É grande,
grandíssima, a alegria que sinto ao ver recolhido um património que
julgava perdido para sempre. Quantas vezes quis escrever sobre a
minha terra, PURGAÇAL DE PENUDE, para que as incríveis vivências de
várias gerações se não perdessem. Não o tinha ainda chegado a fazer,
principalmente por falta de tempo, mas Deus concedeu-me a graça de
chegar a ver concretizado o meu sonho através da excelente
iniciativa do Dr. José Lamelas. Obrigada, do fundo do coração, Dr.
Lamelas!
Durante a era
glacial, muitos animais morriam por causa do frio.
Os porcos-espinhos, percebendo a situação, resolveram juntar-se em
grupos, assim se agasalhavam e se protegiam mutuamente, mas os
espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente
os que ofereciam mais calor.
Por isso,
decidiram afastar-se uns dos outros e começaram de novo a morrer
congelados. Então, precisaram fazer uma escolha: ou desapareciam da
Terra ou aceitavam os espinhos dos companheiros.
Com sabedoria,
decidiram voltar a ficar juntos. Aprenderam, assim, a conviver com
as pequenas feridas que a relação com uma pessoa muito próxima podia
causar, já que o mais importante era o calor do outro.
E, assim,
sobreviveram.
Moral da História
O melhor relacionamento não é aquele que une pessoas perfeitas, mas
aquele onde cada um aprende a conviver com os defeitos do outro, e
admirar suas qualidades.
António
Alves
O Menino Deus” de Aquilino Ribeiro
José Pereira Lamelas
AQUILINO
RIBEIRO
Nascido a
13 de Setembro de 1885 no concelho de Sernancelhe,
freguesia de Carregal de Tabosa, filho de Mariana do
Rosário Gomes e do padre Joaquim Francisco Ribeiro, tem uma
infância, ao que se sabe, de miúdo um pouco mais que
travesso, a tal ponto que ainda hoje é possível encontrar na
zona quem tenha ouvido contar histórias picarescas de um
menino destinado pela família à vida de sacerdócio. A sua
ida para o Colégio da Senhora da Lapa, em 1895, seria o
início de um percurso que o leva seguidamente para Lamego,
mais tarde para Viseu (ano de 1902), onde vai estudar
Filosofia, e, pouco tempo depois, para o Seminário de Beja,
frequentado, ao que consta, pelos ordenandos mais
recalcitrantes. Em 1904 é expulso do seminário, depois de
ter dado uma réplica cortante a uma acusação do Padre Manuel
Ançã, um dos dois irmãos que ao tempo dirigiam a
instituição.
Em 5 de Outubro de 1900
é admitido é admitido no Colégio Roseira, em Lamego
(
Colégio de Lamego )
1945 -
O Livro do Menino Deus (o Natal na história religiosa e na
etnografia).
Quando eu fazia os meus estudos secundários no Colégio de Montariol,
em Braga (instituição franciscana), faleceu Aquilino Ribeiro. Tal
facto foi notícia e recordo alguns comentários menos abonatórios
feitos na instituição pelo facto de Aquilino ser ateu… E ficou-me
essa mácula na imagem deste grande “vizinho de Penude-Lamego”.
Eu tenho a obra quase completa de Aquilino Ribeiro. A vida demasiado
preenchida que tenho tido, ainda não me permitiu ler muita
literatura. Apesar disso, era com a leitura do “Romance da
Raposa” que eu adormecia o Diogo e o David quando eram crianças.
Na semana passada, tive a curiosidade de investigar se havia Natal
na obra do Aquilino. E descobri, com surpreza, que ele até tinha um
livro dedicado ao Natal, intitulado “ O Livro do Menino-Deus”.
Eis um extracto:
Extracto retirado do livro “O Menini Deus” de Aquilino Ribeiro
«O Menino Jesus está deitado no chão, bracinhos erguidos em lira, e
em volta, ajoelhada e de mãos postas, a santa família. Conservam-se
todos a distância, uma distâncai nua e bem visível que traduz
assombro e respeito. É um deus que ali se vê! Não se lhe toca! Um
gesto menos discreto e podia acabar-se o mundo! De facto sentem-se
compenetrados da grandeza do seu papel. Mas do resto do pai e da mãe
transluz ao mesmo tempo uma compunção radiosa, mais que celestial.
Não, não é apenas um deusinho que alí está; é também flor terrestre;
sofrimento e delícia, carne da carne. É em suma a humanidade
divinizada na sua forma maravilhosa, mais chegada ao princípio das
coisas e do ser. Ao fundo, burro e vaca mostram cabeças espirituais,
cônscios também eles da subida honra que lhes cabe em assistir ao
nascimento dum Deus. E é desta convergência plena – olhares fixos,
cor pobre, linhas rectas – que ressalta o lirismo e preensão
singular que a cena do presépio, pintada por Fra Angélico, tem em
nossa alma. Tão forte preensão que é como recebêssemos os estigmas
do Paracleto.
Reza a história maravilhosa que foi S. Francisco de Assis quem
mandou armar o primeiro presépio que houve na cristandade. A
atribuição coaduna-se a preceito com o ânimo do poverello,
tão inclinado às coisas inocentes e tão amigo dos animais que os
considerava como representando uma das faces benignas do Criador.
Pois consta que ferido do desprendimento religioso que havia ao
tempo pela Santa Natividade chamara um dos discípulos e lhe dissera:
- Vai-me por essa mata fora até dares com uma brenha que não ande
devassada. Se encontrares uma lapinha, melhor. Fazes nela uma
mangedoira, espalhas feno por cima, e deitas nela o Menino Jesus, um
menino como esses que Nossa Senhora costuma trazer ao colo. Pões lá
também a imagem de Maria e de José, seu divino esposo. Olha,
arranja-me ainda uma jumentinha e uma bezerra. Estes simpáticos
bichos premde-mos à manjedoira. Vai, quando tudo estiver pronto,
avisa-me. O resto é comigo.
Na gruta assim agenciada celebrou o patriarca dos Menores a Missa do
Galo. Nunca houve e porventura nunca haverá no mundo auto mais
enternecedor e concorrido .
Referem ainda os bons agiógrafos que, ao dobrar-se o celebrante
para o bonequinho que representava o Deus-Menino, a sua efusão
amorosa foi tal que ele lhe sorriu, irradiando por toda a lapa uma
suiave e esplêndida luz. Estava encontrada a parte popular e
realista do divino mistério. Todos os templos, desde a pobre
igrejinha das serras á sumptuosa Basílica de S. Pedro armarão o seu
presépio em que o divino petiz sorri às almas, cândidas ou
canceradas, de ricos e pobres, indistintamente. Os próprios papas
acabarão por comparticipar do acto de adoração. A missa da meia
noite cantam-na em Santa Maria Maior; a missa da aurora em Santa
Anastácia e a missa do dia claro em S.
Pedro………………………………………………………………….
Todo este fausto, toda esta roçagem litúrgica dixam a perder de
vista a desprecavida singeleza do Natal nas serras. As Terras do
Demo esboçam o breve e tosco painel do dia amorável:
Ia nascer o Menino-Deus. Já a beata da Clarinha mailo João Lájeas
lhe armavam a cabana, colmo de palha, chão de musgo e uma manjedoira
para a burra e para a novilha, que era mocha, salvo seja. Em guisa
de paredes punham velhos chamalotes, e em torno do berço zagais com
anhos às cavaleiras, magos de bornal farto e a rude malta dos
caminhos. A Clara pernóstica todos os anos mandava cortar à
Glorinhas, que tinha muito boas mãos, uma camisa nova para o Menino;
camisa de fina holanda, cóscora de goma, colarinho à marialva, e ele
que era mesmo um torrão de açúcar ria, ria nem que lhe estivessem a
fazer cócegas no umbigo. E assim fagueiro, nas sombras esvaentes da
Missa do Galo, à luz de velas pouco maiores que pirilampos, o dava a
beijar o senhor padre, murmurando:
- Venite adoremus.»
…………………………………………………………………………………………….
Numa entrevista, dada em 1945, quando do lançamento da primeir
edição do Livro do Menino-Deus, explicava Aquilino Ribeiro,
nos seguintes termos, a maneira como tratara a legenda cristã:
«-Todos os temas são dignos de interesse e, direi, actuais, tendo
variado com os tempos o objecto de observação que podem oferecer ao
espectador.
-E qual a sua posição no Livro do Menino-Deus?
- A de quem evoca, mormente. À volta dos meus dez, doze anos,
garganteava eu jocundas se bem que desafinadas loas ao Menino Jesus.
Quando me debruço para essa época já remota, estou a ver o divino
infante pular do altar e, despedindo a bola do mundo que tinha na
mão, correr atrás dela e eu com ele de sociedade. Esta
transfiguração é de tal ordem que se desvanece a Divindade e o
devoto e ficam só dois camaradas.
-Mas esse Menino existe?
-Esse Menino é uma celebridade na Beira Alta desde séculos. Possui
riquíssimas rabonas bordadas a oiro, belos e flamantes tricórneos… e
mais que tudo tem um sorriso a dar-vos que nunca mais se
apaga……………………...
-Homenagem de um céptico?
-Homenagem de um velho amigo. E afinal pode haver mão mais delicada
que a do céptico, pois quantos gestos pratica os desintegra do
restante mundo
preconcebido?.....................................................................................................
O mundo, de resto, tem mais importância como sonho de que como
realidade. (…) No meu livro também sonhei…»
UM PINHEIRINHO QUE SONHOU…
E FOI ÀRVORE DE NATAL
J. F I L
I P E P. L A M E L A S
Bem pertinho de
Penude, pela majestosa serra das Meadas (que desagua na não menos
nobre urbe lamecense) quis o bom Deus que um dia visse luz aquele
pinheirinho bravo (igualzinho a tantos outros bravíssimos pinheiros,
que aqui quero lembrar e que por ali o Criador fez germinar entre
leiras, penedias, carreiros e giestais, saídos a partir do nada
de uma côdea do pão de milho mais o toucinho de porco ou uma
sardinhita assada…milagre de criação! E são tantos esses pinheiros,
iguais a este pinheirinho da história que eu vou contar - alguns já
me esqueci dos nomes, mas que por esse mundo de Deus andarão: Zés
Bernardos, outros Zés, Avelinos e Isidros, Leoneis, e Filipes,
Altinos, e aqueles que não me lembro?! A todos dessa diáspora, e em
particular, àqueles que não ousaram só por causa do pão nosso de
cada dia mas que procuraram saciar aquela fome inquietante própria
dos homens que não dormem apenas encostados às perguntas mas que
querem resposta tão longínquas ou impossíveis…) .
Nascido de pai e mãe fustigados, vergastados por beirãs nortadas
(ora os ventos de Magueija, nevões brancos que nem noivas virgens
loucas, ou saraivadas que nem pedras do Balsemão; ora a canícula do
demo de verões que nem inferno para o maior dos condenados na iena
do Lucifer) o pinheirinho lá foi furiscando a luz do dia, germinando
do chão húmido e humilde e parco e sem esperança da sua terra natal.
E eram tantos os pinheirinhos que ficavam grolos mal a luz os
via (ou porque levavam desviu logo à nascença – e lá ia mais um
anjinho, acolitado até ao cemitério pela pequenada da cruzada,
num caixãozinho branco, caldeirinha da água benta à frente mais o Pe.
Borges sempre apressado; ou então porque os pais entendiam que a
escola só ensinavam letras e as letras não matam a fome da barriga,
por ali tinham de ficar, agarrados à enxada, à rabiça da charrua ou
do arado celta, à aguilhada ou cajado dos rebanhos pela serra, ou
ganhar o dia no “doiro” sem mais esperança de pão e muito menos de
sonho!) Eram tantos minha Nossa Senhora ! ...
Irmão de muitos irmãos em tão fecunda floresta, não fugiu á regra
(dúzia ou mesmo passar disso, pois nestas coisas do que Deus mandava
a conta não contava, “loubores a deus! Vem gordinho e sem malinas e,
sendo moço nem vai à guerra para o inferno da Angola, Guiné ou
Moçambique”). Este pinheirinho tinha de ser bravo como eles os
irmãos e tantos outros irmãos de outros irmãos! Conformar -se com a
mediania dos pinheiros nascidos de outras árvores que não fazem
perguntas…isso é que não !...Não era pinheiro que se amansasse
apenas naquela linha do horizonte que o rodeava entre a serra das
Meadas, ou da Póvoa, ou Reconcos, ou lá em baixo a nobre torre de
menagem da cidade de Lamego, ou mais além a serra de S. Domingos, ou
mesmo aqueles aviõezinhos longiiiincuos que, de quando em
vez, passavam por cima do seu chapéu de palha e 3 penas pintadas
(comprado na feira de Lamego que é às quintas) cujo riscado branco e
logo faziam lembrar o rasto dos morteiros em dia de festa de S.
Pedro de Penude ou de Nossa Senhora do Rosairo do Iteiro”.
Interessava-se pelo que não via para além dessas linhas, dessas
alturas que a sua vista via e perguntava mas não havia resposta.
Mas
tinha de haver resposta.
Tinha
que haver resposta que ali não havia.
Havia
então que saltar. E saltou.
As
poucas luzes que lá no fundo germinavam, noite dentro (muitas delas
de azeite ou a petróleo) naquela aldeia afundada num silêncio
acomodado e doentio, muito cedo o deixaram a baloiçar de
curiosidade . Queria um dia viajar e vigiar montanhas abaixo e
sentir o paladar da verdade dos povoados, das vilas, das cidades. O
pinheirinho bravo queria saber um dia dos pontos cardeais, dos
oceanos, dos fundos dos mares, do redondo da terra, dos planetas,
das estrelas, das galáxias, da verdade da lua (e o homem com um
molho de silvas ás costas) das certezas que o seu sábio pai lhe
contava no intervalo do almoço nas lameiras (sobre as
histórias da bíblia ou daquela ermida lá no fundo naquela serra),
queria saber porque razão os homens matam ao mesmo tempo que se
encantam com uma flor ou o arco-iris. Queria saber da alegria, da
dor, desse ódio e desse amor , da equidade e da justiça ... Queria
saber do HOMEM: donde vinha e para onde ia...e se Deus era mesmo
assim justiceiro e mandava para o limbo ibernar os anjinhos
(que se passavam sem serem baptizados), ou existia mesmo aquele
mafarrico Lúcifer (pintado lá na bíblia que os seus pais tinham em
casa e que liam todas as noites depois da reza familiar do terço e
avé-marias) enfornava nas penas do inferno as judiarias dos homens
maus (com as forquilhas e molhadas de giestas secas). Queria saber
das pobres alminhas do purgatório, coitadinhas, lacrimosas e quase
esturriscadinhas, esperando as nossas jaclatórias e
trintários para irem para o céu (porque, “quem não tinha pecados,
que atirasse a primeira pedra”, e, pelo menos beniais, quem
os não tem!?...). Intrigava-o esse Deus que o campanário da igreja
de S Pedro de Penude que não parava de lembrar às criaturas a
hora do “meio-dia”, das “Avé-Marias”, ou notícia de”defuntos”, a
“baptizados”, a “novenas”, a “missa cantada” ou “ou fogo no monte ou
em casa alguma”... Queria saber quase tudo de tudo d’ Ele e da obra
que em seis dias fez para descansar no sétimo, depois de feito o
homem e da costela, a mulher! O brilho da luz da verdade das
coisas impelia-o sedutoramente para a frente. ..Para uma outra
verdade que estava sempre mais além...
Dias e dias, verões e invernos eram passados nesta sisma e enorme
esperança de um dia sair por aquela serra abaixo rumo a terras de um
Deus maior. E nada lhe passava despercebido. Via tudo com olhos de
reparar.
Deliciava-se com as histórias de um romeiro, almocreve ou
feiticeiro, de um feirante, de um camponês, de uma ave de rapina ou
raposa matreira que por aquelas redondezas de quando em vez
passavam ausentes de tempo (ou para a romaria dos Romédios
ou para a feira, ou à caça de qualquer coisa que mexesse)... E
registava tudo na sua pormenorizada memória! De todas as narrativas
que mais encantavam o pinheirinho bravo eram efectivamente os contos
de Natal! Causavam-lhe vertigens (se vissem aqueles olhitos!).
Arrepiavam-se lhes os cabelos! O cair de Dezembro deliciava-o...Era
o mês de Natal.
Ora pois, o mês de Natal! Mês que naquelas serranias das Beiras
nos transporta para noites sem fim, colados e aquecidos ao morrão e
ao fumo de uma lareira , imolando castanhas assadas, ouvindo
histórias bíblicas do Natal de Belém à luz ténue de uma lâmpada
defumada e maltratada por um mosquedo endiabrado daqueles
Agostos abrasadores... Mês da história de um Natal real. .. Do “adventum”...
Aquele João Baptista (profeta barbudo, vestido de peles e a comer
gafanhotos e mel silvestre por aqueles desertos da Galileia
vociferando sem medos, conrta injustiças e hipocrisias) causavam
tremenda admiração ao nosso pinheirinho. A sua estrondosa voz
clamando lá do deserto ” Preparai os seus caminhos” inquietava, pois
aparecia sempre nas leituras da missa pelos Dezembros!... Mês
repleto de ritos mais ou menos sagrados. Em que todos os
pinheirinhos (mansos ou bravos, ricos ou pobres, pretos ou brancos)
inspiram essa maravilhosa sensação de, por algum tempo, voltar a ser
criança, ao tamanho da semente soprada para a vida. Em que, pelo
menos uma vez por ano se renasce, de novo. Mês em que o musgo da
serra, o bercinho com o Menino de Belém, a cabana, os bonequinhos de
barro com animação quase real, voltam a ter sentido. Em que o
presépio regressa aos nossos lares com uma indigência
deslumbrante, de tão simples. Mês em que todos queremos ser o
“Meninos -Jesus “ do presépio da nossa casa .
E chamo aqui estas coisas porque havia um sonho. Um sonho muito
especial guardado ás sete chaves no coração verde, belo e muito
atento do nosso pinheirinho bravo: queria um dia ser “ÀRVORE DE
NATAL”. Que loucura se pudesse um dia ser arvore de Natal!... Um
dia...Nem que fosse por um dia! Ou mesmo pelo tempo de um piscar de
uma luzinha minúscula de Natal (segredava o pinheirinho bravo para
as três pinhas que baloiçavam, baloiçavam nos braços do incrédulo,
entroncado e ancestral vizinho). E de tal modo era o seu recalcado
desejo que fazia figas para aquelas respeitaveis personagens, mais
conhecidos por “ecologistas” por apregoarem pelos quatro cantos ser
crime arrancar pinheirinhos com raízes na terra para servirem de
árvores de Natal!... Detestava tal propaganda. Ele (tão vistoso, tão
torneadinho, tão fácil de se acomodar debaixo de um braço ou ao
ombro, até lá baixo ao casario) é que não podia ter direito ao mais
lindo sonho dos dias que por si passavam, apenas e só por ser
pequenino e ter raízes bem sólidas?!...
“Ai se eu pudesse tapar a boca a esses ladrões de sonhos”!...
(Murmurava amargurado o bravo pinheirinho).
Sim, sentia-se perfeitamente vocacionado para o seu mais lindo
sonho. E nunca perdeu a esperança. Acreditava. Apesar das campanhas
que por aí corriam contra a sua secreta ambição, teve sempre fé de
um dia, daqueles de Dezembro, por ali passasse um poeta comprador de
sonhos e simplesmente se lembrasse de gostar daquela pequenina
árvore, com raízes fundas e bem feitinhas, e o arrancasse sem
hesitar, o abraçasse encantado, até lá baixo ao povoado ,
aprumando-o junto ao presépio de um doce lar e os meninos lá de
casa pudessem acoitar-se junto dele numa lon-on-on-ga noite de
Natal !...
Acreditava.
Quem espera sempre alcança, dizia-lhe um dia um pastor de ovelhas e
também de sonhos (como ele). E eis então o milagre de quem nunca
desiste. Num belo dia de Dezembro, rodeado de nevoeiros, nevões,
geadas e ventos de bater as castanholas, pela serra Meadas passou um
transeunte que procurava um pinheirinho para a sua árvore de Natal.
Com olhos de poeta este homem bom e que percebia de árvores, de
pinheiros atentos e corajosos, logo ao primeiro olhar percepcionou o
que se passava lá por dentro do pinheirinho bravo. De facto um
especialista em decifrar os grandes sonhos que existem nas pequenas
coisas!
E não teve dúvidas na escolha. O poeta viu, olhou e gostou
imediatamente. Amor á primeira vista! Aproximou-se dele. Apanhou-o
pelos numerosos, aveludados e tenros bracinhos. De um certeiro puxão
vai de o arrancar do ventre materno da terra, também feliz por ver
sair um fruto seu para a felicidade de um mundo mais iluminado. O
pinheirinho nem queria acreditar! E tremia. E ria! E olhava
estonteado para os vizinhos. E resinava duas ou três lágrimas de dor
que não era dor mas prazer! Liberto da prisão da terra natal aí vai
ele (“bye bye!”), mundo fora rumo às luzes da ribalta das
aldeias vilas e cidades, abraçado ao seu sonho, que afinal já não
era sonho.
Ia de rastos, é um facto. O comprador de sonhos era efectivamente
desajeitado. Mas pouco ou nada se importava o pinheirinho bravo pois
já tinha aprendido nas encostas de Penude de onde vinha, que tudo na
vida tem custos... Mas que importava isso quando os sonhos se tornam
realidade!? Que importa, pois, ir de rastos pelo chão enlameado e
frio e empedrado, se já estava a descortinar umas luzinhas ténues
das janelas da aldeia e a torre branca da Igreja de S. Pedro de
Penude!? Não era sonho, era mesmo verdade!
Ei-lo na viagem para o outro lado da linha do horizonte parado. E já
se faz luz. Há festa na terra dos homens. O Natal chegou. No casebre
do homem pobre havia afinal um palácio encantado de riquezas! Havia
muitas crianças com faces rosadas bem moldadas por um clima agreste
mas felizes, naqueles olhinhos brilhantes. Havia presépio!Havia o
Menino Jesus nas palhinhas deitado ! Era Natal na casa do homem
poeta caçador de sonhos moldados em árvore de Natal!
E o pinheirinho bravo foi plantado ali mesmo juntinho ao menino
Jesus, no bercinho em palhinhas deitadinho, no presépio da casa do
homem bom. E como brilhava o pinheirinho: picotado de luzinhas
multicolores, salpicado de flocos de farinha de milho fingindo neve,
de umas três prendinhas rodeado, dois fiozinhos prateados e um coro
de meninos (filhos também do sonho) cantando: “ No dia de Natal,
tudo é lindo não há mal, cai a neve no quintal, para passar o
Pai-Natal...”.
Eis agora o nosso pinheirinho bravo chegado á felicidade! A
realidade do seu sonho. Ficou-lhe todavia uma certa mágoa de haver
tantos outros pinheirinhos no mundo que também sonham mas que ainda
estão tão longe de um porto real... Se houvesse mais homens
solidários, com almas de poeta e comprassem todos esses sonhos!... E
é preciso tão pouco para transformar tantos sonhos que por aí vão
pelo mundo…se os homens quizessem! Basta dar a mão, dar uma
oportunidade… aproveitá-la, como os fizeram (o pinheirinho e o seu
poeta que lhe apontou a liberdade).
Por fim, estejam atentos à mensagem do nosso pinheirinho: lutem,
lutem sempre e acreditem na energia que brota das vossas raízes
sólidas, pois um dia qualquer, sempre aparecerá alguém atento a dar
a mão, cabendo, então aproveitar a oportunidade porque não tarda que
o sonho aconteça mesmo!
Passal
de Penude, Dezembro de 2009
Retrato de Beirão
Retrato de Beirão
por José P Lamelas
Nem
todos os penudenses se verão “encaixados” nesta moldura.
Mas vale sempre a
pena ler este retrato de Beirão feito por Aqulino Ribeiro em “Arcas
encoiradas”
(o resumo, aqui
apresentado, é da responsabilidade de José Pereira Lamelas)
Ficha
antropológica do beirão:
estatura média/alta, moreno, de cabeça e face sobre o comprido,
mento saliente, prima entre outras qualidades pelo feitio positivo,
constância e tenacidade. Tenaz, é de todos os atributos o que mais
lhe convém. Esta virtude implica, além de génio operoso, firme
querer. A sua vida exterior, fortuna, aventuras e heroísmos são,
acima de tudo fruto da vontade.
Meditou ter água
com que regar o seu quartel minúsculo de feijões, e vai com a mina
pelo cerro dentro até sangrar a veia que lhe há-de encher a pocinha
que no topo da fazenda dormita debaixo de merugens, ao som de duas
rãs caturreiras, ou espelha um céu de iluminura. Saibra o morro para
plantar dois bacelos. Sacha três vezes o centeio. Rega quatro vezes
o milho. Debulha, vagem a vagem, a sua colheita de feijoal. No tempo
dos ninhos passa a manhã à espreita dum casal de perdizes para lhe
roubar os ovos. Percorre três, quatro aldeias com um pedaço de pão
no estômago a bufarinhar a canastra de sardinha.
……………………………………………………………………………………………………………………
Testo à luta pela
vida e em fazer vingar as suas paixões, não parece todavia que seja
obstinado. Uma luz mais ou menos clara, mais ou menos bruxuleante,
alumia a sua alma positiva: a luz do bom-senso. Resulta daí sentir a
terra que pisa trazer pouco a cabeça nas nuvens. Chamem-lhe prosaico
se quiserem. Entrincheirado nas suas opiniões que preza como um
pecúlio do carácter, deixar-se-á, porém, desalojar sempre que lhe
falem à razão. O minhoto consulta a sua Maria, o beirão os seus
botões. Pus-me a considerar - é expressão que se ouve a cada passo
e que traduz o estado frequente do seu espírito inquieto e
inquiridor. Certa inventivas suas fariam a delícia dum Twain. A esta
faculdade denomina ele de manha. Se vira um pedra, se corta um
pinheiro, a amansar a novilha a corrigir a balda da jerica, usará de
manha, a boa e leal manha que o patrício João de Barros celebrava
como virtude meritória nos conquistadores d Índia.
Na Beira existe
diferença sensível entre a população da serra e a do vale. Esta é
mais amena e amorável, humilde sem deixar de ser impulsiva e
aventurosa para que der e vier; aquela, ferrenha em tudo, agreste
parece menos imediata nos reflexos e mais circunspecta de
entendimento. Com certeza que o serrano confinado em suas barrocas e
corujeiras, esquecida do Estado que não seja para a tosquia
tributária entregue aos individualismos que derivam inevitavelmente
da inexpansão, é mais bárbaro, bronco, e indócil que o seu irmão da
planície. Labroste tem contudo a altivez dos homens livres da tribo
Quando fala ao fidalgo, não tira o chapéu. Em compensação, ao
contrário daquele, por temperamento zombador e inconsiderado, tem
horror figadal ao homem da lei, desde o guarda republicano ao juiz.
……………………………………………………………………………………………………………………
Que um e outro
são permeáveis ao progresso, mais do que por espírito de imitação,
ressalta à luz da sua adaptabilidade e da sua experiência de
migradores.
O beirão, embora
não seja insensível ao desenraizamento, suporta facilmente novos
climas, noves usos, nova vida. Volta à portela, depois dum banho de
civilização. (…) Há alguma coisa a que liga suma importância: o
crédito de que goza e os juízos que pode provocar. Conformar-se-á
com tudo, os vários desaguisados da fortuna e dos homens, menos com
a ideia de que o suponham susceptível de deixar fazer o ninho atrás
da orelha. (…) Custa-lhe realmente que alimentem a seu respeito
antecipações pejorativas. Achincalhes há-de varrê-los, ainda que lhe
custe pena maior. O motejo não somente é superior à sua cordura como
à sua compreensão. Fazerem pouco dele é afronta grave. E antes
prefere ser lesado em seu interesse, do que ser diminuído em seu
brio. Semelhantes reversos tornam-no odioso e vingativo. Nisto é
visceralmente hispânico, bicho da meseta.
…………………………………………………………………………………………………………………………………
…Nunca poderá
receber dedada que o amolgue. Como tem em grande conta o apreço que
merece ao semelhante, não queda refractário à lisonja e, no geral, à
cortesia. Mas, ainda que ufano, está muito longe de ser vaidoso.
Que é
rotineiro... ? Nada mais compreensível tê-lo sido, haja em vista a
sua forte personalidade. Mas, pois que não é escasso de
inteligência, vai-se afeiçoando à lei nova, à moeda nova, ao
utensílio novo. Já trocou a panela de barro pelo pote de ferro o
arado de pau pela charrua, o mangual pela malhadeira mecânica, a
água de flor de sabugueiro pelo borato de soda.
……………………………………………………………………………………………………………………..
Triste, de modo
geral, não parece que o português o seja. O beirão muito menos. (…)
O minhoto é uma cigarra a cantar; o trasmontano activo e impaciente;
o beirão vivaz e maleável.
……………………………………………………………………………………………………………………..
A tristeza (…)
combate-se comendo bem, bebendo melhor, e não tendo inveja do
próximo. Neste particular, pouco há que dizer quanto à Beira. Vinho,
pero e pão põem contente o beirão.
O Beirão é
religioso, mas duma religiosidade mais litúrgica do que
interior, proselitista porque sempre gostou de ver os outros
professar o seu credo, mas raramente eivada de fanatismo. A
religiosidade existe nele como uma espécie de pigmentação; é assim
porque nasceu assim. Mais devoto na planície do que na serra, nunca
em seus transportes se erguerá em asas místicas para o além. O além
está fora da sua geografia ideal. Encara o Céu como uma horta que
exige certos cuidados e muito tino se se quer ter a panela suprida.
……………………………………………………………………………………………………………………..
A superstição
religiosa do beirão é como os cogumelos que se desenvolvem ao toro
das velhas árvores plantadas em terrenos simples. São grandes,
gelatinosos, mas nada peçonhentos.
……………………………………………………………………………………………………………………..
A vida social
da província acabará por ficar reduzida a cerimónias de igreja.
Qualquer prática profana ressuma hoje água-benta. (…) Em votos,
romarias e arraiais espraia o instinto tiranizaste de sociabilidade
e confraternização. (…) Quem dissociasse no beirão o religioso do
social, ficaria inabilitado para lhe penetrar na índole e em certos
arcanos do entendimento.
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A razão porque
talvez o beirão preleve mais portugueses em sociabilidade é
possivelmente por ninguém ser tão adaptável como ele. Ele vai, faz
amigos que deixa a chorar; por seu ânimo dado e empreendedor, seu
optimismo saudável é perna para todas as tripeças e pedra basilar
das mais inimagináveis tertúlias.
Dotado de coração
paciente, prenda com que raramente os deuses brindam os humanos…, é
discutível que seja mais sofredor que sofrido. Se está em jogo a
dignidade ou o que julga o seu direito, ei-lo assanhado, não sendo
necessário invocar os Magriços de lendária memória para se saber que
é corajoso, como atestam as arruaças por mercados e arraiais. Mas a
tal candeia que nunca se apaga em sua consciência coíbe-o de chegar
às do cabo, temido da justiça local que, já o notou, oprime o pobre
e é indulgente com o rico. O beirão aborrece ainda, como peste, o
serviço militar obrigatório. Está persuadido que leva à guerra donde
se não volta, consoante era de norma nas expedições ao Oriente.
Em despeito de
fértil imaginativa, afigura-se-nos o beirão pouco propenso à arte.Com efeito, em coisas do ramerrão quotidiano, no arranjo
caseiro, na utensilagem da lavoira, na oficina, presta maior cesto à
utilidade do que à beleza. Para o lavrador na chã, como para o
jornaleiro no quintalinho, a preocupação capital consiste em extrair
do solo quanto possa dar. O terreno é agenciado de modo que se não
perca um palmo em camalhões, cabeceiras carreiros, desafogos. Quão
longe estamos do escravo da terra, o saloio, que a cultiva com o
esmero e aparato de seu nobre avô, o moiro! A horta deste era um
jardim riscado a cordel, com arabescos e mosaicos para regalo dos
olhos.
Compreende-se.
Tanto o beirão da boa estirpe como o beirão da aba sul da província,
denominado ratinho, regam a terra com o suor do rosto e em seu labor
ímprobo não compartem do desenfado com que se satisfazem sem
sacrifício os caprichos das amantes. O saloio, de modo geral, o
homem da várzea meridional, agricultando um solo rico, será
instintivamente um jardineiro; o beirão a contas com a camada de
barro ou marga, para que nomes expressivos: barrosela, oazzeiza,
courela neiro, nunca passará dum ilota.
Ainda no
quintalejo da planície, mormente na casa há mocinha louçã, ver-se-á
luzir a de Alexandria, a dália, o crisântemo bastardo, o nome de
despedidas do verão; na horta ser além da couve galega, do
cebolinho, dos colondros quando muito medram a alosna, o aipo, a
arruda, o alecrim, a alfazema, que entram no condimento das mezinhas
com que é vezo seu ou era da sua medicar-se. Mas se a árvore de
fruto está na do meio da leira porque a sombra prejudica ao cultivo,
com razão dobrada não entra ali planta viva apenas para mimo dos
olhos. Ama a terra amor entranhadamente egoísta e a ferocidade lobo
insatisfeito. Não lhe toquem no talhadoiro águas; cuidado, a charrua
do vizinho não desvie o marco um centímetro para a banda; que a
cabra pobre não lhe roa as duas fêveras que se inclinam para o
baldio; sem licença não pisem o que é e paga boa décima ao «cães da
Fazenda»! É idolatria absurda, mas que não o leva a alinda
idolatrada. Se rebenta a tiros de pólvora bomardeira o penedo que se
ergue a meio da courela, é por mais nada senão porque no espaço que
vai ganhar pode plantar meia dúzia de pés de milho. Talvez no fundo
desta paixão, deste apego cego e insensato, mais que um sagrado e
supersticioso respeito pela terra, que lhe foi berço e há-de ser
tumba, não espreite mais que a fome ancestral do mal-herdado.