dispostas ao longo do caminho que desce até à estrada nacional. Como porém tal projecto acarretasse demasiada despesa, foi resolvido erigir as 7 capelinhas na retaguarda do templo, ficando o espaço intermédio reservado para cemitério. O terreno foi oferecido parte pelo Sr. Avelino Capela, parte pelo Padre Albino, tio do falecido Pe. Manuel Gonçalves Pereira. Entre as muitas inscrições espalhadas pelo exterior das paredes encontramos duas referentes à data do começo das obras. Diz assim a primeira, em letras salientes, à volta do bem trabalhado brasão sobre a porta principal:

«Operam noN perdit qui Deo laborat. Os fundadores desta capella resolveram dedicala a S. Cruz de Jesus Fonte Perenne de seus trabalhos. Começada a 13/2/1917». A outra, numa carteia do braço lateral direito, diz assim: «A 1a pedra assente no dia da exaltação da Santa Cruz, 14/9/1917».

O P. Justino, dotado de inegável gosto e habilidades artísticas, foi não só o autor dos desenhos dos vários motivos que ainda hoje podemos admirar nos alçados, mas por suas próprias mãos cinzelou alguns dos mais delicados lavores. Consta que as esculturas da frontaria foram executadas por um cinzelador de Cambres conhecido por Fivelas. A obra de pedreiros foi confiada ao Hipólito, de Magueija, auxiliado por dois filhos.

Apesar do exclusivismo idiossincrático do capelão, parece que a harmonia dos três sacerdotes [Pe. Justino, Pe. Manuel Gonçalves da Costa, P. Albino Alves Pereira, tio do recém-falecido Pe. Manuel Gonçalves Pereira] não foi abalada durante os primeiros três anos, antes, de ser gravado um letreiro por baixo da pedra que ostenta três cruzes, ano, braço esquerdo, da capela, que rezaria assim: «Foram fundadores desta capela o P. Manuel Gonçalves da Costa, P. Albino Alves Pereira e o P. Justino Augusto de Freitas».

Como o, P. Costa desaprovasse aquela memória, o P. Justino pegou logo dum cinzel, subiu a uma escada e rasou todas as letras.

A obra encontrava-se concluída por 1921, num tempo em que a oposição da seita à autoridade eclesiástica começava a tomar um cunho de verdadeira revolta, o que dificultava naturalmente a concessão da licença para a sagração da capela. Em vista disso, o P. Justino e os principais sequazes resolveram formar uma «Sociedade de Culto», com escritura pública comercial firmada por mais de 100 assinaturas, lavrada pelo notário Sancho, com sede na Avenida da Boavista, no Porto. A cúria eclesiástica de Lamego, em parte sob pressão de alguns simpatizantes do capelão, em parte na esperança de evitar maiores males, mostrava-se inclinada a proceder à bênção do templo. Persuadidas que a oposição do pároco era o único, obstáculo à realização da cerimónia, uma longa fila de «pretas» dirigiu-se numa tarde de domingo à sua casa do Serradinho, não para pedirem a sua colaboração, mas para discutirem com ele sobre o assunto. Com passagens da Escritura, dos Santos Padres e da Moral na ponta da língua, as novas escolares, na maioria, analfabetas, pretenderam dar uma lição que o P. Costa não estava naturalmente interessado em escutar. Então, uma das mentoras garantiu «que a capela seria benzida, se Deus quisesse, mesmo que o pároco não quisesse», aos que este retorquiu, no mesmo tom que «se Deus quisesse, então Deus, que a benzesse».

A frase, evidentemente de circunstância, foi o bastante não só para levantar um grande escândalo, mas também para o P. Justino compor e mandar espalhar mais um folheto intitulado «O se e as suas consequências», no qual o abade era acusado de ateu e se reforçava o argumento da desobrigação de obedecer-lhe.

Entretanto tendo o bispo coadjutor D. Agostinho sido encarregado do governo da diocese, uma comissão representativa da Seita avistou-se com ele, tomando o compromisso de respeitar todas as leis eclesiásticas referentes a capelas públicas, o que levou o Prelado a anunciar ao abade a sua disposição de atender à petição, sob certas condições, entre elas a de que a capela ficaria em tudo sujeita à jurisdição do legítimo pároco da freguesia. Comunicava-lhe ainda que em princípio tinha exigido a dissolução da «Sociedade», mas em vista das dificuldades legais desistia dessa formalidade. O requerimento, segundo as disposições canónicas, seria apresentado pelo abade. Portanto, se nestas circunstâncias não julgasse conveniente a bênção da capela, agradecia lho comunicasse.

Como era de esperar, o P. Costa não pôs quaisquer objecções à proposta do Prelado. Este teve ainda a delicadeza de lhe enviar, a 30 de Outubro de 1924, a minuta do decreto, pedindo-lhe que lhe dissesse com franqueza se pelas suas cláusulas ficavam salvaguardados os direitos paroquiais, e se achava a ocasião oportuna para a realização da cerimónia que tencionava confiar ao Dr. Paiva. De novo o abade se mostrou de acordo com os desejos de D. Agostinho e o decreto a autorizar a bênção da capela da Matancinha foi finalmente publicado a 4 de Novembro seguinte. Diz-se nele que, em vista das informações do pároco e de outras pessoas e para os mais interessados terem assinado uma escritura na Câmara Eclesiástica, pela qual se obrigavam a não dar ao templo um destino diferente daquele para que fora construída, e proverem às despesas para a manutenção do culto, o Bispo relevava-os, da falta de licença para a construção da obra, por estar persuadido de que o fizeram por desconhecimento da lei. A capela seria pública, em tudo sujeita à jurisdição do pároco, que nela podia exercer acções paroquiais e impedir actos contrários à disciplina eclesiástica; os encarregados poriam à sua disposição as alfaias sempre que ele lá quisesse celebrar. Nessas condições, autorizava o vice-reitor dos seminário, cónego Joaquim Pereira Pedrosa e Sousa a proceder à bênção da capela e a celebrar nela a primeira missa, depois de ler o decreto ao povo. No fim lavrar-se-ia o respectivo auto assinado pelo sagrante, pároco e outras pessoas.

A cerimónia realizou-se pacificamente nos começos de Janeiro de 1925, tendo no final o Sr. Avelino Capela, um dos que nunca aderiu ao movimento do P. Justino, oferecido um almoço ao representante do Prelado e seus acompanhantes, entre eles o autor deste texto [Manuel Gonçalves da Costa]. A bênção restringiu-se à capela da Santa Cruz, excluindo as construções anexas.

 

DA INTRANSIGÊNCIA AO CISMA

 

Quem julgasse que a calma tinha voltado finalmente à paróquia de Penude é porque não conhecia a força carismática das convicções do P. Justino. Não passaram muitas semanas sem que retomasse os seus ataques ao pároco, em tom cada dia mais violento, até chegar a completa rotura. Em referência a um folheto no qual se citava uma passagem da 2.a Epístola de S. João, 10, 11, foi-lhe perguntado que espécie de pecado cometiam os que contactavam com hereges. A resposta foi:

«Considero pecado mortal saudar um herege; é uma acção má, porque proibida por S. João e S. Paulo». Mas pressionado por argumentos em contrário, concordou que a Igreja podia revogar uma lei disciplinar promulgada pelos Apóstolos.

Naquele escrito [intitulado O mas a algumas afirmações e que se encontra nas mãos de um privado], ele fazia o paralelo de pai, mãe e filho, com Deus, bispo e padre, ou entre superior maior, superior menor e súbdito, argumentando deste modo: Se o superior maior ordena uma coisa, e o superior menor o contrário, a qual deles deve o súbdito obedecer? Se o superior menor quiser obrigar o súbdito a obedecer-lhe, é injusto, mau e soberbo, por pretender mandar mais do que o superior maior. Consequentemente, ele, P. Justino, não deve obedecer ao senhor Bispo, mas ao superior maior, que é Deus. Quanto, ao pároco, este mostrou ser herege quando, a propósito da bênção da capela da Matancinha, afirmou que Deus não era todo-poderoso e que se devia obedecer ao Bispo mesmo quando mandasse alguma coisa contra Deus, e que se podia ir para o céu mesmo sem imitar os Santos. Logo, como herege que era, não se podia assistir à missa por ele celebrada, receber os sacramentos ou abrir-lhe a porta na visita pascal.

Outro ponto de doutrina deturpado pelo P. Justino para justificar a sua atitude foi o da caridade. Desvirtuando o sentido do verbo «odiar» numa passagem bíblica, chegou a escrever frases como esta: «Devemos odiar os pecadores se nos desviarem do caminho dos céu, mas amá-los no caso contrário».

O folheto intitulado Crime divide-se em, 2 partes: O autor afirma que «pode dar-se o caso de a obediência ser um crime e que quem obedece um criminoso», aduzindo exemplos da Bíblia, do Ano Cristão, e da Moral em que se descreve a oposição de filhos a pais; e de súbditos a superiores que ordenavam coisas contra Deus, fazendo a seguir a aplicação ao pároco da freguesia. A 2.a parte começa: «É um crime ir à missa quando...» distorcendo o sentido da palavra «crime» e acobertando-se com a autoridade de S. Gregórioo VII que proibiu os fiéis de assistir ao santo sacrifício celebrado por sacerdotes em pública mancebia, acabando também ele por proibir os seus correligionários de frequentarem a igreja paroquial. E continua:

«Devereis, seguir a qualquer padre não suspenso? Não, porque pode ser mau e não estar suspenso, ou porque não há quem diga ao Sr. Bispo quem ele é, ou porque é mau o Sr. Bispo. Para te não enganares, segue a Jesus, aos padres santos e de boa doutrina, (...). Jesus, mestre da verdade, não nos manda seguir a qualquer padre, nem mesmo aos que parece que são bons, mas só aos que fazem boas obras (...). Deverei seguir ao meu abade (...) logo que não esteja suspenso? Não. Devemos seguir as Beatas da Matancinha que andam, vestidas de luto para recordar a Paixão de N. Senhor? Não, mil vezes não» [frase com sentido irónico, eco das afirmações do pároco da freguesia].

Na sua pequena comunidade tinham acabado os casamentos, já que as bodas constituíam pecado mortal; os enterros faziam-se civilmente; os baptizados, porque o pároco não autorizava a vinda dum sacerdote estranho, eram administrados por um dos principais da seita para isso eleito, já que o próprio P. Justino se recusava a tomar essa responsabilidade, motivada não sei por que inibição. Na sua fraqueza, ele começava já a ser dominado pelos discípulos suficientemente esclarecidos para tirarem as conclusões das doutrinas que lhes eram administradas.

Entretanto a freguesia vivia em contínua efervescência, as discussões surgiam por toda a parte quase nunca dum modo pacífico. Os adeptos do chefe carismático, como fervor de neófitos ou de fanáticos provocavam os opositores para apostas, adiantando por vezes grandes somas de dinheiro, gabando-se do seu triunfo uma vez que ninguém convinha em tão ridículo processo de provar a verdade e o erro.

Por 1928, a desorientação tinha atingido o auge frente à audácia dos reformadores no ataque a toda a autoridade da hierarquia eclesiástica, providos como estavam de textos para toda a classe de argumentação. De facto, o mestre tinha-os dinamizado culturalmente através de citações extraídas da Bíblia, Santos Padres, História Eclesiástica, tratado de Moral de Del Vecchio, do Ano Cristão, do Tratado de Perfeição de Afonso Rodrigues, ou do Breviário, seleccionando os textos que mais lhe convinham, ou distorcendo-os de modo a dar-lhes força comprovativa de conveniência. Consta que a cega de Sucres, de nome Rosa, uma das mais qualificadas defensoras da nova religião, sabia de cor todo o tratado de Moral de Del Vecchio. E uma tia do autor, de nome Gracinda Gonçalves, alma simples, bondosa e bem intencionada, que mal sabia escrever, numa carta que lhe dirigiu, para Espanha, a 22 de Fevereiro de 1928, redigida certamente em conciliábulo dos correligionários, no propósito de justificar a sua adesão à seita e a revolta contra as autoridades legítimas, citava passagens de todas as obras mencionadas acima, sem omitir a indicação das páginas e versículos. Em outra carta, de 16 de Dezembro, explicava o corte de, relações com o abade dizendo que tinham procedido assim, para o fazerem cair na conta do seu erro, e porque a tanto as obrigava a consciência e a caridade. Declaravam-se, contudo, prontas a obedecer ao, Sr. Bispo se este o substituísse por outro pároco que não ensinasse os mesmos erros, isto é, um sacerdote que se tornasse ele mesmo sectário das doutrinas justinianas.

Era tempo de a autoridade responsável intervir com o rigor das censuras eclesiásticas, como sucedeu. Antes, porém, D. Agostinho procurou esclarecer os espíritos desorientados através duma série de artigos publicados no Boletim da Diocese. Foi-lhe fácil mostrar a falta de fundamento e a inconsistência das afirmações do P. Justino, o qual, para se impor, abusava da simplicidade e incultura do povo. Tratou das apostas como argumento de verdade, da caridade e sua extensão, das relações com hereges, do significado da expressão «estar com os Bispos e com o Papa», e das doutrinas e ideias avariadas. A 21 de Junho daquele ano saía impresso o «Interdito e declaração de cismáticos».

Na introdução da sentença fazem-se vários considerandos sobre os factos ocorridos e sobre a contumácia e soberba do réu que já lhe merecera a pena de suspensão, concluindo por declarar cismáticos todos os que interromperam a comunhão com o pároco da freguesia, proibir a leitura dos escritos espalhados pelo P. Justino e lançar o interdito à capela da Matancinha dentro da qual ninguém de futuro poderia entrar sob pena de pecado mortal. O decreto, depois de publicado, seria lido nas igrejas paroquiais da cidade, Penude, Arneirós, Magueija e Pretarouca.

 

ORGULHOSAMENTE SÓ ATÉ À MORTE

 

O oposição por parte do clero e do Prelado era aproveitada pelo réu a seu favor, afirmando que sofria perseguição, à imitação de Jesus, por pregar a verdade auferida na leitura da Bíblia e do Breviário. Acatou, no entanto, a pena de suspensão, deixando de celebrar; e nas reuniões frequentes com os seus sequazes dava-lhes esta norma de proceder: «Não devemos seguir um padre suspenso, porque mesmo que tenha sido suspenso porque o Bispo é mau, ou porque foi enganado, e o padre é bom, não o sigamos, mas sigamos a Jesus, e seguindo a Jesus, seguiremos o padre mesmo sem o seguirmos».

Apesar de se considerar injustamente punido, não utilizou a via que lhe era facultada de recorrer ao metropolita de Braga, ou até à Santa Sé e requerer um exame das suas doutrinas. Ele sabia que não tinha hipótese de justificação. Preferiu por isso constituir-se juiz de si mesmo.

A declaração de cisma com todas as suas implicações de ordem moral e psíquica constituiu um golpe incurável no fisicamente fraco, doente e provavelmente atribulados chefe. Os continuados jejuns, penitências e trabalhos tinham-no reduzido a um esqueleto. Durante anos, depois de celebrar, metia-se no confessionário onde atendia os penitentes horas seguidas e só tarde tomava a única e frugal refeição. Este continuado rigor tinha necessariamente de afectar as suas faculdades mentais já de si predispostas a peregrinas ideias místicas, concentradas no Cristo sofredor e no homem pecador.

Impossibilitado de prosseguir na sua obra reformista, resolveu encerrar-se definitivamente dentro do pesado casarão da sua quinta que um dia sonhara ampliar para nela instalar a sede de formação, de apóstolos e santos dum cristianismo renovado. Consta que na prática de despedida ele dissera à assembleia dos seus fiéis comovidos: «Vós sabeis o que haveis de fazer para vos salvar; eu também seio que hei-de fazer para me salvar». Recolheu ao Grandal e nunca mais de lá saiu.

É fama corrente que à hora da morte pedira ao caseiro: «Vá chamar o meu primo padre Costa». O caseiro, porém, seu ferrenho adepto, não o chamou. Casos semelhantes sucederam com algumas devotas. A uma que pediu para se confessar, respondeu a irmã: «Estás muito bem confessadinha; não, precisas de padre para nada».

O P. Justino faleceu a 11 de Novembro de 1935 e no dia seguinte foi a enterrar civilmente numa cova rasa do cemitério paroquial. Nem uma lápide, nem qualquer espécie de culto recorda o lugar onde se desfizeram a sua pele e os seus ossos, pois do cadáver pouco mais encontraram os bichos que comer. Cinco anos depois falecia o pároco, Manuel Gonçalves da Costa, principal alvo dos seus ataques.

 

RESCALDO DO CISMA

 

O Status Animarum de 1934 revela-nos um pouco a penetração geográfica da seita do P. Justino. Dos 72 fogos da povoação da Matancinha, em 17 não se desobrigou ninguém, em outros menos de metade dos familiares, e em alguns um ou dois. Nos outros povos falharam 8 famílias no Bairral 2 em Sucres, 2 em Quintela e uma nos lugares de Quintãs e Penude de Baixo. Podemos concluir que os adeptos activos não passavam de 120, embora fossem numerosos os simpatizantes.               

Com a interdição da capela, a comunidade reunia-se numa casa particular vizinha onde fazia meditação diária pela manhã e recitava o terço à tarde. Nos domingos e sextas-feiras, o terço, meditação dos mistérios, salve rainha e ladainhas eram cantados por toda a assistência com música expressamente composta pelo maestro Saldanha Júnior, no seu estilo romântico, e sentimentalmente piedoso, músicas essas cujos originais ainda sei conservam. Com a morte, porém, do chefe, o movimento desorganizou-se, a linda capela voltou a abrir ao culto e aquela gente simples e sinceramente cristã sujeitou-se pouco a pouco à legítima autoridade, tornando-se num dos grupos mais consciente da freguesia na prática dos actos religiosos.

Talvez este facto tenha feito inclinar a balança a favor do P. Justino, lá no tribunal da última instância onde mais que os actos valem as intenções, porque só estas pertencem totalmente à pessoa humana e só Deus as conhece até ao íntimo, da sua génese, na misteriosa região onde a alma se distingue do espírito».


UMA ANÁLISE CRÍTICA AO CISMA DE PENUDE

José Pereira Lamelas

 O Cisma de Penude foi um acontecimento que sempre me intrigou e que eu sinto que faz parte de mim e do meu povo.

O objectivo do nosso site é «partilhar o que sentimos, o que pensamos, o que sonhamos». De uma maneira totalmente livre, franca e aberta, sem preconceitos, sem tabus. Apenas com uma restrição: o respeito e a inteligência do bom senso. «Partilhar o que perdemos e ganhamos. Porque da partilha brota a reflexão, a mudança, o questionamento do nosso ser, este ser que se constrói e reconstrói».

 

Com a análise deste caso tão singular e desconhecido de muitos penudenses, vamos reconstruir uma parte do nosso passado que está na sombra e nos afecta.

Está aberto o debate, uma nova maneira ainda mais rica de utilizarmos este nosso meio de comunicação e de introduzirmos mais dinâmica no mesmo. Venham à liça, amigos!

Vamos começar por fazer uma resenha (que é da total e única responsabilidade do autor desta análise) daquilo que pensamos serem frases-chave que retiramos do relato do caso que Isidro Lamelas preparou e, depois, faremos uma análise do caso Justino enquadrada na interessantíssima psicologia analítica de Jung, designadamente à luz da teoria da sombra.

Finalmente, faremos, também, uma abordagem ao perfil de Justino como “líder” religioso.

Frases chave do relato do cisma de Penude

«Conhecida teimosia. Homem agarrado à sua opinião. Pronto sempre a dar sentença sobre todos os assuntos. Não admitia que alguém tivesse razão contra ele. Um fanatismo que transmitiu aos seus sequazes. Apresentava-se como modelo a todos. Perfeição. Não concedia outra alternativa. Nunca condescendeu com qualquer apetite carnal. Perpétuo jejum. Tomava a única e frugal refeição. Apenas ao meio dia um caldo verde, sem mais nada.. Este continuado rigor tinha necessariamente de afectar as suas faculdades mentais já de si predispostas.

Pecava mortalmente quem olhasse directamente para uma mulher. Eram obrigadas a vestir de preto. Não podiam usar peça nova sem algum remendo. Fita negra no chapéu. Cometeria sacrilégio por vestir de claro. Estendia-se às próprias imagens veneradas nos altares. Em Cristo só via o Crucificado. O corpo era, por essência, pecado e o homem só podia salvar-se crucificando-o. Mortificação contínua. O matrimónio, gerador de corpos, era uma invenção do demónio. A quem lhe opunha alguma objecção retorquia que fora da sua doutrina e da sua regra de vida só existia o demónio. Constituiu um grupo de activistas, para andarem pelos povos a indagar do que se passava nas vidas particulares e o relatarem. Também o clero, sem excluir o próprio Prelado, foram objecto de críticas e acusações por se recusarem a aceitar as suas interpretações doutrinárias.

Homilias que duraram duas horas. A comunhão das crianças não foi comunhão mas excomunhão e constituiu um montão de pecados e sacrilégios. Todas as festas são mal feitas e pecam mortalmente os que para elas contribuem. Igreja (matriz) casa do diabo e a porta do inferno. A música transformou o templo num teatro lírico, cães a ladrar. Para haver salvação é necessário haver desharmonia. O missionário intrujão, que só deitou blasfémias do púlpito para baixo. Não passam duns ignorantes, porque não estudam. “Fiai-vos só em Deus e nas minhas doutrinas, porque eu estudo muito e por isso sei o que digo; só eu vos digo a verdade”. Esmolas para o seminário, elas só servem para se ordenarem diabos que vêem depois cá para fora pregar doutrinas falsas. O assunto das homílias não saía destes temas. Segundo ele, ninguém na diocese expunha a verdade. Esforçava-se por agudizar as discórdias. Todos os outros sacerdotes pregavam a mentira, só ele ensinava a verdade. São padres maus todos os que vestem indecentemente, usam cabeção alto, calças à moda botas engraxadas. Só ele, P. Justino, prega a verdade como Jesus Cristo e por isso é odiado pelos padres. Orgulhosa posição. O abade era acusado de ateu. Devemos odiar os pecadores se nos desviarem do caminho dos céu. As bodas constituíam pecado mortal. Os adeptos do chefe carismático provocavam os opositores. Seleccionando os textos que mais lhe convinham, ou distorcendo-os de modo a dar-lhes força comprovativa de conveniência. Revolta contra as autoridades legítimas. Para se impor, abusava da simplicidade e incultura do povo. Seguindo a Jesus. seguiremos o padre mesmo sem o seguirmos. Não utilizou a via que lhe era facultada de recorrer. Os continuados jejuns, penitências e trabalhos tinham-no reduzido a um esqueleto. Metia-se no confessionário onde atendia os penitentes horas seguidas. Foi a enterrar civilmente numa cova rasa do cemitério paroquial.

Numerosos os simpatizantes».

 

Análise do caso à luz da teoria científica da sombra de Jung

 

O conceito de sombra é de Carl Jung e significa tudo aquilo que recalcamos no inconsciente por causa do medo de sermos rejeitados se formos como somos (medo de perder o afecto, medo do isolamento, medo de nos sentirmos marginalizados, medo do ridículo, medo de ter vergonha, medo de não ser normal, medo de não ter sucesso, medo de estar fora das normas…). Por outras palavras, a sombra é o conjunto de sentimentos, qualidades, talentos e atitudes tudo isto recalcado, por julgarmos inaceitáveis pelo nosso meio. Este recalcar implica uma energia psíquica comprimida, mas sempre viva e activa, o que é altamente estressante e desgastante para si e para os outros.

 

Quem não reconhecer a existência destes sentimentos mal amados, recalcados que procuram afirmar-se, eles voltar-se-ão contra ele, assustá-lo-ão.

Quem se recusa ao trabalho de fazer a paz com a sombra e estabelecer a amizade com ela, não se pode conhecer a si mesmo e não pode ter auto-estima.

«Quem recusa este trabalho sobre si mesmo expor-se-á a desequilíbrios psicológicos. Sentir-se-á ansioso e deprimido, atormentado por um sentimento difuso de angústia, de insatisfação consigo mesmo e de culpabilidade; está sujeito a todo o tipo de obsessões» (Monbourquette, 1997).

 

Segundo Jung, a pessoa que se esforça por se conciliar com a sua sombra, ao ponto de reintegrar as suas projecções, não só produz uma melhoria das relações interpessoais, como tem um efeito benéfico em toda a sociedade, realiza uma obra útil ao mundo.

 

«Um comportamento formado a partir de visões morais mesquinhas criará uma sombra correspondente. Esta procurará manifestar-se por obsessões e escrúpulos e, noutros momentos, será projectada em outrem sob a forma de preconceitos morais rígidos» (Monbourquette, 1997).

A propósito da necessidade que têm os líderes espirituais e os seus discípulos de trabalhar a sua sombra, o padre e psicólogo Jean Monbourquette escreve que alguns profissionais não foram autênticos ao não estarem atentos à existência da sua sombra e das suas pulsões. Isto faz-nos pensar de imediato no caso do padre Justino.

A psicanálise froidiana fez a descuberta revolucionária da existência do mundo formado por recalcamentos pessoais inconscientes, em que o inconsciente é como que um vulcão que ameaça entrar em erupção pelos impulsos instintivos e erráticos da libido.

Jung foi muito mais além e muito mais revolucionário quando descobriu que o inconsciente é um conjunto de forças opostas, mas complementares (tipo yin-yang) que podem ser organizadas, harmonizadas num todo coerente (que traz saúde psicológica e física), graças à actividade polarizadora do Self (a imago Dei ou princípio divino, integrador, presente no coração de todas as pessoas). Isto é um pouco paradoxal, mas acaba com o dualismo pernicioso. Sempre que promovemos um em detrimento do outro (ego em detrimento da sombra - alter ego - ou vice-versa) introduzimos desequilíbrio que pode levar ao mal estar físico (doença) ou até problemas mentais.

Além do eu profundo que é a tal “imago Dei”, Jung descobriu um inconsciente mais profundo, o «inconsciente colectivo», isto é, uma memória de um conjunto de imagens ou de motivos, inata e comum a todo um grupo social e até a toda a humanidade. Ele concluiu que «A sombra do fundador de uma comunidade, com s seus tabus e interditos, deixa a tal marca na sombra do grupo» (Monbourquette, 1997). Eu creio que quase todos nós estamos mais ou menos marcados, na nossa sombra, com este caso, com este passado. É, por isso, bom analisá-lo e assumi-lo.

Se desejamos explorar as riquezas enterradas neste nosso inconsciente, devemos, com humildade, paciência e coragem, mergulhar no nosso «saco do lixo», retirá-las de lá uma a uma e darmo-nos o direito de as explorar.

De acordo com a leitura que fazemos destas teorias científicas, o padre Justino ter-se-á identificado exclusivamente com o seu ego ideal (persona). Isto levou-o a negar não somente as pulsões da sua sombra, mas até a existência da mesma. Levou-o a aspirar a um perfeccionismo, sempre num estado de stress, que o levava a ser intransigente, quer com ele mesmo, quer com os outros e que o levava a uma rigidez psicológica (inconsciente), moral e espiritual.

O padre psicólogo e analista clínico Jean Monbourquette (1997) escreve: «Os esforços desenvolvidos pelos “perfeccionistas”, para prejudicar a emergência da sua sombra, tornar-se-ão, a longo prazo, insustentáveis. A tensão psíquica que daí resulta provocará todo o tipo de reacções incómodas: obsessões, medos incontroláveis, preconceitos, desvios compulsivos no plano moral, sem falar de esgotamentos psicológicos e dos estados depressivos de que sofrerá. Este tipo psicológico poderia ser comparado ao que o teólogo Richard Côté descreve como “um intolerante à ambiguidade”, que apresenta os traços seguintes: baixa auto-estima, rigidez de pensamento, estreiteza de espírito, dogmatismo, ansiedade, etnocentrismo acentuado, fundamentalismo religioso, conformismo, preconceitos e fraca criatividade».

Para Justino, a excomunhão poderia ter sido motivo de reflecção e de correcção, o tempo de dar lugar à sombra que tentava em vão ocultar. Mas isso exigia humildade, querer, paciência, coragem e aceitação que ele parece não ter tido.

A sombra exprime-se também nos interditos que impomos aos outros. Os interditos revelam mais as resistências dos seus autores às pulsões da sombra do que uma sã preocupação educativa. Os pregadores que se comprazem a vilipendiar os desvios sexuais dos seus auditores, os excessos que aí colocam (como era o caso de Justino) manifestam que eles se debatem com as suas próprias pulsões sexuais. Por vezes, diz o padre Monbourquette, essa obstinação deve-se ao sentimento de culpa de delitos sexuais. A sua prédica é reflexo mais dos seus próprios conflitos com a sua sombra do que a preocupação de ensinar uma sã doutrina de ordem moral ou espiritual...

Um dos meios de descobrir a sombra de outrem ou a nossa é conhecer as reprovações ou as críticas que uma pessoa se permite formular a respeito dos outros. Naturalmente que nós, ao fazemos esta análise crítica, assumimos este risco. Mas não será isso uma fatalidade de qualquer crítico?

A este propósito, Ken Wilber diz: «na realidade, as nossas críticas virulentas em relação aos outros não são mais do que peças não reconhecidas da nossa autobiografia. Se quiser conhecer a fundo uma pessoa, ouça o que ela tem a dizer sobre os outros»... Pelo que também nós ficamos aqui retratados. Mas não será este retrato precisamente fruto dessa tal “memória colectiva que herdamos inconscientemente? Provavelmente. Mas nós queremos “esgravatar” nela, trazê-la à luz e reintegrá-la no nosso consciente, com vista ao nosso equilíbrio harmonioso.

As atitudes e expressões de Justino contra os seus colegas e superiores (certamente que muito convictas e cheias de boas intenções...) e as nossas próprias aqui expressas, trazem-nos à mente, mais uma vez, as idéias interessantes de Jung. Ou seja, se as indelicadezas e imperícias de alguém nos “enervam” e perturbam ao ponto de sentirmos repugnância e medo em relação a esse alguém, isso significa que nos estamos a projectar nele (o que somos inconscientemente – a tal sombra), como se lhe colocássemos uma máscara, a nossa máscara, como se ele fosse um espelho em que nós nos miramos. A personagem assim criada fascina ou repugna, segundo os casos. Exageramos ou aumentamos as suas indelicadezas ou as suas imperícias. Apreendemos dele tudo o que nunca quisemos reconhecer em nós e que nos esforçamos por recalcar no nosso inconsciente.

Para não deixar fugir a sua projecção e evitar confrontar-se com a realidade da sua sombra, o “projector” (quem projecta) está pronto a recorrer a falsos argumentos a fim de justificar os seus julgamentos condenatórios. Segundo o relato (infelizmente único) Justino «seleccionava os textos que mais lhe convinham, ou distorcia-os, de modo a dar-lhes força comprovativa de conveniência»... Fabricamos muitas vezes os nossos inimigos, fazendo-os transportar o peso da nossa sombra (e ele criou muitos inimigos…).

Jesus denunciou a sombra. Ele repudiava os preconceitos maléficos contra o próximo. «Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão e não reparas na trave que está na tua própria vista?... Hipócrita, tira primeiramente a trave da tua vista… ». (Lucas 6,41). Os homens que conduziam a mulher adúltera faziam dela um bode expiatório que carregava com as suas próprias falhas sexuais. Com uma frase lapidar, Jesus revira a situação: «Quem de vós estiver sem pecado atire a primeira pedra...» (João 8,7).

Antes de julgar os outros, trabalhemos sobre nós mesmos e aprendamos a recuperar as projecções da nossa sombra. É praticamente impossível perdoar a alguém que reflecte os aspectos negativos do nosso ser. É necessário, antes de mais, apaziguarmo-nos com as partes mal amadas de nós as quais temos tendência a projectar no nosso “ofensor”. Isto seria um memorando para Justino, mas também é para nós, naturalmente. A sombra ignorada e entregue a si mesma torna-se perigosa, porque a sua condição de isolamento e de separação do Self poderá conduzi-la a agir de maneira diabólica (dia bolè = separação). O relato do cisma está cheio de situações que ilustram isto.

«O mal não existe como tal». «No plano moral, o mal designará um agir não conforme o seu fim natural», diz o padre investigador Monbourquette (1997). «Aquele que declara guerra à sua sombra cai inevitavelmente em seu domínio e comete assim as faltas morais que queria justamente evitar». Como dizem os investigadores jungianos, a sombra faz parte da condição humana, mostra que é conveniente convertê-la e não eliminá-la. «Cada um de nós tem um lado sombrio; isso faz parte da condição deste mundo, não é um “pecado” em si. A finalidade do sujeito humano deve ser curar-se da doença e fazer com que a parte ferida reencontre o seu funcionamento normal» (Zweig, 1991).

É necessário reconhecer e aceitar a existência das pulsões da sombra, que é diferente de consentir e passar ao acto (sentir é diferente de consentir). Não somos livres de sentir ou não uma emoção ou uma pulsão. Não reconhecer a sua existência e não assumir a responsabilidade dela seria prejudicar a saúde mental. E terá sido o que aconteceu com Justino.

Diremos então, como sugere o padre Monbourquette (1997), «Esta emoção sexual ou este movimento de cólera pertemce-me.» e acrescenta: Quem recusar estas tomadas de consciência será levado a recalcá-las, tornar-se-ão obsessões que a pessoa acabará por projectar em outros…

O conhecimento e estima de si são condições essenciais ao crescimento espiritual. Mas é a humildade que condiciona o reconhecimento e a aceitação da sombra. E, pelo relato, humildade parece que não era um grande ponto forte de Justino.

Tanto em psicologia como na espiritualidade, vários profissionais de ajuda (Justino, nitidamente) não tiveram consciência do que fica dito, ou seja, não tiveram em atenção a existência da sua sombra (o seu alter ego) e das suas pulsões. «Quem quer que exerça uma liderança espiritual vê-se, mais cedo ou mais tarde, forçado e ter em conta a sua sombra e a harmonizar-se com ela se quiser avançar ou fazer avançar aqueles que conduz (…) Os mestres espirituais tiveram que se debater com as suas próprias trevas». (Pensemos em Jesus no deserto, por exemplo). «Mesmo o apóstolo mais zeloso, se permanecer inconsciente da sua sombra, projecta-la-á, mais cedo ou mais tarde, nas suas ovelhas e, assim, a sua acção apostólica encontrar-se-á pervertida ou neutralizada» (…) «Muitos líderes espirituais ou “gurus”, por terem ignorado as manobras da sua sombra, acabaram por explorar as pessoas que pretendiam no princípio querer ajudar». (…) Estabeleceram com os seus discípulos, de uma maneira mais ou menos consciente, uma dominação ciumenta, utilizando-os para satisfazerem necessidades de ordem afectiva. (…) Muitos aspirantes à vida espiritual são tão ingénuos que renunciam ao seu próprio julgamento em matéria de espiritualidade, para confiarem sem discernimento no seu mestre. (…) Muitos sucumbiram a várias tentações, designadamente à necessidade doentia de dominação. Destruíram-se a si mesmos, causando um imenso dano aos seus discípulos. A irregularidade não só dos mestres como doutros ajudantes sociais é projectarem nos seus clientes as suas próprias deficiências psicológicas e espirituais. Incapazes de acreditar nos seus recursos psicológicos e espirituais infantilizam-nos, exploram a sua dependência, ao ponto de os instrumentalizarem para satisfazer suas necessidades de posse, de ambição, etc. Acontece, demasiadas vezes, que os guias espirituais aconselham os seus discípulos a livrarem-se de certos desvios sem lhes ensinarem a maneira sã e inteligente de fazê-lo. Estas orientações, de vistas curtas, só conseguem exacerbar as obsessões e as compulsões e encerram os discípulos num círculo infernal. (Monbourquette, 1997). Tudo isto nos parece muito adequado ao caso e explica-o.

Terminamos esta parte com uma conclusão muito optimista: É possível “curarmo-nos” das projecções da sombra, reconhecendo a sua presença em nós, fazendo as pazes com elas (projecções), recuperando-as, integrando-as no nosso consciente, aprendendo a conviver com elas harmoniosamente, conciliar os traços da persona com os da sombra (pois são complementares e não opostos), criando a unidade, o equilíbrio, a paz conosco e com os outros. Isto demora tempo e paciência. É como “comer uma baleia”… Mas o Self integrador (imago Dei) está lá (na nossa essência mais íntima), para nos encorajar e apoiar (se nós quisermos, lhe pedirmos, aceitarmos, e fizermos a nossa parte…). Tornemo-nos, então, pais/mães carinhosos de nós mesmos e recuperemos a criança interior que há em nós, como se tratasse de um órfão.

Análise de Justino na perspectiva da liderança

Terá sido Justino um líder espiritual?

Na introdução à «fascinante pesquisa» de Patrícia Pitcher (The Drama of Leadership, 1997), Henry Mintzberg diz que um líder tem de ser uma de duas coisas:

  • Ou um brilhante visionário, um verdadeira estratega criativo e, nesse caso, ele pode fazer o que muito bem entende e seguir em frente;
  • Ou, então, tem de ser um verdadeiro capacitador (empowerer) que é capaz de trazer cá para fora e desenvolver o que de melhor os outros têm.
  • Os “líderes” que não são nada disto podem ser mortíferos em organizações que precisam de energia e de mudança.

 

No desenvolvimento deste tema, Pitcher designa os líderes que se enquadram no primeiro arquétipo por Artistas, os segundos por Artesãos e os terceiros por Tecnocratas, os quais podem fazer parte de uma direcção, mas já não são verdadeiros líderes.

Não vamos entrar em detalhes na análise destes arquétipos. Faremos apenas uma pequena caracterização dos verdadeiros líderes (Artistas e Artesãos), a fim de enquadrar o Tecnocrata, que desenvolveremos um pouco mais, por nos parece mais próximo do “líder” Justino.

Os Artistas e Artesãos não são grandes faladores, mas sim realizadores, detestam os convencionalismos.

O Artista é um emotivo, divertido, generoso, caloroso, relacionado, fácil. Intuitivo, imaginativo, visionário, inspirador, aberto, muito volátil, com altos e baixos, Imprevisível, excitante. Empreendedor, arrojado, audaz.

O Artesão é franco, honesto, responsável, amigável, estável, equilibrado, firme, controlado, franco. Trabalhador, dedicado, previsível, apoiante, humano, cortês, pontual. Conhecedor, reflectido, realista, sensível, culto, aberto, convencional. Com a sua experiência do terreno, a sua inteligência (intelectual e emocional), a sua honestidade, dedicação, lealdade e frontalidade, está no meio e mantém o equilíbrio.

O Tecnocrata é inflexível, dogmático, inabalável, casmurro, analítico, rigoroso, metódico (que até parece “brilhante” e todos pensam que o são...), picuinhas, fastidioso. Racional, formal, distante, intenso, determinado, sisudo, difícil.

Muito determinado em seguir o seu caminho. Pensa de determinada maneira e acha que toda a gente tem de pensar como ele. Todos podem discordar dele, mas é o pensamento dele que permanece.

Muito egocêntrico. Cabeça dura no sentido literal de duro, impenetrável. Muito arrogante.

Trabalha muito e com energia, não pela paixão de atingir um objectivo, mas porque faz parte das regras trabalhar no duro. Para ele a vida é um assunto muito sério.

É frio. Na sua presença, a temperatura baixa e as pessoas deixam de rir e brincar, porque, com ele, trabalha-se abenegadamente.

Os tecnocratas conhecem e discursam sobre todas as doutrinas, que conhecem bastante bem (pois querem estar no topo com um vocabulário convencional), mas é tudo muito vago, falam muito, mas entendem pouco e nunca largam o interesse pelo poder. São «alguém que sabe o preço de tudo, mas não sabe o valor de nada». Apesar dessa superficialidade, soam bem, sobretudo para os mais incautos. Têm receitas para todas as situações e problemas. Mascaram-se de líderes visionários (Artistas).

Por tudo isto consideram-se superiores e como tal também são considerados pelos desavisados e incautos. Por isso, eles conquistam mais facilmente o poder e detêm-no.

Daqui ressalta a ideia predominante de que os Tecnocratas têm a convicção de que detêm a verdade e, por isso, é natural que a tentem impor (a sua verdade). Pelo que todos os outros são rivais e perigosos e, por isso, eles farão tudo para os pôr sob a sua alçada e, por isso, é que são tipos perigosos na conquista e na posse do poder. «Como indivíduos eles não são o inimigo, mas como casta, como classe governante, são (...) Nós somos seduzidos por eles, porque somos os escravos de alguns filósofos defuntos. Os Tecnocratas não são demónios. São é imaturos, inadaptados, cegos, guiados pela cegueira…» (Pitcher, 1997).

De um modo geral, os Artistas são “aves raras”, são génios, sempre foram uma minoria distinta (normalmente marginalizada e, muito frequentemente, denegrida e destruída e, por vezes, só reconhecida depois, até muito depois morte...).

Os Artesãos são mais comuns, os mais equilibrados, mas não se bastam.

Os Tecnocratas com o seu beau discours e a sua matreirice imitam os Artistas e os Artesãos e são os mais vulgares, inclusive no poder, particularmente no sector público e administrativo e em alguns países, sobretudo nos de cultura latina (Pitcher, 1997).

Tendo presente as frases-chave do relato do Cisma de Penude com que abrimos esta análise, parece-nos que Justino se encaixa no perfil do Tecnocrata. Para melhor objectivação, repesquemos algumas frases-chave extraídas do relato:

Teimosia. Agarrado à sua opinião. Sempre a dar sentença sobre todos os assuntos. Não admitia que alguém tivesse razão contra ele. Fanatismo que transmitiu aos seus sequazes. Apresentava-se como modelo a todos. Perfeição. Não concedia alternativa. Continuado rigor. Vestir de preto. Retorquia que fora da sua doutrina e da sua regra de vida só existia o demónio.

Que para haver salvação é necessário haver desharmonia. «Fiai-vos só em Deus e nas minhas doutrinas, porque eu estudo muito e por isso sei o que digo; só eu vos digo a verdade». Ninguém na diocese expunha a verdade. Esforçava-se por agudizar as discórdias. Todos os outros sacerdotes pregavam a mentira, só ele ensinava a verdade. Só ele pregava a verdade como Jesus Cristo. Orgulhosa posição. «Devemos odiar os pecadores se nos desviarem do caminho dos céu. Seleccionando os textos que mais lhe convinham, ou distorcendo-os de modo a dar-lhes força comprovativa de conveniência. Para se impor, abusava da simplicidade e incultura do povo.

Em conclusão, por este relato que nos chegou (infelizmente o único conhecido) parece que Justino não era um verdadeiro líder religioso, mas assumiu o poder de uma parte da freguesia de Penude e moldou-a à sua maneira e de tal modo que marcou gerações com as suas enormes sombras que ainda hoje perduram na “memória colectiva”.

Esta análise que publicamos como nunca foi feito, tem como principal objectivo recuperar essas sobras individuais e colectivas, discutí-las sem preconceitos, sem restrições, sem medos (designadamente do “sagrado”), a fim de que possamos mudar. Sim, porque nós somos os herdeiros destes acontecimentos, destas mentalidades, destes recalcamentos, desta “neurose cristã”, destas sombras. Como vimos anteriormente, isso cura-se tomando conhecimento bem consciente do passado e tratando dele cirurgicamente, com carinho, mas também com coragem e com frontalidade.

Certamente que nem o texto único conhecido do relato dos factos, nem esta nossa análise são completos. Falta o contraditório.

Numa entrevista que fizemos (no passado Natal de 2009) a uma contemporânea destes acontecimentos com 105 anos de idade (vive precisamente na Matancinha, no coração destes acontecimentos e que foi colaboradora de Justino), confirmamos algumas das informações que constam neste relato e outras que não constam, mas que se enquadram perfeitamente no contexto. Mas também ouvimos muitas referências positivas e carinhosas ao Pe. Justino. O mesmo se diga de fontes de pessoas mais novas, mas que ouviram seus pais falar do protagonista e dos acontecimentos. E até há quem o considere santo. Creio que foi Pascal que disse: “aquele que quer ser anjo torna-se num demónio”... Só Deus sabe! Nós desejamos paz ao seu espírito e também procuramos a nossa. E foi por isso que descobrimos esta sombra.

Cada qual faça o seu papel.

José Pereira Lamelas


DICIONÁRIO - LENGA LENGA E VOCABULÁRIO E EXPRESSÕES TÍPICAS
 
Lendas de moiras encantadas, penedos misteriosos e sinos doirados - Isidro Pereira Lamelas
 

Esta secção visa aguçar a curiosidade e o interesse por um aspecto rico do nosso imaginário colectivo. Esperamos e sugerimos, por isso, que este capítulo venha a ser enriquecido por outras narrativas que os mais anciãos ainda poderão recordar…

Moiras encantadas

A maioria das lendas penudenses falam de moiras encantadas.

Num cerro sobranceiro ao corgo do Nejo (o mesmo que atravessa a Ponte do Nejo), a poente, na direcção dos Cardais, estende-se um fraguedo conhecido como "Penedo do Coução". Acreditava-se que este era habitado por mouras que iam lavar a roupa numa

represa do outro lado do corgo e que ainda hoje é conhecido como "Poça da Moira". Essas mouras encantadas possuíam tal força que transportavam penedos à cabeça, servindo-se de rodilhas de fieitos do tamanho de uma carrada.

Na mesma serra, na linha da povoação do Outeiro, ergue-se a Fraga de Santa Bárbara. Acreditava-se e contava-se que dentro desta estava escondido um sino que tocava sempre que se aproximava alguma trovoada a avisar do perigo os devotos daquela santa. Este sino teria mais tarde sido descoberto e colocado na capela do lugar.

No alto da Matancinha há outro pedregal misterioso chamado "Penedo da Caixa". Chama-se assim porque, ao baterem nele produz um som cavo, como se fosse oco por dentro. O que levava a acreditar como certo que o referido penedo encerrava preciosos tesouros no seu interior. Estes nunca poderiam, porém, enriquecer ninguém, pois eram zelosamente guardados por moiras encantadas.

Lenda do sino doirado

Há, porém, uma lenda, chamada "lenda do sino doirado", que tem realmente a ver com Penude e aparenta ter algum fundo histórico.

«Num dia de sol de inverno, andava uma pastorinha com o seu rebanho na Serra das Meadas. Estando sentada sobre umas pedras a fiar a lã da roca com seu elegante fuso, este escapou-se-lhe dos dedos e, deslizando por uma fenda da rocha, foi embater no fundo contra um objecto que produziu um som estridente. Assustada com o sucedido, a moça abalou pelo monta abaixo a contar o caso ao abade. Este, acompanhado por um grupo de homens, deslocou-se ao local e, com o esforço de todos, conseguiu retirar das entranhas da rocha fendida um pequeno sino muito brilhante, aparentando ser feito do mais puro ouro. O Achado despertou, como era de prever, grande curiosidade em todos os presentes que, de comum acordo, resolveram oferecer o sino ao Bispo. Este, por sua vez, mandou colocá-lo na torre da Sé Catedral.

Na realidade, existem documentos que falam de um sino dourado na Sé de Lamego que só tocava em circunstâncias muito especiais como, por exemplo, em 1766, no funeral de uma ilustre Senhora que deixara o legado de 2.400 reis para que o referido sino tocasse no seu enterro.

«Alminhas» cheias de histórias

Também à volta dos painéis e nichos das "alminhas" os antigos narravam histórias que impressionavam o imaginário das crianças e não só. Muitas pessoas perdidas nas tenebrosas noites de invernia se guiaram por elas. Um desses memoriais que mais histórias inspirava situava-se a uns 200 metros do povo de Quintela, à beira dos caminhos que levam às Poldras das Ordens e à Ponte de Lamelas.

DICIONÁRIO E LENGA LENGA - VOCABULÁRIO E EXPRESSÕES TÍPICAS, BRINQUEDOS  E JOGOS TRADICIONAIS
 
  1. Alho – Pedaço de terreno que, involuntariamente, ficava por lavrar ao passar o arado.
  2. Aluviar – Parar de chover
  3. Amansar – Amestrar, ensinar animal a trabalhar.
  4. Amariar – diz-se da água quando corre sozinha bem distribuída pela terra
  5. Ameijoar – Agachar
  6. Apegar - primeira rega das batatas. Depois desta primeira rega, seguiam-se outras, alternadamente "a abrir" ou "a talhar"
  7. Apeguilhar – Comer com conduto
  8. Apeiro - Conjunto formado pelo jugo com assôgas e tamueiro e as molhelhas.
  9. Aqueibar – Guiar, dar para trás ("aqueibar as vacas").
  10. Arranca – Tirar as batatas da terra.
  11. Arrelentar – Desbastar, arrancar plantas onde estas estão muito bastas.
  12. Arretranca – Peça para segurar a albarda
  13. Arrocho – Pau arqueado em forma de meia lua, para apertar a carga de burros ou cavalos.
  14. Assadura – Fêvera assada na brasa, no dia da desmancha do porco, cerca de um dia após a matança.
  15. Assôga – Fita de couro para prender a vaca, com molhelha, ao jugo.
  16. Atupir – Cobrir com terra.
  17. Aveca – Peça da charrua
  18. Belga – pequeno terreno ou um rego de água não muito abundante.
  1. Bichas - Lombrigas
  2. Boeiro – abertura redonda no fundo de tanque ou poça, por onde se escoa a água.
  3. Boliadela – Surra.
  4. Botar – Pôr (deitar).
  5. Botelha – Abóbora.
  6. Breca – Cãibra
  7. Brêz – Cesta feita de palha e vimes.
  8. Bulhar – Zaragatear.
  9. Cabedulhos – cavação que se fazia nas margens do terreno, para preparar a lavragem.
  10. Cabresto – Protecção em rede de arame colocada no focinho do animal para evitar que este comesse.
  11. Cachocho – Conjunto de molhos de cereal encostados uns aos outros em cone, com a espiga para cima.
  12. Cambão – Pau ou utensílio para ligar duas juntas de vacas ou uma junta à charrua ou grade.
  13. Camboada – Duas ou mais juntas de vacas a puxar o mesmo carro ou arado.
  14. Candeias – Luz, lanterna; Estalactite de gelo pendente dos beirais.
  15. Cangalhas – Alfaia de madeira ou em ferro, usada em cima da albarda para transportar, por exemplo, estrume.
  16. Caniço – Armação sobre a lareira para secar lenha, castanhas e pôr o fumeiro.
  17. Carangueijo – Abrunho
  18. Caturnos (coturnos) – Meias
  19. Cava-terra – Toupeira
  20. Cegar/cegada – ceifar/ceifa
  21. Chambaril – Pau curvo usado para dependurar os porcos.
  22. Chamiço – Pequenos ramos ou paus de giesta, piorna para queimar (acender o lume).
  23. Chavelha – Pequeno artefacto de madeira com que se prendia o ao tamueiro.
  24. Chiba – Cabra.
  25. Chotar – Espantar ("chotar os pardais")
  26. Chuço – Pau aguçado para meter o milho na terra, ou descascar e debulhar as espigas.
  27. Cilha – Fita de coiro para apertar a albarda ao animal
  28. Cincelos – Pedacinhos de gelo suspensos dos ramos de árvores ou arbustos.
  29. Cônfia – Confiança
  30. Coanhos – Palha miúda resultante da malhada-
  31. Cortes – Parcelas de terreno marcado para cada um dos trabalhadores.
  32. Corcalhé – Codorniz brava.
  33. Corda de enquerer – Corda mais comprida com que se prendiam os molhos nas cargas dos burros ou cavalos.
  34. Cornelho – Fungo do centeio
  35. Corrilheira – Rodilha em forma de anel que se introduzia, como protecção, nos chifres das vacas nas hora de as jungir (diz-se "junguer").
  36. Corucho – Cume em forma de cone que encerrava a meda
  37. Crostos – Flocos de leite semelhantes a requeijão (de vacas recém-paridas).
  38. Curiosidades – Novidades, referido às sementeiras ou produtos da horta.
  39. Decrua – primeira lavragem em terreno bravio, para preparar uma segunda lavragem.
  40. Descressoar – Desanimar, desistir.
  41. Ejeminar – Examinar.
  1. Embelgar – Fazer belgas, isto é, regos em paralelo para regar; ou marcar, com ramos, listras de terreno para deitar o adubo ou espalhar o cereal.
  2. Emedar – Fazer meda
  3. Empalhar – Dar a comida, na loja, a animais domésticos, mas também, deitar palha entre os pés de batata para a primeira rega (apega).
  4. Enchedeira – Peça em forma de funil largo para encher as chouriças.
  5. Endegar – Empatar ("és um endegueiro!").
  6. Enfornar – Meter o pão ao forno
  7. Engaço – Ancinho.
  8. Engalhar - Entreter, adormecer (bébé).
  9. Engronhido - Acanhado
  10. Enguedelhar – Bulhar.
  11. Enjarricado – Encolhido
  12. Enrrolheirar – Fazer rolheiro
  13. Entrudo – Carnaval
  14. Enxundia - Gordura
  15. Esborraçar – Esmagar, migar (esborrachar)
  16. Esfoira - Diarreia
  17. Escaleiras – Escadas em pedra.
  18. Escaramento – O mesmo que descaramento ou "lição" ("sirva-te de escaramento!")
  19. Escorrupichar – Fazer escorrer até à ultima gota.
  20. Esfoira - Diarreia
  21. Esprugar – Descascar batatas ou frutos.
  22. Estadulho – Fueiro, paus mais ou menos toscos usados nos carros de bois para segurar a carga.
  23. Estiada – Aberta, em tempo chuvoso
  24. Estoira-balas – Brinquedo artesanal feito de um canudo de sabugueiro e uma vareta que empurra uma bucha contra outra que sai com um estalido, por acção da compressão do ar.
  25. Estorruar – Afagar o terreno das batatas semeadas, antes que estas brotassem.
  26. Estrapuxar – Agitar-se, reagir.
  27. Estrugir – Refogar.
  28. Fardolo – Gasalho pequeno
  29. Fieito – Feto.
  30. Fieiro – Pequeno rego de água.
  31. Fintar/finto – Levedar/levedado (massa do pão).
  32. Forcado – Tipo de forquilha em pau com dois ganchos (dentes) por baixo e um por cima, para carregar gavelas de mato para estrume.
  33. Frumento – Fermento (resultante do rapar da gamela, que circulava entre os vizinhos).
  34. Fumeiro – Local onde se defumavam os salpicões, as chouriças, as buchelhas, as moiras, o presunto e o toucinho; conjunto dos produtos defumados.
  35. Gadanha – Colher de sopa
  36. Gamela – Tabuleiro em que se amassa o pão
  37. Gancho – Ancinho forte, em ferro para estorruar ou arrancar estrume das lojas e quinteiros.
  38. Gasalho – Míscaro (cogumelo comestível).
  39. Gavela – Pequena porção de tojo ou mato.
  40. Giga – Cesta em palha e vimes em forma redonda, onde se guardava o pão.
  41. Gorolo – Ovo infecundo
  1. Grade – Utensílio agrícola para alisar a terra lavrada e atupir a semente (diz-se: "agredar").
  2. Grangear – Cultiva terreno
  3. Irincus - Pirilampos.
  4. Lameira – Porção de terreno cultivável.
  5. Lenteiro – Terreno pantanoso
  6. Loja – Curral ou espaço de arrumações no rés-do-chão da casa.
  7. Lumieira – Pequeno rolo de palha usada para iluminar e queimar os pelos do porco depois de morto.
  8. Malina – Doença
  9. Mangar – Brincar
  10. Maquia – Parte do cereal que se dava ao malhador ou da farinha que se dava ao moleiro.
  11. Matadura – Ferida de animal
  12. Maúnça – Punhado de espigas de cereal unidas em forma de bouquet.
  13. Meda – Montão cónico feito com os molhos de cereal de modo a ficar impermeável.
  14. Moirão – pedra rectangular comprida que separa a cinza, debaixo da pilheira e a fogueira.
  15. Molhelha – Apetrecho em couro, palha e sarapilheira para proteger do jugo, a cabeça e cachaço das vacas.
  16. Nagalho – pedaço de pano usado para atar ou apertar.
  17. Nena – Boneca de trapos.
  18. Novela – Vaca jovem
  19. Novidades – Hortaliças ou outros produtos sobretudo do quintal.
  20. Palheiro - Meda de palha.
  21. Palhoça – Capote feito em colmo e junco (impermeável à chuva e neve).
  22. Pandorca – Gasalho grande.
  23. Paveia – Exposição do cereal ceifado, em forma de passadeira, para secar.
  24. Pernardos – Mato resultante da arranca que era posteriormente queimado.
  25. Picar – Amolar, afiar Gadanha para roçar mato
  26. Pilheira – Mesa de pedra atrás da lareira, por baixo da qual se guarda a cinza.
  27. Pinchar – Saltar para baixo.
  28. Pita – Galinha.
  29. Pito – Pinto; vulva.
  30. Piusga – Pequeno pião.
  31. Pôça – reservatório de água para rega, feito em terra batida.
  32. Polaina – Protecção feita de junco para que cobria os pés e pernas até ao joelho, usada juntamente com a palhoça para proteger da chuva.
  33. Praganas – Partículas das espigas do cereal
  34. Pular – Saltar.
  35. Pútega – Fruto em favos que nasce junto à raiz dos sargaços.
  36. Quinteiro – Varanda, na parte exterior da casa.
  37. Rabeiras – Resíduo de semente e areia acumulada nas malhadas.
  38. Rabiça – Mãozeira da charrua ou arado.
  39. Rapetas – Adereço que se coloca na charrua para rapar a erva durante a lavragem.
  1. Rebatina – Diz-se de éguas a dias.
  2. Rebusco – O que ficava depois da arranca, ou outra faina. Derradeira apanha.
  3. Rededoiro – Ramo feito com arbustos verdes, em forma de vassoura, para varrer o lastro do forno, depois de aquecido e antes de colocar as broas.
  4. Relão (pão de) – Pão de trigo.
  5. Relha – Peça pontiaguda que se aparafusava à aveca da charrua.
  6. Roga – Grupo de pessoas contratadas para um determinado trabalho.
  7. Rogar - Contratar
  8. Rolheiro – Meda de molhos de cereal, em duas águas, para escorrer a chuva.
  9. Rolho – Tampão de madeira para tapar as pôças e regular a saída da água para a rega.
  10. Saltarico – Gafanhoto.
  11. Sardanisca – Lagartixa.
  12. Sargaço – Planta rasteira, montesinha, que serve para estrume.
  13. Segada – Ceifa.
  14. Seitoira – Foice.
  15. Sémea – Pão de duas cabeças
  16. Sertã – Frigideira.
  17. Sobrecarga – Corda mais grossa com que se apertava toda a carga dos burros ou cavalos.
  18. Socas – Tamancas com sola em madeira e bota em cabedal.
  19. Socos – Tamancos com sola em madeira e bota em cabedal duro.
  20. Suã – Parte entremeada da carne de porco tirada das bandas.
  21. Taleiga – Saca de farinha
  22. Tallhadoiro – obstáculo de terra usado para desviar o curso da água nas regas
  23. Tamanco – Calçado feito com em coiro e rasto de madeira.
  24. Tamoeiro – Apetrecho de couro forte para prender a cabeçalha ou cambão ao jugo com uma chavelha.
  25. Tendedeira – Escudela para modelar as broas antes de meter ao forno.
  26. Testo (têsto) – Tampa de panela de ferro de cozer ao lume.
  27. Tio – Senhor.
  28. Torno – Apetrecho de madeira por baixo do carro, para segurar a carrada com a corda.
  29. Treitoira – Apetrecho de madeira em forma de meia lua, fixo no chedeiro, para segurar o eixo.
  30. Vencilho – Nagalho feito em palha ou feno enrodilhado (para atar os molhos).
  31. Vergalho – Verga usada para fustigar.

Expressões típicas

  1. À finca – Em competição.
  2. Agachar as calças – Fazer as necessidades maiores.
  3. A quem Deus tira dentes o diabo dá gengibras – Há sempre uma solução
  4. Aqui canta o cuco, aqui canta o gaio, aqui canta o cuco lá no mês de Maio.
  5. Andar de troca – Pagar o trabalho com trabalho
  6. Arre dianho! – Arre diacho!
  7. Às pás e às tantas: A certa altura…
  8. Cada montes! – Interjeição de espanto (meu Deus!)
  9. Cantés (quin’tés) – Quanto mais… (não sabes falar cantés escrever!)
  10. Cê pra trás! – Para mandar recuar um animal
  11. Comer um naco de pão para tapar o talhadoiro – para fechar a refeição.
  1. Correr à pedrada – Forma comum de delimitação territorial ou simples punição de quem não era bem-vindo.
  2. Dar com a carga em Alvite – Levar algo a termo ("Não dás com a carga em Alvite!")
  3. Deixar de velho – Deixar em pousio
  4. Deitar cá as águas – Conduzir a água para regar
  5. Deus ja livre! – Deus nos livre!
  6. Deus me ajude a casar em Penude, já que em Magueija não pude.
  7. Deus o permita! – Deus queira.
  8. Do cerejo ao castanho bem eu me amanho, do castanho ao cerejo é que eu me vejo!
  9. Estar com olhos de pita a pôr – Mostrar uma expressão apática, indolente.
  10. Estar sobrinçado – Estar todo partido
  11. Fazer a eira – Limpar e preparar a eira para a malhada. Era costume fazer a eira com bosta de vaca amassada em água e espalhada no chão que, depois de seca, formava um tapete consistente.
  12. Fazer pouco – Escarnecer.
  13. Fazer scárnio – Fazer pouco, escarnecer
  14. Ferver em cachão – Ferver muito
  15. Guardar a água – Vigiar os talhadoiros para que a água não seja desviada por outrem
  16. Ir à igemina – Ir ao ginecologista ou fazer um exame.
  17. Ir com as vacas – Ir para o pasto com as vacas.
  18. Ir pia cima – Ir para o monte (por aí acima).
  19. Louvores a Deus! – Menos mal, graças a Deus.
  20. Meter ao forno – Cozer o pão no forno, uma vez por semana. Quando faltava, pedia-se broa emprestada ao vizinho.
  21. Não roam as unhas! – Comam!
  22. O diabo não tem sono nem dorme! – A maldade está sempre à espreita
  23. O dianho a quatro – Ultrapassar os limites ("fez o dianho a quatro")
  24. Ó meu ver! – Pelos vistos!
  25. Pia fora, pia baixo, pi’além: Por aí fora, por aí a baixo, por aí além…
  26. Pilar – Descarcar (castanhas, favas…)
  27. Pila, pila, pila! – Para chamar as galinhas
  28. Pilha galinhas – Pindérico ("és um pilha galinhas").
  29. Por bia de; por mor de - Por causa de.
  30. Quer-se dizer! – isto é.
  31. Repuchar – Resmungar, refilar.
  32. Sume-te diabo! – Livra!
  33. Tapar o forno – Vedar a porta do forno do pão, normalmente com bosta de vaca.
  34. Tem-te! – Aguenta!
  35. Terminar um serviço – Planear.
  36. Um ror de – muito/a ("um ror de batatas").
  37. Verter águas – Urinar.
  38. Xô que está dia bô – Para "chotar" as galinhas.

Jogos tradicionais:

Pião: às canículas; à roda bota fora: O jogo do pião tinha a sua época bem definida: durante o carnaval e quaresma.

À coca: Jogo para adultos em que uns batiam com as mãos em punho nas costas dos concorrentes.

Cabra cega: Um dos jogadores, com os olhos vendados, tentava tocar ou agarrar os outros jogadores que, mantendo-se dentro de uma área previamente definida, lhe iam dando palmadas evitando ser tocados ou agarrados.

Choça - Os jogadores posicionavam-se, cada um com seu bastão na mão, em roda, a cerca de 2 metros de um buraco previamente preparado. A bola era deitada ao ar e quem lhe acertasse com o pau ganhava a bola e deveria conduzi-la com o pau até ao buraco, enquanto os outros tentavam, também com seus paus, impedir a bola de seguir o percurso pretendido. Este era um jogo muito popular entre os miúdos que andavam com as vacas no monte.

Par ou pernão: Jogado com confeitos que, escondidos na mão, eram propostos ao outro jogador que os ganhava se adivinhasse se eram em número par ou ímpar.

Espeta pau: Com paus aguçados, cada jogador tentava espetar o seu pau de modo a derrubar o dos adversários.

Espeta o prego: Com um prego longo, cada jogador tenta conquistar, furo a furo, o mundo representado num grande círculo.

Enguenchar: Jogo em que, até ao Sábado aleluia, se "mandava rezar". Obedecia a regras estabelecidas à partida: debaixo de telha, antes do tocar das Trindades etc.

Brinquedos:

Estoira balas: Um pau de sabugueiro, depois de se lhe retirar o miolo, servia de cano de disparo de uma arma infantil muito popular e inofensiva. No referido pau oco, eram introduzidas "balas", isto é, pequenas bolas feifas de pano humedecidas com saliva que, uma vez pressionadas com um pauzinho mais fino, disparavam umas a trás das outras, produzindo um estouro que entusiasmava a pequenada.

Carriço Feito com meia casca de noz à volta do qual se enrolava um fio forte e duplo, onde era engatado um pauzinho que, uma vez retorcido, encontrava no fio um efeito mola que permitia, devido à efeito de caixa acústica garantido pela casca da noz, produzir um bom efeito sonoro.

Para-quedas: Uma pena de falinha era espetada numa batata miúda ou num fruto que, uma vez deitado

 
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