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A VESSADA
A VESSADA EM PENUDE
Isidro P. Lamelas

 

 

 

Quando o tinhoso do Fevereiro já ia longe, chegavam os primeiros arautos da Primavera que se aproximava: carriças, cotovias, labandeiras, toutinegra, charriças, escrevideiras, milheiras, gaios, picanços, poupas, verdilhões, piscos, as astutas menjengras e tantos outros congéneres do reino da passarada iniciavam alegremente a azáfama dos ninhos. Nos campos e nos montes um verde generalizado grávido de promessas e o brotar das primeiras flores anunciam o palpitar da seiva fecunda. Ao longe, ia-se escutando o cantar do cuco que, embora nunca tenha sido bom exemplo para as gentes que viviam do suor do seu rosto, não deixava de ser um vestígio simpático do lado sabático e festivo da vida com que todos sonhamos.

 Com o Abril das águas mil, os córregos enchiam-se para acabar de medrar as ervas, fenos e ferrâs. Era tempo de limpar as lameiras para fazer cabedulhos e espalhar o estrume. As gadanhas, bem picadas logo ao romper da aurora, entravam então na baila. O tempo é ainda muitos incerto: menos incanto temos bolta de tempo! Na verdade, o tempo é cum’à gente quando lhe dá para perder a cabeça tem os seus repentes e, dum momento para o outro, muda de cara e começa a repuchar em raios e coriscos. Não era, por isso, laboira fácil conseguir colher os fenos sem apanhar humidade e evitar o mofo, saibo ou bafio: se tal acontece, o gado nem le bole.

            Contemporaneamente, ouve-se ao longe um carro de bois carregado de estrume que, com seu assobio estridente desafia os melros sempre esquivos a atentos à melra no choco. Um perfume típico da época inebria a fresca aragem virgem de outros odores que não os naturais.

            E assim se chegava à época das vessadas e não há tempo a perder. No fim da missa de domingo marca-se o dia:

            - Ó Ti César, preciso de rogá-lo p’rá bessada, se tiver bagar, pr’ra depois das cinzas.

            O ti César da Galhosa era um lavrador com currículo e provas dadas. Já o seu pai se dedicara à mesma arte e já mostrara não querer degenerar. Não era por acaso que a sua junta de vacas não tinha descanso a não ser nos “dias santos que a santa Igreja manda guardar”. Por isso, a sua resposta era quase sempre a prevista:

- São bem horas e mais qui horas, e trabalho feito num dá canseira…

- Ó Ti Manel, num quer qu’eu le bote ua mão nos cabedulhos ou a fazer as bordas? – perguntava o tio Zé Doeido, que assistira à conversa no adro da Igreja.

- Ó home de Deus, não se incomode! Mas se teima, é cumò oitro, fabores de gente honrada num se injeitam. Mas num me faça cum’ò Cabelaria que bem me prometeu e num beu.

Conforme o combinado, assim se cumpre.

No dia marcado, logo de manhãzinha bem cedinho, mata-se o bicho com uma fatiga de pão e um copinho de aguardente. E está-se pronto para as lidas da exigente jornada:

- Ò rapaz, toca a lebantar para irmos Junguer as vacas e apô-las ò carro!

Poucos minutos depois, já tudo mexe no quinteiro:

- Oixe, Cabana! Sé pra’a trás! Mola Bonita! Sé pra trás…

O carro ficara já carregado de véspera com o estrume, sobre o qual vai também a grade, a forquilha, as enxadas e a batata de “semente”. E toca a andar, pia cima, que se faz tarde.

O lavrador é o rei da vessada. O seu estatuto é intocável e é ele que marca o andamento dos trabalhos. Manda nos homens e nas mulheres no mesmo tom com que ordena às vacas. Todos param quando ele diz “oixe!”, para beber ou comer, e tem sempre o tratamento VIP: garrafa à parte, prato especial etc. Nas suas mãos, a charrua e o gado são um todo e obedecem-lhe como se usassem a mesma mente:

- Ei, Cabana, ei!... Prò rego, Galante! Num inxergas onde pões as patas, mas lebas uma boliadelas ca’té te sfoiras! Abaixo cabana! Ainda lebas uma que te leba o diabo!… 

Muitas vezes era apenas a sua voz que se ouvia:

- Olhai-me esses quebadulhos… oixe! bira cá bira! Bolta ò rego Galante! Ó rapaz, tu abre-me esses olhos, bê se me andas dereito, ou bê lá se queres q’eu te acorde c’o esta aguilhada!

Se a meta  e ambição maior de qualquer criança é crescer e ser grande, na aldeia dos nossos tempos esse sonho era muito mais forte: primeiro porque não havia outros sonhos, segundo porque não havia lugar nem tempo para a infância. O moço que “andava diante” da junta de vacas é bem o exemplo de como se tinha que ser grande desde petiz. Cabia-lhe a responsabilidade de guiar bem as vacas e era, muitas vezes, o bode expiatório das impaciências que a fadiga do duro trabalho agravava. Mas nada podia ripostar. Era ouvir e calar e rezar a Deus para que o dia corresse de feição: que não houvesse mosca, que o vinho não fizesse das dele, que as vacas não “imbiassem” e não andassem ao boi!... e muitos outros factores que teimavam em reunir-se e,  por isso, os recados continuavam:

-  Carrrega-le nessas bentas p´ra trás!... Atão, és mouco ou fazes que dormes? Aqueiba-me essa baca p’ró rego, meu enjarricado!

- Ó Maria, bira-me essa leiba… sborraça-me aquele terrão… cabai-me essa alho q’é uma bergnha. Deixais-me pr’aí ficar mal. Oixe!... Dá-me p’rá trás nessas mulas, que o strume meteu-se na relha!

E lá vão e veem as pacatas vaquinhas, uma pelo rego, outra pelo restolho, mansas como anhos, aproveitando todas as pausas para remoer a última erva, parecendo indiferentes a tudo o que se passa à sua volta.

- Ó Maria do Rosairo, sterroa-me aí esse terrão. Trabalho mal ajambrado nunca deu bô fruito, já dezia o meu pai. Ei lá, Galante! Toca andar que stá dia bô!

Um par de levandeiras tão elegantes como ariscas acenam o albi-negro rabo numa coreografia espontânea ao Senhor da vida e autor de tão sóbria abundância. Sempre vigilantes e de pé a trás, iam catando nas frescas leivas tudo o que era minhoca ou verme miúdo que o arado trazia à tona da terra.

- Oixe! Pra onde é que tu me bais, meu grande palerma?! Bota-me essa baca ao rego! Olha que lindo seviço me figestes! Anda lá anda, que tu…  Bem, parece que é melhor irmos  ò caldo que a tripa já dá horas.

De facto, a patroa chegara entretanto com o cesto coberto por uma colorida toalha que, já se encontrava estendida no chão, a poucos metros da terra lavrada. Era hora da pausa para retemperar as energias.

- Oixe, aí! Ó rapaz, tira a chabelha e o tamoeiro. Mas cautela que não dixes cair o cambão nesses pés!... Desapõe-nas e bota-le uma facha de canas. Ó pessoal, bamos ò caldo!

O lavrador sentou-se no seu lugar de hora e os outros, com alguma parcimónia, seguiram o exemplo. Por merecer especial atenção, a patroa ainda perguntou ao lavrador se queria lavar as mãos.

- Homessa! Tenho eu lá mais que fazer! Bou perder o meu rico tempinho! Isso é coisa de fidalgo e, como diz o ditado, «um lavrador para ser lavrador de vez tem de comer sete carros de strume num mês!».

- O que num mata engorda!, acrescentou o patrão, querendo cumprir com as boas regras de anfitrião. A terra é que nos alimente e nos cria, o resto são cantigas. Olhainde, eu labo as minhas ò domingo, p’ra ir à missa e é quanto bonda. Isso é prós doutores e, inda por cima, a auga gasta a pel.

- Fazes ua grande abantaije, acrescentou a tia Albertina. Eu labo as minhas só na Páscoa e é por bia da besita do Senhor.

Acocorados, uns, outros sentados, cada um no seu lugar agarra com suas mãos calejadas uma fatia de broa de milho, à espera que lhe calhe a vez de pegar num pedaço de toucinho ou de bacalhau. No meio da mesa está uma travessa de arroz, donde vem um cheirinho capaz de ressuscitar os mortos e fazer crescer água na boca mesmo aos que de água nunca queriam ouvir falar, a não ser na “benta”.

- Ò Ti João, num roa as unhas!

- Num s’aflija, tia Rosa, q’eu cá m’arrajo. Quem tem bergonha passa mal.

- Ò rapaz, bai lá botar mais ua facha de canas às bacas. Desouga-as que também são filhas de Deus.

- Bô dia, tio Tiromino! É servido? Saudou o patrão ao vizinho que passava de enxada ao ombro e que vinha de abrir as poças.

- Bô probeito, mas num ateime. Bem haja, que também já fiz o mesmo!

- Olhe q’incanto houber na mesa chega p’ra todos e inda mais prós amigos! Beba o menos uma pinguinha: olhe co meu este ano num stá nada mau. Num é pra me gabar, mas sempre botou uma boa pomada… Olhe que aquece a gente num instante e sobe òs miolos mais depressa c’ás almas pró céu.

- Num steja a ateimar que num adienta.

- Quer não, que já sei q’é cumò costume. Bá atão lá com Deus.

- Olhe lá: prò ano, se Deus Nosso Senhor quijer e nos der bida e saúde, prometo num fazer desfeita, cá nos beremos na tua labraige.

- Também sta bem assim. Mas então debede-se o mal polas aldeias. Marcamos o dia e andemos à troca. Até oitro dia.

Entretanto o pipo do vinho ia passando de mão em mão, enquanto o patrão continuava a tecer elogios à zurrapa que ninguém se atrevia a contrariar.

- Só o Ti Bejemim, conhecido pelo seus hábitos jocosos, se ousou contradizer o elogio:

- Isto é pior cà auga de partilhas. Stá bô pra botar às pitas.

- Cale-se lá, home. Deixe falar, Ti Balentim, carrege-le, bote pra baixo qui é de boa mente… num me façam desfeita! Olhainde que deste num bobeis no bendeiro.

Animado pelos incentivos, o ti Balentim, o homem do enxadão encarregue de cavar os cabedulhos do cabo do rego, depois de limpar os beiços às costas da mão – era o guardanapo habitual -, tirou o pequeno batoque preso a um cordel e sorveu umas valentes goladas. E despediu-se do pipo com as esperadas palavras de cortesia (quem nasceu e viveu sempre na cidade vê no aldeão um tipo grosseiro, bruto e ignorante. Mas não há maior disparate: ele apenas aprendeu por um outro manual de etiqueta):

- Que Deus to acrescente que stá bem bô… Um binhão, num é nenhua mixórdia, não… Boa pinga! Até faz rucitar um defunto, carambas!...

- Já le disse, home de Deus! Quando acabar, acabou. Mas na pipa inda há munto. E digo o mesmo aos oitros. Cando quijerem é só dezer. O pipo fica ali a refrescar à sombra no fieiro da poça. Num façam desfeita nem cerimonias! Escorripichando um, bem oitro.

- Bem haija, bem haija! Responderam várias vozes quase em coro.

Entretanto os assuntos da conversa iam-se sucedendo e entrecruzando. Homens e mulheres falavam, geralmente, de assuntos diversos:

- Oitro dia, adiantava o Ti Abelino Piqueno (só no nome), quando fui tapar as poças, dei de caras com o ladrão dum lobo que até os cabelos se me prantaram em pé.

- Num stamos aqui pra desconbersar, mas há munto que tais bichos num andam assim por aí perto.

- Homens agora léria! Eu morra se num é berdade! Bós bem no sabeis que não gosto de falar por falar. E tresantonte à noite, o meu Bobi não parou de ladrar…

- Que me dizes a isto, ó Jaquim que stás praí tão calado?!

-  O que axo é que obelha que berra bocada que perde. E sé é lobo ou raposa, eu cá sou cumó Tomé: só acredito se bir.

A animada conversa não incomodava o apetite com que todos iam comendo de uma mesma travessa. Não, porém, sem uma certa norma tacitamente aceite por todos: cada um comia do seu “cabo”, formando uma espécie de trincheira, levando o arroz sempre a eito, para não babujar o dos outros.  Tal método não evitava situações mais delicadas e decisões difíceis, como, por exemplo, quando uma coxa de frango, andava de lado para lado empurrada pelos mais cerimoniosos, até que alguém deixasse que o instinto levasse a melhor sobre a vergonha.

- Bá, bubeide-me mais ua pinguinha, agora que tendes a cama bem feita, recomendava o dono da vessada.

- Bamos lá, ó gente!... que sentados num se goberna bida! Comandava o ti João, percebendo as intenções do patrão a quem não ficava bem dar ordens de regressar à enxada.

Ao patrão ficava sempre bem, isso sim, “pôr um pouco de água na fervura”, dizendo algo do género:

- Não steijam com pressa, homes. O que num se fez no dia de Sta. Luzia, faz-se ò oitro dia. O tempo dá-o Deus de Graça e chega muto bem pra matarmos o corpo. E é come diz o oitro: mais bale ua hora a trabalhar de bontade do que duas a fazer de conta…

- Pois é, pois é, mas bamos à bidinha qu’a morte é certa e o sol num spera. Insistia o homem do arado.

De tal modo que, pouco depois, a charrua já rasgava, de novo, a terra, num vaivém calmo e ronceiro que faz lembrar a lançadeira de um do tear.

- Iete! Bota pra lá rapaz! Bamos embora q’esta gente num pode star parada! Eram as palavras costumeiras do lavrador para a retoma da lida. As vacas sempre pachorrentas e obedientes lá continuavam a arrastar o arado numa tarefa que executavam do mesmo modo há milhares de anos. E quando algo falhava, a culpa não recaía sobre elas mas sobre o moço que as guiava:

- Há meu pote das migas que só serbes pra strobar! Mexe-me essas pernas de alicate!

O resto do dia passava num ai. O sol preparava-se para desaparecer no horizonte. No sino da Igreja já soaram as Trindades. Mais alguns regos e tinha chegado ao cima a labraije. Cansadas e babadas de suor, as vacas podiam finalmente repousar da fatigante jornada.

Dentro em pouco, após o religioso silêncio anunciado pelas ave-marias das Trindades, tem início o verdadeiro espectáculo da vida nocturna: começam primeiro os ralos e grilos, segue-se o assobio melancólico dos sapos e logo se lhe associa o canto nocturno dos mochos e da coruja. No firmamento acendem-se as primeiras estrelas, a lua espreita cada vez mais luminosa e bolachuda pendurada na escuridão do céu. Chegou a hora dos medos em que é melhor um homem recolher-se aos seus aposentos.

Assim terminava a laboira de um dia de bessada em Penude ou noutra aldeia beirã.

 
A MALHADA
Isidro Pereira Lamelas
 
 

 

 

 

Medas -  Copyright ® Manuel Dória Vilar
 
Antes do aparecimento das "malhadeiras" mecânicas (que aparecerem em Penude em fins dos anos 40 ou início da década 50 do século xx) as malhadas eram uma verdadeira festa nas eiras de Penude.

Os malhadores, sempre homens, normalmente em número de 4 ou 6, assumiam o papel principal, tanto mais que eram os únicos "rogados". Quanto às mulheres estas vinham espontaneamente das vizinhanças e em número sempre abundante, não sendo necessário rogar. Muitas vinham apenas para participar do prato único (significa, neste caso, que havia apenas um prato de que todos comiam). O seu papel era o de virar o pão, sacudir a palha e juntar o pão no fundo da eira. O cereal, uma vez estendido em covela, com a espiga bem exposta, era batido pelos mangualdes até que não restasse relíquia de espiga com grão. Quando os malhadores chegavam ao fundo da Covela, era hora de "berrar à eira", para que as mulheres viessem virar a palha. O pregão era quase sempre o mesmo e tão bem entoado pelas vozes em uníssono que ecoava pelas aldeias vizinhas: "trinta mulheres à eira!"

Os malhadores, depois de breve pausa aproveitada para retomar o fôlego, lá voltavam a fazer zurrar o Pirtel (malho do Mangualde) num ribombar ritmado e certeiro que os deixava de peito cheio. Por vezes a competição degenerava em rivalidades entre os malhadores que nunca gostavam de ver outros "tocar melhor o bombo" (queriam dizer "bater o Mangualde").

Mas, por norma, o ambiente era de festa. Durante horas e dias prolongava-se este convívio entre o trabalho duro e duradoiro e a alegria. E, entre chulas e brincadeiras chistosas tudo era feito na arreiação de quem via realizado o refrão bíblico: "À ida vão a cohorar levando as sementes, à volta vêm a cantar trazendo os molhos de espigas".

 

 
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