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História - Tradições

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TEXTOS COM HISTÓRIA

TEMPOS DUROS
José Carlos Monteiro

 

 

O rapaz chegou do mundo dos sonhos numa barca de frio e sono, a voz do pai a chamá-lo, bamos lá a lebantar que já são horas, de manhã é que se começa o dia e inda é preciso carregar a burra. Lavou a cara na bacia de esmalte, a água como lâminas, ferindo-lhe a face imberbe. Migou o pão de rolão para a malga de café de cevada ralo, e outra vez o pai, vê se cinchas bem a burra e pões a carga a jeito de não cair, inda tens muito que andar hoje.

Era ainda escuro lá fora, e se houvesse relógio lá em casa, veria que era cinco horas da manhã.

Saiu para a rua calcando o codo que estalava debaixo dos tamancos e dirigiu-se à loja, para cinchar a burra e arrumar a carrada de tapetes e mantas de trapo que a mãe tinha tecido, num pam-pam de madeiras de tear a bater pela noite dentro, à luz da candeia de azeite.

Bais para o lado da Régua, que eu bou pra Crasto Daire, dizia-lhe o pai, num te esqueças de ir à Quinta da Pacheca, que da última bez que lá estibe a senhora pediu-me pra lhe lebar tapetes quando por lá fosse outra bez.

Abalou caminho abaixo, mãos enregeladas, em cuidados de equilibrista para não escorregar no gelo, ao lado da burra, e assim seria a jornada toda se lhe não aliviasse a carga com as vendas que fosse fazendo.

Partia para quinze dias, a bater quintas e aldeias entre Lamego, Régua, e Santa Marta de Penaguião, saco de chita a tiracolo com um naco de pão, uma mão cheia de figos secos e outra de azeitonas para os primeiros dias, para os restantes teria que vender alguma coisa antes de poder comprar mais pão e azeitonas, talvez um naco de toucinho, se a venda corresse bem. A dormida seria onde lhe dessem abrigo, em qualquer loja, com sorte talvez houvesse palha fresca onde se acostar.

Escrevi esta história numa tarde em que surpreendi o meu filho a deitar para o caixote do lixo metade de uma sanduíche. Incomoda-me o desperdício, muito mais quando esse desperdício é de comida. E para que ele entendesse que isso me incomoda e as razões desse incómodo, imprimi a história numa folha A3 e colei-lha na porta do quarto.

As personagens desta história têm nome: o rapaz chama-se António e o pai Manuel. São o meu pai e o meu avô paterno, já falecido. Com 10 ou 11 anos de idade, ao sair da Escola Primária, foram assim muitos dos dias do meu pai. Dias de frio e névoa, dias em que a sopa era de urtigas, porque não havia couves, em que sozinho tinha que calcorrear cento e muitos quilómetros vendendo tapetes e mantas de trapo que as mulheres da casa teciam, único meio de subsistência para quem não tinha um palmo de terra a que chamar seu. Era isso ou a jorna para qualquer lavrador de posses ou para as quintas do Douro, durante as vindimas ou a apanha da azeitona, a troco de dez réis de mel coado e de uma sardinha e um naco de broa ao almoço. Tempo duros, tempos que tanto o meu avô Manuel como o meu pai fizeram questão de me descrever.

Acho que o meu filho entendeu o recado.

Glossário

Pão de rolão: pão confeccionado a partir do rolão, a parte mais grossa da farinha de trigo, mas superior ao farelo;

Malga: tigela;

Loja: piso térreo, onde se guarda o gado, as colheitas e as alfaias agrícola;

Cinchar: apertar a cincha ou cilha, correia larga ou faixa de tecido forte, fios torcidos, couro cru ou sola, e até de borracha entelada, que passa sob a barriga, para segurar a sela ou a carga dos animais;

Codo: gelo grosso, resultante da acção das geadas;

Tamancos: calçado rústico, de couro grosseiro e sola de madeira;

Jorna: trabalho temporário em que o salário é diário.
TRANSUMÂNCIA
José Carlos Monteiro

 


A palavra transumância, que vem do latim trans (além de) e humus (a terra, a região) significa a migração periódica de um rebanho, seja de ovinos, caprinos ou bovídeos, da planície à montanha ou da montanha à planície, e isso em função das condições climáticas, e, portanto, da sazonalidade.

Seguimos por trilhos velhos e gastos, trilhos que mil pés calcorrearam antes de nós, ao longo dos séculos. Por aqui passavam caminhos que ligavam o litoral ao interior, a Beira-Litoral à Beira-Alta e a Trás-os-Montes. Por aqui passaram almocreves de bestas carregadas, cajado acerado e pistola carregada para o que desse e viesse, lobos ou homens. Por aqui se cruzavam as rotas da transumância do gado.

Por aqui passou muito provavelmente o meu bisavô Custódio em busca de pastagens e tempo mais ameno, que o Inverno nas serras de Montemuro e Meadas era duro e a erva escassa. E acabou transumando gado e genes, que uns meses seguidos de chuva, frio e solidão, longe do aconchego da mulher o levaram em busca de outro colo onde repousar. Acabou tendo duas famílias: uma na Beira-Alta e outra na Beira-Baixa.

Um dia, a minha bisavó Maria suspeitou ou alguém lhe contou. Pôs-se ao caminho, ao mesmo caminho ermo e perigoso que faziam os homens, para buscar o seu homem. Chegada à terra da outra, perguntou onde morava o Custódio. Logo gente prestimosa lhe indicou a casa de granito e telhado de xisto onde vivia meu bisavô com a sua outra família. Na terra ninguém suspeitava da vida paralela do pastor, homem de fartos rebanhos e valentia. Minha bisavó bateu à porta e acudiu a dona. Do que foi dito e respondido a seguir nada sei. Para a história da família ficou que a dona da casa correu a esconder-se debaixo da cama adúltera, que a bisavó Maria lhe agarrou numa mão e lhe arrancou um dedo à dentada. Confirmei este facto com a minha avó Margarida, que já adolescente à época se recordava de tudo.

Como acabou a história? A família da senhora enganada pôs o meu bisavô na mira das escopetas e acabou por ser o meu tio-avô Manuel a ter que casar com a donzela enganada para resgatar a honra da família sem derramamento de sangue. A Ti Maria e o Ti Custódio? Regressaram ambos a casa nesse mesmo dia e nunca mais o meu bisavô percorreu as rotas da transumância.
PENUDE

Penude é freguesia antiga. S. Pedro de Penude foi do padroado real e, mais tarde, do Marquês de Marialva. D. Sancho I deu o direito de apresentação ao arcediago e seus parentes. No século XVI, Penude era simples termo de Lamego. Distinguiam-se então a aldeia de Penude e a aldeia de S. Pedro, a aldeia de Cucares e a quintã de Quintela, no tempo em que existia o concelho de Magueija, que, além do lugar do mesmo nome, contava, entre outros, as Quintãs de Bairral e de Matancinha e o lugar de Matança. O abade de Penude, em 1949, respondendo ao "Inquérito" diocesano, anotava os seguintes lugares na freguesia: "Matancinha, Outeiro e Bairral, Sucres, Purgaçal e outros, Quintela, Ordem e outros". Um dos orgulhos dos Penudenses é o cruzeiro do século XVII, na Matancinha, com o Senhor Crucificado e a Senhora da Piedade. Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Penude estende-se ao longo do rio Balsemão, que nasce em Rossão, na Serra de Montemuro e desagua na margem esquerda do rio Varosa, por uma extensão de 12 quilómetros, distando em 5 quilómetros da sede de Concelho, tantos quantos os que dista do rio Douro, a Norte.
 
Povoações /Aldeias
Bacelos (Senra), Bairral, Estremadouro, Grandal, Matancinha, Ordens, Outeiro, Penude de Baixo, Purgaçal, Quintã, Quinta de Baixo, Quintela, S. Miguel, Sucres, Vale de Ourigo, Telhado
 

 

 
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