Nota:
O autor deste texto, historiador penudense de renome, não
disfarça a sua pouca simpatia pelo Pe. Justino (que
qualifica de “mentalmente desequilibrado”) e seus adeptos. A
sua clara propensão apologética em relação ao Pe. Manuel
Gonçalves da Costa o prestigiado historiador da nossa terra
a acentuar sobretudo as notas negativas da personalidade e
acção do Pe. Justino. Ao fazermos, porém, o balanço
desinteressado dos males e benefícios do movimento
reformista suscitado pelo Pe. Justino, não podemos esquecer
que foram muitos os frutos positivos da sua acção,
nomeadamente no que concerne à promoção cultural e moral das
gentes da freguesia que, de boa fé, aderiram às suas ideias.
Se a árvore se deve julgar pelos frutos, há que fazer
justiça a esse homem de zelo exagerado, mas bem
intencionado, que morreu sozinho com as suas convicções, mas
que deixou marcas (nem todas negativas) nas gentes de Penude.
Feita esta ressalva, o texto de Manuel Gonçalves da Costa
continua a ser a melhor síntese escrita sobre o “cisma de
Penude” cujos contornos continuam ainda a depender sobretudo
das memórias vivas cada vez menos frescas dos que directa ou
indirectamente estiveram envolvidos.
«Um cisma supõe uma tomada de posição fundada em
determinadas motivações, perante um problema religioso,
dimensionando-o para fora das tradicionais disposições
canónicas da Igreja. Parece, pois, estranho, que um tal
fenómeno se tenha verificado entre uma população
profundamente arraigada às tradições religiosas e
culturalmente atrasada. A explicação encontra-se na
personalidade do homem que desencadeou esse movimento e cujo
carácter rigorista ia precisamente ao encontro do sentimento
religioso do povo sobre o qual mais directamente actuou.
Embora mentalmente desequilibrado, não faltava ao P. Justino
inteligência, destemor e coerência de vida com a doutrina
que pregava. Daí o seu fascínio. Podia ter sido um
reformador, se vivesse depois do Vaticano II, pois muitas
das suas críticas eram absolutamente válidas face a certos
formalismos cultuais discutíveis quanto ao seu valor. Foi
demasiadamente longe arrastado pelo próprio processo,
tornou-se orgulhosamente exclusivista e morreu excomungado.
Salvou-o possivelmente a sinceridade subjectiva das suas
intenções.»
Vida e
PERSONALIDADE DO Pe.
Justino
Justino Augusto de Freitas nasceu no lugar de Quintela, a 24
de Julho, de 1867, filho de José Casimiro Granginho e de
Guilhermina Augusta de Freitas, primo direito por parte da
mãe do P. Manuel Gonçalves da Costa. Teve um único irmão,
Luís, antigo aluno do colégio da Lapa; formou-se e viveu
praticamente toda a vida longe de família e da terra. Os
seus pais passaram a residir na sua quinta do Grandal, junto
a Sucres.
Mostrando inclinação para a vida eclesiástica, o jovem
Justino foi autorizado, por provisão episcopal de 30 de
Abril de 1883, a usar hábito talar e sobrepeliz nas funções
religiosas da paróquia, o que aliás sucedia com outros
jovens piedosos. No ano seguinte, ao completar os 17
matriculou-se no seminário diocesano como externo, ficando a
morar no Paiol, em casa de seu tio capelão da Senhora dos
Remédios. Em 1885 já frequentava as aulas na qualidade de
interno, gratuito, declarando, contudo, no fim do ano,
desistir do exame. Fê-lo três anos mais tarde, de latim e
aritmética, matriculando-se a seguir na cadeira de francês.
Ordenou-se dezoito meses depois de seu primo P. Costa. A
licença para celebrar a primeira missa tem a data de 25 de
Julho de 1894. Até 1910 desempenhou o cargo, de prefeito do
seminário, sendo a 18 de Fevereiro desse ano nomeado capelão
de Nossa Senhora do Outeiro, em Penude, função que
desempenhou até ser suspenso, pouco antes da sua morte,
sucedida a 11 de Novembro de 1935, na sua casa do Grandal
por ele reconstruída em ordem a um futuro convento. Desde 20
de Junho de 1912 começou a celebrar 2 ª missa, aos domingos
e dias santos, na capela de S. Silvestre de Quintela.
Como prefeito do seminário era tido por bom confessor,
distinguindo-se por certas singularidades e conhecida
teimosia. Um dos seus súbditos, o Mourão de Fozcoa definiu-o
como homem agarrado à sua opinião e pronto sempre a dar
sentença sobre todos os assuntos, o que lhe ocasionou vários
dissabores com os seminaristas, nomeadamente com Alberto
Herculano Mendes, que aparava todas as afirmações do P.
Justino com um «distingo» não isento de ironia.
Esta intransigência na defesa das próprias opiniões
manteve-a até ao fim da vida. Não admitia que alguém tivesse
razão contra ele, um fanatismo que transmitiu aos seus
sequazes. Tendo-se imposto a si mesmo uma conduta de
rigorosa ascese e contínua mortificação corporal e
sentimental, apresentava-se como modelo a todos os que
pretendessem escalar a difícil subida da perfeição. Quem se
desviasse dessa norma, estava em pecado mortal e no caminho
da perdição eterna. Não concedia outra alternativa. Seco de
carnes, espessas sobrancelhas de raça a ensombrar-lhe uns
olhos encovados, aquele homem nunca condescendeu com
qualquer apetite carnal, se é que os teve. Viveu em perpétuo
jejum, tomando apenas ao meio dia um caldo verde, sem mais
nada.
Uma moral
rigorista
Condenador de todo o luxo, no qual incluía a higiene, também
o não usava na sua pessoa. Calçava tamancos, excepto durante
a celebração dos actos de culto e o seu vestir era do mais
grosseiro. A sua atitude para com o sexo feminino obedecia
ao princípio, por mais duma vez proclamado, de que pecava
mortalmente quem olhasse directamente para uma mulher. Estas
eram obrigadas a vestir de preto e para que mesmo aqui não
pudesse entrar veneno de vaidade, nãos podiam usar peça nova
sem algum remendo. Quanto aos homens, bastava-lhes colocar
uma fita negra no chapéu. Quando a mãe do autor lhe pediu,
em 1921, para lhe dar a sagrada comunhão, ele persuadiu-a a
não o fazer, pois cometeria sacrilégio por vestir de claro.
Este princípio estendia-se às próprias imagens veneradas nas
altares e por isso mandou substituir um vestido, branco,
curto, bordado a oiro, num Menino Jesus da capela de
Quintela por um saio liso, até aos pés. [as imagens vestidas
de preto de S. Juliana e outro santo que ainda hoje se
conservam em mãos seguras eram o modelo a imitar por todos
os seus seguidores]
Em princípio condenava a existência de imagens, mas não de
retábulos pintados. Ordenou a remoção dum S. Silvestre da
referida capela que um freguês, de nome Bernardo, levou
consigo para casa, com estas palavras: «Anda lá, meu
santinho; já nem tu escapas da boca do mundo». Em Cristo só
via o Crucificado. O corpo era, por essência, pecado e o
homem só podia salvar-se crucificando-o através da
mortificação continua. Consequentemente o matrimónio,
gerador de corpos, era uma invenção do demónio e não havia
outra solução senão suprimi-lo. Deus era suficientemente
poderoso para criar novos seres no seio materno por
ministério dos anjos, no caso de ser sua vontade continuar a
humanidade. Este assunto constituía matéria das suas
homilias e a quem lhe opunha alguma objecção retorquia que
fora da sua doutrina e da sua regra de vida só existia o
demónio e os seus servidores.
Como era de esperar, o elemento feminino constituía a parte
mais numerosa e mais dedicada do seu rebanho. Entre elas
constituiu um grupo de activistas especialmente preparadas
para andarem pelos povos a indagar do que se passava nas
vidas particulares e o relatarem ao seu «santo padre»,
fornecendo-lhe assim assunto para as suas longas pregações
condenatórias. Também o clero, sem excluir o próprio
Prelado, foram objecto de críticas e acusações por se
recusarem a aceitar as suas interpretações doutrinárias.
DA COMUNHÃO À EXCOMUNHÃO
A 12 de Maio de 1921, celebrou-se na igreja paroquial a
festa da comunhão solene das crianças, precedida dum tríduo
de pregação, com a presença do bispo e abrilhantada por uma
orquestra de Lamego. Contaram-se para cima de 800 comunhões,
sendo 180 de crianças. Foi administrado o crisma geral e à
despedida do Prelado estralejaram no ar umas dúzias de
foguetes. No domingo seguinte, nas homilias que duraram duas
horas, o P. Justino condenou directamente a cerimónia e os
seus organizadores, afirmando:
A comunhão das crianças não foi comunhão mas excomunhão e
constituiu um montão de pecados e sacrilégios. A única
pessoa que recebeu o Senhor em graça foi a cega de Sucres.
Tudo ali foi vaidade, a começar pelo Bispo com a sua inútil
corrente de oiro ao pescoço. Quanto às crianças, vestidas de
véus que nada cobriam, era preferida apresentarem-se
despidas. Ele, P. Justino, conversou com o Prelado e com
alguns padres na sacristia, sem que nenhum deles pudesse
responder às objecções que lhes pôs contra o uso do oiro e
da prata: calaram-se, deixando-o mais uma vez vencedor.
Observou o modo como decorreu o crisma, que não passou dum
verdadeiro escândalo. Houve até uma mulher que o recebeu em
cabelo por lhe cair o lanço. Não foi uma festa, foi uma
feira, ou antes uma rede do diabo para levar as almas para o
inferno. Todas as festas são mal feitas e pecam mortalmente
os que para elas contribuem com esmolas ou serviços. O abade
devia colocar, à porta da igreja, o seguinte letreiro: «Aqui
é a casa do diabo e a porta do inferno».
O pároco havia-lhe escrito pedindo-lhe para anunciar a vinda
do senhor bispo, recomendando-lhe ao mesmo tempo explicasse
ao povo a doutrina sobre o sacramento do crisma. Mas a única
coisa que ele podia dizer era que nesse dia só iria à igreja
quem andasse cego. Quem lá ia era para pecar e fazer pecar
os outros, como sucedeu com o próprio Bispo que se viu
obrigado a afastar o cabelo da testa de algumas mulheres
para lhes fazer a cruz. A música transformou o templo num
teatro lírico. O Prelado não cumpre os seus deveres, aliás
proibiria aos párocos de organizarem semelhantes festas, as
quais agradam menos a Deus do que uns poucos cães a ladrar.
O pregador do tríduo, P. José Maria, fez no último dia um
apelo a favor do seminário, exortando os fiéis a auxiliá-lo
com algumas ofertas. A esse propósito, afirmou o P. Justino,
na capela do Outeiro, a 19 de Junho, conforme o testemunho
duma pessoa qualificada:
Para haver salvação é necessário haver desharmonia. Jesus
Cristo veio trazer desharmonia à terra. Na freguesia já
alguma gente se salva, porque veio a ela pregar o diabo
enviado pelo inferno. O missionário afirmou que o oiro não
era pecado, como o não era a cor do vestido. Esse homem não
passa dum intrujão, que só deitou blasfémias do púlpito para
baixo. Que ninguém se fie da sua doutrina, nem dos doutores
Pedrosa e Paiva, ou do senhor Bispo, que só sabe falar alto
por ter bons pulmões. No cabo, não passam duns ignorantes,
porque não estudam. «Fiai-vos só em Deus e nas minhas
doutrinas, porque eu estudo muito e por isso sei o que digo;
só eu vos digo a verdade». O próprio abade diz falsidades,
pois não tem tempo para estudar. Quanto às esmolas para o
seminário, elas só servem para se ordenarem diabos que vêem
depois cá para fora pregar doutrinas falsas.
Depois de duas horas de dislates deste jaez lançadas aos
ouvidos duma gente simples, paciente, mas já bastante
desnorteada, o P. Justino terminou oferecendo a soma para o
tempo muito avultada de 4 mil escudos a quem fosse capaz de
o contradizer. Afirmou que viveu durante 24 anos no
seminário como aluno e prefeito e sabe o que lá se faz. Por
isso, peca mortalmente quem enviar esmolas para o Seminários
sem verificar antes se elas são empregadas em pessoas
dignas. O assunto das homílias não saía destes temas.
Segundo ele, ninguém na diocese expunha a verdade. Os
pregadores encobriam os vícios dos fiéis, pois de contrário
eles não lhes dariam dinheiro a ganhar. O mesmo acontecia
com o abade, que se tornava cão mudo para não ficar de mal
com os fregueses.
Tal como sucedia com as festas, o P. Justino atacava também
a devoção ao S. Coração de Jesus, procurava desviar o povo
de se inscrever nas confrarias e não só suprimiu o ensino da
doutrina mas pressionava as famílias no sentido de impedir
que enviassem os filhos à catequese paroquial. Nas reuniões
realizadas na capela da Matancinha, centro da nova ceita, e
na direcção espiritual intensiva, esforçava-se por agudizar
as discórdias entre os fregueses e o pároco legítimo,
insistindo até à saciedade na afirmação de que todos os
outros sacerdotes pregavam a mentira, só ele ensinava a
verdade.
A situação tornava-se perigosa face à desorientação que se
estava a criar nos espíritos. Por isso, a 20 de Junho do
citado ano de 1921, o pároco achou seu dever oficiar ao
Prelado pedindo-lhe mandasse fazer uma sindicância por
pessoa imparcial para depois tomar as providências que
julgasse oportunas a fim de tranquilizar os fiéis. A
resposta de D. Francisco José foi que, antes de intervir,
precisava de conhecer casos concretos. Daí a inquirição
feita na presença do abade e algumas testemunhas juradas, as
quais firmaram o que acabámos de expor. Uma delas, Macário
Gonçalves, de Quintela, acrescentou que deixara de assistir
às práticas do P. Justino por não estar de acordo com a
doutrina exposta.
Entretanto o capelão do Outeiro, que através das suas espias
andava a par do que se passava, voltou à carga no dia 3 de
Julho, censurando asperamente o pároco pelas suas
diligências. Como resultado, este tomou a resolução, de não
presidir à festa de Nossa Senhora do Rosário, no dia 15 de
Agosto, a não ser que fosse obrigado por uma ordem formal do
senhor Bispo. Os mordomos, José Lamelas, Joaquim da Costa
Cardoso, Justino da Silva e José Alves da Silva avistaram-se
com D. Francisco José, a 5 daquele mês, tendo recebido a
mesma resposta: que o pároco lhe apresentasse factos
comprovados por testemunhas e só então tomaria providências.
Afinal, a festa acabou por ser suprimida, celebrando-se
outra na véspera em honra doe Santo António, na qual pregou
o jovem presbítero Aníbal R. de Bastos o qual, a propósito
dos exemplos do santo taumaturgo, exortou os fiéis a
obedecerem aos legítimos superiores, no final aludiu também
às necessidades do seminário, pedindo se mostrassem
generosos com ele como o foram com a capela para a qual
acabavam de adquirir um carrilhão de sinos, quando afinal
bastava uma sineta. E para inflamar o ânimo dos ouvintes
declarou que, se não falasse verdade, rasgaria a batina ou
daria a própria vida. Comentário do P. Justino na homília do
dia 15:
O pregador só ensinou a mentira e o erro, com a agravante de
ter misturado algumas verdades para iludir o povo. A verdade
é que somos obrigados a obedecer aos superiores unicamente
quando estes forem bons; de contrário, temos de
desobedecer-lhes como fez Santa Bárbara com relação a seu
pai. Ora, são padres maus todos os que vestem
indecentemente, usam cabeção alto, calças à moda botas
engraxadas, etc.; são bispos maus os que se não apresentam
como S. Pedro, que deu exemplo, com vestes rotas, descalço,
etc. Hoje, porém, só escolhem para bispos fidalgos gordos,
amigos de bons jantares, vaidosos, aperaltados, que gostam
de vestir-se de seda, com cruz de oiro ao peito e botas
luzidias. A seguir voltou a atacar o seminário e a
responsabilizar pelos males causados pelos padres aqueles
que os ajudassem a formar-se.
Como era seu hábito, retomou o assunto, nos domingos
seguintes, com afirmações como esta: Foram os padres que
crucificaram a Jesus e um bispo quem lavrou a sentença de
morte. Os actuais não são melhores, pois todos os dias
cometem sacrilégios. Só ele, P. Justino, prega a verdade
como Jesus Cristo e por isso é odiado pelos padres. O P.
Anibal afirmou que rasgaria a batina, mas não ofereceu
dinheiro a quem o desmentisse, como ele, que apostou a 4
contos. É fácil rasgar a batina, pois os maus padres
odeiam-na. Afirmou também que daria a sua vida: mas quem
quer um cadáver? Não passam duns escandalosos. Ele, P.
Justino prega a verdade da Bíblia e esta lhe basta para
vencer todos, os padres e o próprio Bispo. A propósito dum
pároco que negou valor ao trajo negro, afirmou que o tal não
passava dum verdadeiro diabo e quem se fiasse nele iria
direito ao inferno.
CAPELA DA MATANCINHA
Temos de reconhecer que o desequilíbrio mental não explica,
só por si, tantos dislates, muitos dos quais denunciam uma
intencionalidade malévola, bem que um tanto infantil. O P.
Justino tornara-se vítima dos próprios acontecimentos que o
levaram a lançar mão de todas as distorções, conscientemente
ou não, para defender a sua orgulhosa posição. A mesma
atitude se manifesta, na questão, da capela da Mantancinha.
Num pequeno largo, a meio da povoação levantava-se, desde o
século XVII, um característico cruzeiro de pedra, com o
Senhor Crucificado e a Senhora da Piedade a meio da haste
inferior, que pelos anos de 1932 foi, por diligências do
pároco, indevidamente retirado para a beira da estrada
nacional. Consta que o povo costumava rezar o terço e
ocasionalmente praticar outras devoções à volta do piedoso
monumento, facto que podia ter despertado a ideia da erecção
duma capela. O plano foi perfilhados pelo F. Justino que
imediatamente traçou planta gravando-a à navalha num cepo de
castanho; e de acordo e com a colaboração do pároco, a
pedra, embora um tanto porosa foi cortada na lombada
fronteira, entre a Camba e a ponte de Reconcos, tomando a
povoação um ar festivo sempre que os lavradores de Penude e
Magueija chegavam com os carros chiadeiros embandeirados de
flores. Ainda hoje, na referida lomba, se pode contemplar a
chamada «Cruz do P. Justino», cravada sobre um penedo
ovalado, numa face do qual foi aberto a pico a inscrição: «Esta
Cruz foi feita a 30/X/1917. Ó Boa Cruz, por ti me receba
quem por ti me remio S.to André»; e na outra: «Salve,
ó Cruz preciosa».
Na planta primitiva estava prevista uma capelinha em honra
do Anjo da Guarda, em frente da principal, esta dedicada à
Exaltação da S. Cruz, seguida de outras 7, em memória das 7
Dores de Nossa Senhora, dispostas ao longo do caminho que
desce até à estrada nacional. Como porém tal projecto
acarretasse demasiada despesa, foi resolvido erigir as 7
capelinhas na retaguarda do templo, ficando o espaço
intermédio reservado para cemitério. O terreno foi oferecido
parte pelo Sr. Avelino Capela, parte pelo Padre Albino, tio
do falecido Pe. Manuel Gonçalves Pereira. Entre as muitas
inscrições espalhadas pelo exterior das paredes encontramos
duas referentes à data do começo das obras. Diz assim a
primeira, em letras salientes, à volta do bem trabalhado
brasão sobre a porta principal:
«Operam
noN perdit qui Deo laborat.
Os fundadores desta
capella resolveram dedicala a S. Cruz de Jesus Fonte Perenne
de seus trabalhos. Começada a 13/2/1917». A outra,
numa carteia do braço lateral direito, diz assim: «A
1a pedra assente no dia da exaltação da Santa Cruz, 14/9/1917».
O P. Justino, dotado de inegável gosto e habilidades
artísticas, foi não só o autor dos desenhos dos vários
motivos que ainda hoje podemos admirar nos alçados, mas por
suas próprias mãos cinzelou alguns dos mais delicados
lavores. Consta que as esculturas da frontaria foram
executadas por um cinzelador de Cambres conhecido por
Fivelas. A obra de pedreiros foi confiada ao Hipólito, de
Magueija, auxiliado por dois filhos.
Apesar do exclusivismo idiossincrático do capelão, parece
que a harmonia dos três sacerdotes [Pe. Justino, Pe. Manuel
Gonçalves da Costa, P. Albino Alves Pereira, tio do
recém-falecido Pe. Manuel Gonçalves Pereira] não foi abalada
durante os primeiros três anos, antes, de ser gravado um
letreiro por baixo da pedra que ostenta três cruzes, ano,
braço esquerdo, da capela, que rezaria assim: «Foram
fundadores desta capela o P. Manuel Gonçalves da Costa, P.
Albino Alves Pereira
e o P. Justino
Augusto de Freitas».
Como o, P. Costa desaprovasse aquela memória, o P. Justino
pegou logo dum cinzel, subiu a uma escada e rasou todas as
letras.
A obra encontrava-se concluída por 1921, num tempo em que a
oposição da seita à autoridade eclesiástica começava a tomar
um cunho de verdadeira revolta, o que dificultava
naturalmente a concessão da licença para a sagração da
capela. Em vista disso, o P. Justino e os principais
sequazes resolveram formar uma «Sociedade de Culto», com
escritura pública comercial firmada por mais de 100
assinaturas, lavrada pelo notário Sancho, com sede na
Avenida da Boavista, no Porto. A cúria eclesiástica de
Lamego, em parte sob pressão de alguns simpatizantes do
capelão, em parte na esperança de evitar maiores males,
mostrava-se inclinada a proceder à bênção do templo.
Persuadidas que a oposição do pároco era o único, obstáculo
à realização da cerimónia, uma longa fila de «pretas»
dirigiu-se numa tarde de domingo à sua casa do Serradinho,
não para pedirem a sua colaboração, mas para discutirem com
ele sobre o assunto. Com passagens da Escritura, dos Santos
Padres e da Moral na ponta da língua, as novas escolares, na
maioria, analfabetas, pretenderam dar uma lição que o P.
Costa não estava naturalmente interessado em escutar. Então,
uma das mentoras garantiu «que a capela seria benzida, se
Deus quisesse, mesmo que o pároco não quisesse», aos que
este retorquiu, no mesmo tom que «se Deus quisesse, então
Deus, que a benzesse».
A frase, evidentemente de circunstância, foi o bastante não
só para levantar um grande escândalo, mas também para o P.
Justino compor e mandar espalhar mais um folheto intitulado
«O se e as suas consequências», no qual o abade era
acusado de ateu e se reforçava o argumento da desobrigação
de obedecer-lhe.
Entretanto tendo o bispo coadjutor D. Agostinho sido
encarregado do governo da diocese, uma comissão
representativa da Seita avistou-se com ele, tomando o
compromisso de respeitar todas as leis eclesiásticas
referentes a capelas públicas, o que levou o Prelado a
anunciar ao abade a sua disposição de atender à petição, sob
certas condições, entre elas a de que a capela ficaria em
tudo sujeita à jurisdição do legítimo pároco da freguesia.
Comunicava-lhe ainda que em princípio tinha exigido a
dissolução da «Sociedade», mas em vista das dificuldades
legais desistia dessa formalidade. O requerimento, segundo
as disposições canónicas, seria apresentado pelo abade.
Portanto, se nestas circunstâncias não julgasse conveniente
a bênção da capela, agradecia lho comunicasse.
Como era de esperar, o P. Costa não pôs quaisquer objecções
à proposta do Prelado. Este teve ainda a delicadeza de lhe
enviar, a 30 de Outubro de 1924, a minuta do decreto,
pedindo-lhe que lhe dissesse com franqueza se pelas suas
cláusulas ficavam salvaguardados os direitos paroquiais, e
se achava a ocasião oportuna para a realização da cerimónia
que tencionava confiar ao Dr. Paiva. De novo o abade se
mostrou de acordo com os desejos de D. Agostinho e o decreto
a autorizar a bênção da capela da Matancinha foi finalmente
publicado a 4 de Novembro seguinte. Diz-se nele que, em
vista das informações do pároco e de outras pessoas e para
os mais interessados terem assinado uma escritura na Câmara
Eclesiástica, pela qual se obrigavam a não dar ao templo um
destino diferente daquele para que fora construída, e
proverem às despesas para a manutenção do culto, o Bispo
relevava-os, da falta de licença para a construção da obra,
por estar persuadido de que o fizeram por desconhecimento da
lei. A capela seria pública, em tudo sujeita à jurisdição do
pároco, que nela podia exercer acções paroquiais e impedir
actos contrários à disciplina eclesiástica; os encarregados
poriam à sua disposição as alfaias sempre que ele lá
quisesse celebrar. Nessas condições, autorizava o
vice-reitor dos seminário, cónego Joaquim Pereira Pedrosa e
Sousa a proceder à bênção da capela e a celebrar nela a
primeira missa, depois de ler o decreto ao povo. No fim
lavrar-se-ia o respectivo auto assinado pelo sagrante,
pároco e outras pessoas.
A cerimónia realizou-se pacificamente nos começos de Janeiro
de 1925, tendo no final o Sr. Avelino Capela, um dos que
nunca aderiu ao movimento do P. Justino, oferecido um almoço
ao representante do Prelado e seus acompanhantes, entre eles
o autor deste texto [Manuel Gonçalves da Costa]. A bênção
restringiu-se à capela da Santa Cruz, excluindo as
construções anexas.
DA INTRANSIGÊNCIA AO CISMA
Quem julgasse que a calma tinha voltado finalmente à
paróquia de Penude é porque não conhecia a força carismática
das convicções do P. Justino. Não passaram muitas semanas
sem que retomasse os seus ataques ao pároco, em tom cada dia
mais violento, até chegar a completa rotura. Em referência a
um folheto no qual se citava uma passagem da 2.a
Epístola de S. João, 10, 11, foi-lhe perguntado que
espécie de pecado cometiam os que contactavam com hereges. A
resposta foi:
«Considero pecado mortal saudar um herege; é uma acção má,
porque proibida por S. João e S. Paulo». Mas pressionado por
argumentos em contrário, concordou que a Igreja podia
revogar uma lei disciplinar promulgada pelos Apóstolos.
Naquele escrito [intitulado
O mas a algumas afirmações e que se encontra nas mãos de
um privado],
ele fazia o paralelo de
pai, mãe e filho, com Deus, bispo e padre, ou entre superior
maior, superior menor e súbdito, argumentando deste modo: Se
o superior maior ordena uma coisa, e o superior menor o
contrário, a qual deles deve o súbdito obedecer? Se o
superior menor quiser obrigar o súbdito a obedecer-lhe, é
injusto, mau e soberbo, por pretender mandar mais do que o
superior maior. Consequentemente, ele, P. Justino, não deve
obedecer ao senhor Bispo, mas ao superior maior, que é Deus.
Quanto, ao pároco, este mostrou ser herege quando, a
propósito da bênção da capela da Matancinha, afirmou que
Deus não era todo-poderoso e que se devia obedecer ao Bispo
mesmo quando mandasse alguma coisa contra Deus, e que se
podia ir para o céu mesmo sem imitar os Santos. Logo, como
herege que era, não se podia assistir à missa por ele
celebrada, receber os sacramentos ou abrir-lhe a porta na
visita pascal.
Outro ponto de doutrina deturpado pelo P. Justino para
justificar a sua atitude foi o da caridade. Desvirtuando o
sentido do verbo «odiar» numa passagem bíblica, chegou a
escrever frases como esta: «Devemos odiar os pecadores se
nos desviarem do caminho dos céu, mas amá-los no caso
contrário».
O folheto intitulado Crime divide-se em, 2 partes: O
autor afirma que «pode dar-se o caso de a obediência ser um
crime e que quem obedece um criminoso», aduzindo exemplos da
Bíblia, do Ano Cristão, e da Moral em que se
descreve a oposição de filhos a pais; e de súbditos a
superiores que ordenavam coisas contra Deus, fazendo a
seguir a aplicação ao pároco da freguesia. A 2.a
parte começa: «É um crime ir à missa quando...» distorcendo
o sentido da palavra «crime» e acobertando-se com a
autoridade de S. Gregórioo VII que proibiu os fiéis de
assistir ao santo sacrifício celebrado por sacerdotes em
pública mancebia, acabando também ele por proibir os seus
correligionários de frequentarem a igreja paroquial. E
continua:
«Devereis, seguir a qualquer padre não suspenso? Não, porque
pode ser mau e não estar suspenso, ou porque não há quem
diga ao Sr. Bispo quem ele é, ou porque é mau o Sr. Bispo.
Para te não enganares, segue a Jesus, aos padres santos e de
boa doutrina, (...). Jesus, mestre da verdade, não nos manda
seguir a qualquer padre, nem mesmo aos que parece que são
bons, mas só aos que fazem boas obras (...). Deverei seguir
ao meu abade (...) logo que não esteja suspenso? Não.
Devemos seguir as Beatas da Matancinha que andam, vestidas
de luto para recordar a Paixão de N. Senhor? Não, mil vezes
não» [frase com sentido irónico, eco das afirmações do
pároco da freguesia].
Na sua pequena comunidade tinham acabado os casamentos, já
que as bodas constituíam pecado mortal; os enterros
faziam-se civilmente; os baptizados, porque o pároco não
autorizava a vinda dum sacerdote estranho, eram
administrados por um dos principais da seita para isso
eleito, já que o próprio P. Justino se recusava a tomar essa
responsabilidade, motivada não sei por que inibição. Na sua
fraqueza, ele começava já a ser dominado pelos discípulos
suficientemente esclarecidos para tirarem as conclusões das
doutrinas que lhes eram administradas.
Entretanto a freguesia vivia em contínua efervescência, as
discussões surgiam por toda a parte quase nunca dum modo
pacífico. Os adeptos do chefe carismático, como fervor de
neófitos ou de fanáticos provocavam os opositores para
apostas, adiantando por vezes grandes somas de dinheiro,
gabando-se do seu triunfo uma vez que ninguém convinha em
tão ridículo processo de provar a verdade e o erro.
Por 1928, a desorientação tinha atingido o auge frente à
audácia dos reformadores no ataque a toda a autoridade da
hierarquia eclesiástica, providos como estavam de textos
para toda a classe de argumentação. De facto, o mestre
tinha-os dinamizado culturalmente através de citações
extraídas da Bíblia, Santos Padres, História Eclesiástica,
tratado de Moral de Del Vecchio, do Ano Cristão,
do Tratado de Perfeição de Afonso Rodrigues, ou do
Breviário, seleccionando os textos que mais lhe convinham,
ou distorcendo-os de modo a dar-lhes força comprovativa de
conveniência. Consta que a cega de Sucres, de nome Rosa, uma
das mais qualificadas defensoras da nova religião, sabia de
cor todo o tratado de Moral de Del Vecchio. E uma tia do
autor, de nome Gracinda Gonçalves, alma simples, bondosa e
bem intencionada, que mal sabia escrever, numa carta que lhe
dirigiu, para Espanha, a 22 de Fevereiro de 1928, redigida
certamente em conciliábulo dos correligionários, no
propósito de justificar a sua adesão à seita e a revolta
contra as autoridades legítimas, citava passagens de todas
as obras mencionadas acima, sem omitir a indicação das
páginas e versículos. Em outra carta, de 16 de Dezembro,
explicava o corte de, relações com o abade dizendo que
tinham procedido assim, para o fazerem cair na conta do seu
erro, e porque a tanto as obrigava a consciência e a
caridade. Declaravam-se, contudo, prontas a obedecer ao, Sr.
Bispo se este o substituísse por outro pároco que não
ensinasse os mesmos erros, isto é, um sacerdote que se
tornasse ele mesmo sectário das doutrinas justinianas.
Era tempo de a autoridade responsável intervir com o rigor
das censuras eclesiásticas, como sucedeu. Antes, porém, D.
Agostinho procurou esclarecer os espíritos desorientados
através duma série de artigos publicados no Boletim da
Diocese. Foi-lhe fácil mostrar a falta de fundamento e a
inconsistência das afirmações do P. Justino, o qual, para se
impor, abusava da simplicidade e incultura do povo. Tratou
das apostas como argumento de verdade, da caridade e sua
extensão, das relações com hereges, do significado da
expressão «estar com os Bispos e com o Papa», e das
doutrinas e ideias avariadas. A 21 de Junho daquele ano saía
impresso o «Interdito e declaração de cismáticos».
Na introdução da sentença fazem-se vários considerandos
sobre os factos ocorridos e sobre a contumácia e soberba do
réu que já lhe merecera a pena de suspensão, concluindo por
declarar cismáticos todos os que interromperam a comunhão
com o pároco da freguesia, proibir a leitura dos escritos
espalhados pelo P. Justino e lançar o interdito à capela da
Matancinha dentro da qual ninguém de futuro poderia entrar
sob pena de pecado mortal. O decreto, depois de publicado,
seria lido nas igrejas paroquiais da cidade, Penude,
Arneirós, Magueija e Pretarouca.
ORGULHOSAMENTE SÓ ATÉ À MORTE
O oposição por parte do clero e do Prelado era aproveitada
pelo réu a seu favor, afirmando que sofria perseguição, à
imitação de Jesus, por pregar a verdade auferida na leitura
da Bíblia e do Breviário. Acatou, no entanto, a pena de
suspensão, deixando de celebrar; e nas reuniões frequentes
com os seus sequazes dava-lhes esta norma de proceder: «Não
devemos seguir um padre suspenso, porque mesmo que tenha
sido suspenso porque o Bispo é mau, ou porque foi enganado,
e o padre é bom, não o sigamos, mas sigamos a Jesus, e
seguindo a Jesus, seguiremos o padre mesmo sem o seguirmos».
Apesar de se considerar injustamente punido, não utilizou a
via que lhe era facultada de recorrer ao metropolita de
Braga, ou até à Santa Sé e requerer um exame das suas
doutrinas. Ele sabia que não tinha hipótese de justificação.
Preferiu por isso constituir-se juiz de si mesmo.
A declaração de cisma com todas as suas implicações de ordem
moral e psíquica constituiu um golpe incurável no
fisicamente fraco, doente e provavelmente atribulados chefe.
Os continuados jejuns, penitências e trabalhos tinham-no
reduzido a um esqueleto. Durante anos, depois de celebrar,
metia-se no confessionário onde atendia os penitentes horas
seguidas e só tarde tomava a única e frugal refeição. Este
continuado rigor tinha necessariamente de afectar as suas
faculdades mentais já de si predispostas a peregrinas ideias
místicas, concentradas no Cristo sofredor e no homem
pecador.
Impossibilitado de prosseguir na sua obra reformista,
resolveu encerrar-se definitivamente dentro do pesado
casarão da sua quinta que um dia sonhara ampliar para nela
instalar a sede de formação, de apóstolos e santos dum
cristianismo renovado. Consta que na prática de despedida
ele dissera à assembleia dos seus fiéis comovidos: «Vós
sabeis o que haveis de fazer para vos salvar; eu também seio
que hei-de fazer para me salvar». Recolheu ao Grandal e
nunca mais de lá saiu.
É fama corrente que à hora da morte pedira ao caseiro: «Vá
chamar o meu primo padre Costa». O caseiro, porém, seu
ferrenho adepto, não o chamou. Casos semelhantes sucederam
com algumas devotas. A uma que pediu para se confessar,
respondeu a irmã: «Estás muito bem confessadinha; não,
precisas de padre para nada».
O P. Justino faleceu a 11 de Novembro de 1935 e no dia
seguinte foi a enterrar civilmente numa cova rasa do
cemitério paroquial. Nem uma lápide, nem qualquer espécie de
culto recorda o lugar onde se desfizeram a sua pele e os
seus ossos, pois do cadáver pouco mais encontraram os bichos
que comer. Cinco anos depois falecia o pároco, Manuel
Gonçalves da Costa, principal alvo dos seus ataques.
RESCALDO DO CISMA
O Status Animarum de 1934 revela-nos um pouco a
penetração geográfica da seita do P. Justino. Dos 72 fogos
da povoação da Matancinha, em 17 não se desobrigou ninguém,
em outros menos de metade dos familiares, e em alguns um ou
dois. Nos outros povos falharam 8 famílias no Bairral 2 em
Sucres, 2 em Quintela e uma nos lugares de Quintãs e Penude
de Baixo. Podemos concluir que os adeptos activos não
passavam de 120, embora fossem numerosos os
simpatizantes.
Com a interdição da capela, a comunidade reunia-se numa casa
particular vizinha onde fazia meditação diária pela manhã e
recitava o terço à tarde. Nos domingos e sextas-feiras, o
terço, meditação dos mistérios, salve rainha e ladainhas
eram cantados por toda a assistência com música
expressamente composta pelo maestro Saldanha Júnior, no seu
estilo romântico, e sentimentalmente piedoso, músicas essas
cujos originais ainda sei conservam. Com a morte, porém, do
chefe, o movimento desorganizou-se, a linda capela voltou a
abrir ao culto e aquela gente simples e sinceramente cristã
sujeitou-se pouco a pouco à legítima autoridade, tornando-se
num dos grupos mais consciente da freguesia na prática dos
actos religiosos.
Talvez este facto tenha feito inclinar a balança a favor do
P. Justino, lá no tribunal da última instância onde mais que
os actos valem as intenções, porque só estas pertencem
totalmente à pessoa humana e só Deus as conhece até ao
íntimo, da sua génese, na misteriosa região onde a alma se
distingue do espírito».
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UMA ANÁLISE CRÍTICA AO CISMA
DE PENUDE |
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José Pereira Lamelas |
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O
Cisma de Penude foi um acontecimento que sempre me
intrigou e que eu sinto que faz parte de mim e do
meu povo.
O
objectivo do nosso site é «partilhar o que sentimos,
o que pensamos, o que sonhamos». De uma maneira
totalmente livre, franca e aberta, sem preconceitos,
sem tabus. Apenas com uma restrição: o respeito e a
inteligência do bom senso. «Partilhar o que perdemos
e ganhamos. Porque da partilha brota a reflexão, a
mudança, o questionamento do nosso ser, este ser que
se constrói e reconstrói».
Com a
análise deste caso tão singular e desconhecido de
muitos penudenses, vamos reconstruir uma parte do
nosso passado que está na sombra e nos afecta.
Está
aberto o debate, uma nova maneira ainda mais rica de
utilizarmos este nosso meio de comunicação e de
introduzirmos mais dinâmica no mesmo. Venham à liça,
amigos!
Vamos
começar por fazer uma resenha (que é da total e
única responsabilidade do autor desta análise)
daquilo que pensamos serem frases-chave que
retiramos do relato do caso que Isidro Lamelas
preparou e, depois, faremos uma análise do caso
Justino enquadrada na interessantíssima psicologia
analítica de Jung, designadamente à luz da teoria da
sombra.
Finalmente, faremos, também, uma abordagem ao perfil
de Justino como “líder” religioso.
Frases chave do relato do
cisma de Penude
«Conhecida teimosia. Homem agarrado à sua opinião.
Pronto sempre a dar sentença sobre todos os
assuntos. Não admitia que alguém tivesse razão
contra ele. Um fanatismo que transmitiu aos seus
sequazes. Apresentava-se como modelo a todos.
Perfeição. Não concedia outra alternativa. Nunca
condescendeu com qualquer apetite carnal. Perpétuo
jejum. Tomava a única e frugal refeição. Apenas ao
meio dia um caldo verde, sem mais nada.. Este
continuado rigor tinha necessariamente de afectar as
suas faculdades mentais já de si predispostas.
Pecava
mortalmente quem olhasse directamente para uma
mulher. Eram obrigadas a vestir de preto. Não podiam
usar peça nova sem algum remendo. Fita negra no
chapéu. Cometeria sacrilégio por vestir de claro.
Estendia-se às próprias imagens veneradas nos
altares. Em Cristo só via o Crucificado. O corpo
era, por essência, pecado e o homem só podia
salvar-se crucificando-o. Mortificação contínua. O
matrimónio, gerador de corpos, era uma invenção do
demónio. A quem lhe opunha alguma objecção retorquia
que fora da sua doutrina e da sua regra de vida só
existia o demónio. Constituiu um grupo de
activistas, para andarem pelos povos a indagar do
que se passava nas vidas particulares e o relatarem.
Também o clero, sem excluir o próprio Prelado, foram
objecto de críticas e acusações por se recusarem a
aceitar as suas interpretações doutrinárias.
Homilias que duraram duas horas. A comunhão das
crianças não foi comunhão mas excomunhão e
constituiu um montão de pecados e sacrilégios. Todas
as festas são mal feitas e pecam mortalmente os que
para elas contribuem. Igreja (matriz) casa do diabo
e a porta do inferno. A música transformou o templo
num teatro lírico, cães a ladrar. Para haver
salvação é necessário haver desharmonia. O
missionário intrujão, que só deitou blasfémias do
púlpito para baixo. Não passam duns ignorantes,
porque não estudam. “Fiai-vos só em Deus e nas
minhas doutrinas, porque eu estudo muito e por isso
sei o que digo; só eu vos digo a verdade”. Esmolas
para o seminário, elas só servem para se ordenarem
diabos que vêem depois cá para fora pregar doutrinas
falsas. O assunto das homílias não saía destes
temas. Segundo ele, ninguém na diocese expunha a
verdade. Esforçava-se por agudizar as discórdias.
Todos os outros sacerdotes pregavam a mentira, só
ele ensinava a verdade. São padres maus todos os que
vestem indecentemente, usam cabeção alto, calças à
moda botas engraxadas. Só ele, P. Justino, prega a
verdade como Jesus Cristo e por isso é odiado pelos
padres. Orgulhosa posição. O abade era acusado de
ateu. Devemos odiar os pecadores se nos desviarem do
caminho dos céu. As bodas constituíam pecado mortal.
Os adeptos do chefe carismático provocavam os
opositores. Seleccionando os textos que mais lhe
convinham, ou distorcendo-os de modo a dar-lhes
força comprovativa de conveniência. Revolta contra
as autoridades legítimas. Para se impor, abusava da
simplicidade e incultura do povo. Seguindo a Jesus.
seguiremos o padre mesmo sem o seguirmos. Não
utilizou a via que lhe era facultada de recorrer. Os
continuados jejuns, penitências e trabalhos
tinham-no reduzido a um esqueleto. Metia-se no
confessionário onde atendia os penitentes horas
seguidas. Foi a enterrar civilmente numa cova rasa
do cemitério paroquial.
Numerosos os simpatizantes».
Análise
do caso à luz da teoria científica da sombra de Jung
O
conceito de sombra é de Carl Jung e significa tudo
aquilo que recalcamos no inconsciente por causa do
medo de sermos rejeitados se formos como somos (medo
de perder o afecto, medo do isolamento, medo de nos
sentirmos marginalizados, medo do ridículo, medo de
ter vergonha, medo de não ser normal, medo de não
ter sucesso, medo de estar fora das normas…). Por
outras palavras, a sombra é o conjunto de
sentimentos, qualidades, talentos e atitudes tudo
isto recalcado, por julgarmos inaceitáveis pelo
nosso meio. Este recalcar implica uma energia
psíquica comprimida, mas sempre viva e activa, o que
é altamente estressante e desgastante para si e para
os outros.
Quem
não reconhecer a existência destes sentimentos mal
amados, recalcados que procuram afirmar-se, eles
voltar-se-ão contra ele, assustá-lo-ão.
Quem se
recusa ao trabalho de fazer a paz com a sombra e
estabelecer a amizade com ela, não se pode conhecer
a si mesmo e não pode ter auto-estima.
«Quem
recusa este trabalho sobre si mesmo expor-se-á a
desequilíbrios psicológicos. Sentir-se-á ansioso e
deprimido, atormentado por um sentimento difuso de
angústia, de insatisfação consigo mesmo e de
culpabilidade; está sujeito a todo o tipo de
obsessões» (Monbourquette, 1997).
Segundo
Jung, a pessoa que se esforça por se conciliar com a
sua sombra, ao ponto de reintegrar as suas
projecções, não só produz uma melhoria das relações
interpessoais, como tem um efeito benéfico em toda a
sociedade, realiza uma obra útil ao mundo.
«Um
comportamento formado a partir de visões morais
mesquinhas criará uma sombra correspondente. Esta
procurará manifestar-se por obsessões e escrúpulos
e, noutros momentos, será projectada em outrem sob a
forma de preconceitos morais rígidos» (Monbourquette,
1997).
A
propósito da necessidade que têm os líderes
espirituais e os seus discípulos de trabalhar a sua
sombra, o padre e psicólogo Jean Monbourquette
escreve que alguns profissionais não foram
autênticos ao não estarem atentos à existência da
sua sombra e das suas pulsões. Isto faz-nos pensar
de imediato no caso do padre Justino.
A
psicanálise froidiana fez a descuberta
revolucionária da existência do mundo formado por
recalcamentos pessoais inconscientes, em que o
inconsciente é como que um vulcão que ameaça entrar
em erupção pelos impulsos instintivos e erráticos da
libido.
Jung
foi muito mais além e muito mais revolucionário
quando descobriu que o inconsciente é um conjunto de
forças opostas, mas complementares (tipo yin-yang)
que podem ser organizadas, harmonizadas num todo
coerente (que traz saúde psicológica e física),
graças à actividade polarizadora do Self (a
imago Dei ou princípio divino, integrador,
presente no coração de todas as pessoas). Isto é um
pouco paradoxal, mas acaba com o dualismo
pernicioso. Sempre que promovemos um em detrimento
do outro (ego em detrimento da sombra -
alter ego - ou vice-versa) introduzimos
desequilíbrio que pode levar ao mal estar físico
(doença) ou até problemas mentais.
Além do
eu profundo que é a tal “imago Dei”, Jung
descobriu um inconsciente mais profundo, o
«inconsciente colectivo», isto é, uma memória de um
conjunto de imagens ou de motivos, inata e comum a
todo um grupo social e até a toda a humanidade. Ele
concluiu que «A sombra do fundador de uma
comunidade, com s seus tabus e interditos, deixa a
tal marca na sombra do grupo» (Monbourquette, 1997).
Eu creio que quase todos nós estamos mais ou menos
marcados, na nossa sombra, com este caso, com este
passado. É, por isso, bom analisá-lo e assumi-lo.
Se
desejamos explorar as riquezas enterradas neste
nosso inconsciente, devemos, com humildade,
paciência e coragem, mergulhar no nosso «saco do
lixo», retirá-las de lá uma a uma e darmo-nos o
direito de as explorar.
De
acordo com a leitura que fazemos destas teorias
científicas, o padre Justino ter-se-á identificado
exclusivamente com o seu ego ideal (persona).
Isto levou-o a negar não somente as pulsões da sua
sombra, mas até a existência da mesma. Levou-o a
aspirar a um perfeccionismo, sempre num estado de
stress, que o levava a ser intransigente, quer
com ele mesmo, quer com os outros e que o levava a
uma rigidez psicológica (inconsciente), moral e
espiritual.
O padre
psicólogo e analista clínico Jean Monbourquette
(1997) escreve: «Os esforços desenvolvidos pelos
“perfeccionistas”, para prejudicar a emergência da
sua sombra, tornar-se-ão, a longo prazo,
insustentáveis. A tensão psíquica que daí resulta
provocará todo o tipo de reacções incómodas:
obsessões, medos incontroláveis, preconceitos,
desvios compulsivos no plano moral, sem falar de
esgotamentos psicológicos e dos estados depressivos
de que sofrerá. Este tipo psicológico poderia ser
comparado ao que o teólogo Richard Côté descreve
como “um intolerante à ambiguidade”, que apresenta
os traços seguintes: baixa auto-estima, rigidez de
pensamento, estreiteza de espírito, dogmatismo,
ansiedade, etnocentrismo acentuado, fundamentalismo
religioso, conformismo, preconceitos e fraca
criatividade».
Para
Justino, a excomunhão poderia ter sido motivo de
reflecção e de correcção, o tempo de dar lugar à
sombra que tentava em vão ocultar. Mas isso exigia
humildade, querer, paciência, coragem e aceitação
que ele parece não ter tido.
A
sombra exprime-se também nos interditos que impomos
aos outros. Os interditos revelam mais as
resistências dos seus autores às pulsões da sombra
do que uma sã preocupação educativa. Os pregadores
que se comprazem a vilipendiar os desvios sexuais
dos seus auditores, os excessos que aí colocam (como
era o caso de Justino) manifestam que eles se
debatem com as suas próprias pulsões sexuais. Por
vezes, diz o padre Monbourquette, essa obstinação
deve-se ao sentimento de culpa de delitos sexuais. A
sua prédica é reflexo mais dos seus próprios
conflitos com a sua sombra do que a preocupação de
ensinar uma sã doutrina de ordem moral ou
espiritual...
Um dos
meios de descobrir a sombra de outrem ou a nossa é
conhecer as reprovações ou as críticas que uma
pessoa se permite formular a respeito dos outros.
Naturalmente que nós, ao fazemos esta análise
crítica, assumimos este risco. Mas não será isso uma
fatalidade de qualquer crítico?
A este
propósito, Ken Wilber diz: «na realidade, as nossas
críticas virulentas em relação aos outros não são
mais do que peças não reconhecidas da nossa
autobiografia. Se quiser conhecer a fundo uma
pessoa, ouça o que ela tem a dizer sobre os
outros»... Pelo que também nós ficamos aqui
retratados. Mas não será este retrato precisamente
fruto dessa tal “memória colectiva que herdamos
inconscientemente? Provavelmente. Mas nós queremos
“esgravatar” nela, trazê-la à luz e reintegrá-la no
nosso consciente, com vista ao nosso equilíbrio
harmonioso.
As
atitudes e expressões de Justino contra os seus
colegas e superiores (certamente que muito convictas
e cheias de boas intenções...) e as nossas próprias
aqui expressas, trazem-nos à mente, mais uma vez, as
idéias interessantes de Jung. Ou seja, se as
indelicadezas e imperícias de alguém nos “enervam” e
perturbam ao ponto de sentirmos repugnância e medo
em relação a esse alguém, isso significa que nos
estamos a projectar nele (o que somos
inconscientemente – a tal sombra), como se lhe
colocássemos uma máscara, a nossa máscara, como se
ele fosse um espelho em que nós nos miramos. A
personagem assim criada fascina ou repugna, segundo
os casos. Exageramos ou aumentamos as suas
indelicadezas ou as suas imperícias. Apreendemos
dele tudo o que nunca quisemos reconhecer em nós e
que nos esforçamos por recalcar no nosso
inconsciente.
Para
não deixar fugir a sua projecção e evitar
confrontar-se com a realidade da sua sombra, o
“projector” (quem projecta) está pronto a recorrer a
falsos argumentos a fim de justificar os seus
julgamentos condenatórios. Segundo o relato
(infelizmente único) Justino «seleccionava os
textos que mais lhe convinham, ou distorcia-os, de
modo a dar-lhes força comprovativa de
conveniência»... Fabricamos muitas vezes os
nossos inimigos, fazendo-os transportar o peso da
nossa sombra (e ele criou muitos inimigos…).
Jesus
denunciou a sombra. Ele repudiava os preconceitos
maléficos contra o próximo. «Porque reparas no
argueiro que está na vista do teu irmão e não
reparas na trave que está na tua própria vista?...
Hipócrita, tira primeiramente a trave da tua vista…
». (Lucas 6,41). Os homens que conduziam a mulher
adúltera faziam dela um bode expiatório que
carregava com as suas próprias falhas sexuais. Com
uma frase lapidar, Jesus revira a situação: «Quem
de vós estiver sem pecado atire a primeira pedra...»
(João 8,7).
Antes
de julgar os outros, trabalhemos sobre nós mesmos e
aprendamos a recuperar as projecções da nossa
sombra. É praticamente impossível perdoar a alguém
que reflecte os aspectos negativos do nosso ser. É
necessário, antes de mais, apaziguarmo-nos com as
partes mal amadas de nós as quais temos tendência a
projectar no nosso “ofensor”. Isto seria um
memorando para Justino, mas também é para nós,
naturalmente. A sombra ignorada e entregue a si
mesma torna-se perigosa, porque a sua condição de
isolamento e de separação do Self poderá
conduzi-la a agir de maneira diabólica (dia bolè
= separação). O relato do cisma está cheio de
situações que ilustram isto.
«O mal
não existe como tal». «No plano moral, o mal
designará um agir não conforme o seu fim natural»,
diz o padre investigador Monbourquette (1997).
«Aquele que declara guerra à sua sombra cai
inevitavelmente em seu domínio e comete assim as
faltas morais que queria justamente evitar». Como
dizem os investigadores jungianos, a sombra faz
parte da condição humana, mostra que é conveniente
convertê-la e não eliminá-la. «Cada um de nós tem um
lado sombrio; isso faz parte da condição deste
mundo, não é um “pecado” em si. A finalidade do
sujeito humano deve ser curar-se da doença e fazer
com que a parte ferida reencontre o seu
funcionamento normal» (Zweig, 1991).
É
necessário reconhecer e aceitar a existência das
pulsões da sombra, que é diferente de consentir e
passar ao acto (sentir é diferente de consentir).
Não somos livres de sentir ou não uma emoção ou uma
pulsão. Não reconhecer a sua existência e não
assumir a responsabilidade dela seria prejudicar a
saúde mental. E terá sido o que aconteceu com
Justino.
Diremos
então, como sugere o padre Monbourquette (1997),
«Esta emoção sexual ou este movimento de cólera
pertemce-me.» e acrescenta: Quem recusar estas
tomadas de consciência será levado a recalcá-las,
tornar-se-ão obsessões que a pessoa acabará por
projectar em outros…
O
conhecimento e estima de si são condições essenciais
ao crescimento espiritual. Mas é a humildade que
condiciona o reconhecimento e a aceitação da sombra.
E, pelo relato, humildade parece que não era um
grande ponto forte de Justino.
Tanto
em psicologia como na espiritualidade, vários
profissionais de ajuda (Justino, nitidamente) não
tiveram consciência do que fica dito, ou seja, não
tiveram em atenção a existência da sua sombra (o seu
alter ego) e das suas pulsões. «Quem quer
que exerça uma liderança espiritual vê-se, mais cedo
ou mais tarde, forçado e ter em conta a sua sombra e
a harmonizar-se com ela se quiser avançar ou fazer
avançar aqueles que conduz (…) Os mestres
espirituais tiveram que se debater com as suas
próprias trevas». (Pensemos em Jesus no deserto,
por exemplo). «Mesmo o apóstolo mais zeloso, se
permanecer inconsciente da sua sombra, projecta-la-á,
mais cedo ou mais tarde, nas suas ovelhas e, assim,
a sua acção apostólica encontrar-se-á pervertida ou
neutralizada» (…) «Muitos líderes espirituais
ou “gurus”, por terem ignorado as manobras da sua
sombra, acabaram por explorar as pessoas que
pretendiam no princípio querer ajudar». (…)
Estabeleceram com os seus discípulos, de uma maneira
mais ou menos consciente, uma dominação ciumenta,
utilizando-os para satisfazerem necessidades de
ordem afectiva. (…) Muitos aspirantes à vida
espiritual são tão ingénuos que renunciam ao seu
próprio julgamento em matéria de espiritualidade,
para confiarem sem discernimento no seu mestre. (…)
Muitos sucumbiram a várias tentações, designadamente
à necessidade doentia de dominação. Destruíram-se a
si mesmos, causando um imenso dano aos seus
discípulos. A irregularidade não só dos mestres como
doutros ajudantes sociais é projectarem nos seus
clientes as suas próprias deficiências psicológicas
e espirituais. Incapazes de acreditar nos seus
recursos psicológicos e espirituais
infantilizam-nos, exploram a sua dependência, ao
ponto de os instrumentalizarem para satisfazer suas
necessidades de posse, de ambição, etc. Acontece,
demasiadas vezes, que os guias espirituais
aconselham os seus discípulos a livrarem-se de
certos desvios sem lhes ensinarem a maneira sã e
inteligente de fazê-lo. Estas orientações, de vistas
curtas, só conseguem exacerbar as obsessões e as
compulsões e encerram os discípulos num círculo
infernal. (Monbourquette, 1997). Tudo isto nos
parece muito adequado ao caso e explica-o.
Terminamos esta parte com uma conclusão muito
optimista: É possível “curarmo-nos” das projecções
da sombra, reconhecendo a sua presença em nós,
fazendo as pazes com elas (projecções),
recuperando-as, integrando-as no nosso consciente,
aprendendo a conviver com elas harmoniosamente,
conciliar os traços da persona com os da
sombra (pois são complementares e não opostos),
criando a unidade, o equilíbrio, a paz conosco e com
os outros. Isto demora tempo e paciência. É como
“comer uma baleia”… Mas o Self integrador (imago
Dei) está lá (na nossa essência mais íntima),
para nos encorajar e apoiar (se nós quisermos, lhe
pedirmos, aceitarmos, e fizermos a nossa parte…).
Tornemo-nos, então, pais/mães carinhosos de nós
mesmos e recuperemos a criança interior que há em
nós, como se tratasse de um órfão.
Análise
de Justino na perspectiva da liderança
Terá
sido Justino um líder espiritual?
Na
introdução à «fascinante pesquisa» de Patrícia
Pitcher (The Drama of Leadership, 1997),
Henry Mintzberg diz que um líder tem de ser uma de
duas coisas:
-
Ou
um brilhante visionário, um verdadeira estratega
criativo e, nesse caso, ele pode fazer o que
muito bem entende e seguir em frente;
-
Ou,
então, tem de ser um verdadeiro capacitador (empowerer)
que é capaz de trazer cá para fora e desenvolver
o que de melhor os outros têm.
-
Os
“líderes” que não são nada disto podem ser
mortíferos em organizações que precisam de
energia e de mudança.
No
desenvolvimento deste tema, Pitcher designa os
líderes que se enquadram no primeiro arquétipo por
Artistas, os segundos por
Artesãos e os terceiros por
Tecnocratas, os quais podem fazer parte de
uma direcção, mas já não são verdadeiros líderes.
Não
vamos entrar em detalhes na análise destes
arquétipos. Faremos apenas uma pequena
caracterização dos verdadeiros líderes (Artistas e
Artesãos), a fim de enquadrar o Tecnocrata, que
desenvolveremos um pouco mais, por nos parece mais
próximo do “líder” Justino.
Os Artistas e Artesãos
não são grandes faladores, mas sim realizadores,
detestam os convencionalismos.
O Artista
é um emotivo, divertido, generoso, caloroso,
relacionado, fácil. Intuitivo, imaginativo,
visionário, inspirador, aberto, muito volátil, com
altos e baixos, Imprevisível, excitante.
Empreendedor, arrojado, audaz.
O Artesão
é franco, honesto, responsável, amigável, estável,
equilibrado, firme, controlado, franco. Trabalhador,
dedicado, previsível, apoiante, humano, cortês,
pontual. Conhecedor, reflectido, realista, sensível,
culto, aberto, convencional. Com a sua experiência
do terreno, a sua inteligência (intelectual e
emocional), a sua honestidade, dedicação, lealdade e
frontalidade, está no meio e mantém o equilíbrio.
O Tecnocrata
é inflexível, dogmático, inabalável, casmurro,
analítico, rigoroso, metódico (que até parece
“brilhante” e todos pensam que o são...), picuinhas,
fastidioso. Racional, formal, distante, intenso,
determinado, sisudo, difícil.
Muito
determinado em seguir o seu caminho. Pensa de
determinada maneira e acha que toda a gente tem de
pensar como ele. Todos podem discordar dele, mas é o
pensamento dele que permanece.
Muito
egocêntrico. Cabeça dura no sentido literal de duro,
impenetrável. Muito arrogante.
Trabalha muito e com energia, não pela paixão de
atingir um objectivo, mas porque faz parte das
regras trabalhar no duro. Para ele a vida é um
assunto muito sério.
É frio.
Na sua presença, a temperatura baixa e as pessoas
deixam de rir e brincar, porque, com ele,
trabalha-se abenegadamente.
Os
tecnocratas conhecem e discursam sobre todas as
doutrinas, que conhecem bastante bem (pois querem
estar no topo com um vocabulário convencional), mas
é tudo muito vago, falam muito, mas entendem pouco e
nunca largam o interesse pelo poder. São «alguém que
sabe o preço de tudo, mas não sabe o valor de nada».
Apesar dessa superficialidade, soam bem, sobretudo
para os mais incautos. Têm receitas para todas as
situações e problemas. Mascaram-se de líderes
visionários (Artistas).
Por
tudo isto consideram-se superiores e como tal também
são considerados pelos desavisados e incautos. Por
isso, eles conquistam mais facilmente o poder e
detêm-no.
Daqui
ressalta a ideia predominante de que os Tecnocratas
têm a convicção de que detêm a verdade e, por isso,
é natural que a tentem impor (a sua verdade). Pelo
que todos os outros são rivais e perigosos e, por
isso, eles farão tudo para os pôr sob a sua alçada
e, por isso, é que são tipos perigosos na conquista
e na posse do poder. «Como indivíduos eles não são o
inimigo, mas como casta, como classe governante, são
(...) Nós somos seduzidos por eles, porque somos os
escravos de alguns filósofos defuntos. Os
Tecnocratas não são demónios. São é imaturos,
inadaptados, cegos, guiados pela cegueira…» (Pitcher,
1997).
De um
modo geral, os Artistas são “aves raras”, são
génios, sempre foram uma minoria distinta
(normalmente marginalizada e, muito frequentemente,
denegrida e destruída e, por vezes, só reconhecida
depois, até muito depois morte...).
Os
Artesãos são mais comuns, os mais equilibrados, mas
não se bastam.
Os
Tecnocratas com o seu beau discours e a sua
matreirice imitam os Artistas e os Artesãos e são os
mais vulgares, inclusive no poder, particularmente
no sector público e administrativo e em alguns
países, sobretudo nos de cultura latina (Pitcher,
1997).
Tendo
presente as frases-chave do relato do Cisma de
Penude com que abrimos esta análise, parece-nos que
Justino se encaixa no perfil do Tecnocrata. Para
melhor objectivação, repesquemos algumas
frases-chave extraídas do relato:
Teimosia. Agarrado à sua opinião. Sempre a dar
sentença sobre todos os assuntos. Não admitia que
alguém tivesse razão contra ele. Fanatismo que
transmitiu aos seus sequazes. Apresentava-se como
modelo a todos. Perfeição. Não concedia alternativa.
Continuado rigor. Vestir de preto. Retorquia que
fora da sua doutrina e da sua regra de vida só
existia o demónio.
Que
para haver salvação é necessário haver desharmonia.
«Fiai-vos só em Deus e nas minhas doutrinas, porque
eu estudo muito e por isso sei o que digo; só eu vos
digo a verdade». Ninguém na diocese expunha a
verdade. Esforçava-se por agudizar as discórdias.
Todos os outros sacerdotes pregavam a mentira, só
ele ensinava a verdade. Só ele pregava a verdade
como Jesus Cristo. Orgulhosa posição. «Devemos odiar
os pecadores se nos desviarem do caminho dos céu.
Seleccionando os textos que mais lhe convinham, ou
distorcendo-os de modo a dar-lhes força comprovativa
de conveniência. Para se impor, abusava da
simplicidade e incultura do povo.
Em
conclusão, por este relato que nos chegou
(infelizmente o único conhecido) parece que Justino
não era um verdadeiro líder religioso, mas assumiu o
poder de uma parte da freguesia de Penude e moldou-a
à sua maneira e de tal modo que marcou gerações com
as suas enormes sombras que ainda hoje perduram na
“memória colectiva”.
Esta
análise que publicamos como nunca foi feito, tem
como principal objectivo recuperar essas sobras
individuais e colectivas, discutí-las sem
preconceitos, sem restrições, sem medos
(designadamente do “sagrado”), a fim de que possamos
mudar. Sim, porque nós somos os herdeiros destes
acontecimentos, destas mentalidades, destes
recalcamentos, desta “neurose cristã”, destas
sombras. Como vimos anteriormente, isso cura-se
tomando conhecimento bem consciente do passado e
tratando dele cirurgicamente, com carinho, mas
também com coragem e com frontalidade.
Certamente que nem o texto único conhecido do relato
dos factos, nem esta nossa análise são completos.
Falta o contraditório.
Numa
entrevista que fizemos (no passado Natal de 2009) a
uma contemporânea destes acontecimentos com 105 anos
de idade (vive precisamente na Matancinha, no
coração destes acontecimentos e que foi colaboradora
de Justino), confirmamos algumas das informações que
constam neste relato e outras que não constam, mas
que se enquadram perfeitamente no contexto. Mas
também ouvimos muitas referências positivas e
carinhosas ao Pe. Justino. O mesmo se diga de fontes
de pessoas mais novas, mas que ouviram seus pais
falar do protagonista e dos acontecimentos. E até há
quem o considere santo. Creio que foi Pascal que
disse: “aquele que quer ser anjo torna-se num
demónio”... Só Deus sabe! Nós desejamos paz ao seu
espírito e também procuramos a nossa. E foi por isso
que descobrimos esta sombra.
Cada
qual faça o seu papel.
José
Pereira Lamelas |
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