Página inicial
Apresentação
Penude
Notícias
Entrevistas
História
Festas e Romarias
Associações
Fotografias
Álbum de fotos
Ligações
Publicidade
Arte e Literatura
Arte
Literatura
Textos
In Memoriam
Quem somos
Contato
Localização
Livro de visitas
Blog
Mapa de acesso


 
 

 

DA PURGAÇAL

É grande, grandíssima, a alegria que sinto ao ver recolhido um património que julgava perdido para sempre. Quantas vezes quis escrever sobre a minha terra, PURGAÇAL DE PENUDE, para que as incríveis vivências de várias gerações se não perdessem. Não o tinha ainda chegado a fazer, principalmente por falta de tempo, mas Deus concedeu-me a graça de chegar a ver concretizado o meu sonho através da excelente iniciativa do Dr. José Lamelas. Obrigada, do fundo do coração, Dr. Lamelas!

Nasci na rua do saco

Cresci perto da Lobada

Tive as Cortes por encosto

E Quintela por fachada

 

Dum lado era o alfaiate

Doutro lado o sapateiro

Em Penudo a avó Jofina

E a Missa era no Iteiro

 

Purgaçal agreste e bela,

Foi dessa encosta que vim.

Penude é a minha terra.

A Purgaçal vive em mim.

 

                                               J. Fernandes

 

 

O Porco Espinho

Porco-Espinho
26 de Maio de 2010

Durante a era glacial, muitos animais morriam por causa do frio.
Os porcos-espinhos, percebendo a situação, resolveram juntar-se em grupos, assim se agasalhavam e se protegiam mutuamente, mas os espinhos de cada um feriam os companheiros mais próximos, justamente os que ofereciam mais calor.

Por isso, decidiram afastar-se uns dos outros e começaram de novo a morrer congelados. Então, precisaram fazer uma escolha: ou desapareciam da Terra ou aceitavam os espinhos dos companheiros.

Com sabedoria, decidiram voltar a ficar juntos. Aprenderam, assim, a conviver com as pequenas feridas que a relação com uma pessoa muito próxima podia causar, já que o mais importante era o calor do outro.

E, assim, sobreviveram.

Moral da História

O melhor relacionamento não é aquele que une pessoas perfeitas, mas aquele onde cada um aprende a conviver com os defeitos do outro, e admirar suas qualidades.

 António Alves


 
   
O Menino Deus” de Aquilino Ribeiro

José Pereira Lamelas

 

 

 

 

AQUILINO RIBEIRO
Nascido a 13 de Setembro de 1885 no concelho de Sernancelhe, freguesia  de Carregal de Tabosa, filho de Mariana do Rosário Gomes e do padre Joaquim Francisco Ribeiro, tem uma infância, ao que se sabe, de miúdo um pouco mais que travesso, a tal ponto que ainda hoje é possível encontrar na zona quem tenha ouvido contar histórias picarescas de um menino destinado pela família à vida de sacerdócio. A sua ida para o Colégio da Senhora da Lapa, em 1895, seria o início de um percurso que o leva seguidamente para Lamego, mais tarde para Viseu (ano de 1902), onde vai estudar Filosofia, e, pouco tempo depois, para o Seminário de Beja, frequentado, ao que consta, pelos ordenandos mais recalcitrantes. Em 1904 é expulso do seminário, depois de ter dado uma réplica cortante a uma acusação do Padre Manuel Ançã, um dos dois irmãos que ao tempo dirigiam a instituição.
Em 5 de Outubro de 1900 é admitido é admitido no Colégio Roseira, em Lamego ( Colégio de Lamego )

1945 - O Livro do Menino Deus (o Natal na história religiosa e na etnografia).

Quando eu fazia os meus estudos secundários no Colégio de Montariol, em Braga (instituição franciscana), faleceu Aquilino Ribeiro. Tal facto foi notícia e recordo alguns comentários menos abonatórios feitos na instituição pelo facto de Aquilino ser ateu… E ficou-me essa mácula na imagem deste grande “vizinho de Penude-Lamego”.

Eu tenho a obra quase completa de Aquilino Ribeiro. A vida demasiado preenchida que tenho tido, ainda não me permitiu ler muita literatura. Apesar disso, era com a leitura do “Romance da Raposa” que eu adormecia o Diogo e o David quando eram crianças.

Na semana passada, tive a curiosidade de investigar se havia Natal na obra do Aquilino. E descobri, com surpreza, que ele até tinha um livro dedicado ao Natal, intitulado “ O Livro do Menino-Deus”.  Eis um extracto:

 Extracto retirado do livro “O Menini Deus” de Aquilino Ribeiro

«O Menino Jesus está deitado no chão, bracinhos erguidos em lira, e em volta, ajoelhada e de mãos postas, a santa família. Conservam-se todos a distância, uma distâncai nua e bem visível que traduz assombro e respeito. É um deus que ali se vê! Não se lhe toca! Um gesto menos discreto e podia acabar-se o mundo! De facto sentem-se compenetrados da grandeza do seu papel. Mas do resto do pai e da mãe transluz ao mesmo tempo uma compunção radiosa, mais que celestial. Não, não é apenas um deusinho que alí está; é também flor terrestre; sofrimento e delícia, carne da carne. É em suma a humanidade divinizada na sua forma maravilhosa, mais chegada ao princípio das coisas e do ser. Ao fundo, burro e vaca mostram cabeças espirituais, cônscios também eles da subida honra que lhes cabe em assistir ao nascimento dum Deus. E é desta convergência plena – olhares fixos, cor pobre, linhas rectas – que ressalta o lirismo e preensão singular que a cena do presépio, pintada por Fra Angélico, tem em nossa alma. Tão forte preensão que é como recebêssemos os estigmas do Paracleto.

 

Reza a história  maravilhosa que foi S. Francisco de Assis quem mandou armar o primeiro presépio que houve na cristandade. A atribuição coaduna-se a preceito com o ânimo do poverello, tão inclinado às coisas inocentes e tão amigo dos animais que os considerava como representando uma das faces benignas do Criador. Pois consta que ferido do desprendimento religioso que havia ao tempo pela Santa Natividade chamara um dos discípulos e lhe dissera:

- Vai-me por essa mata fora até dares com uma brenha que não ande devassada. Se encontrares uma lapinha, melhor. Fazes nela uma mangedoira, espalhas feno por cima, e deitas nela o Menino Jesus, um menino como esses que Nossa Senhora costuma trazer ao colo. Pões lá também a imagem de Maria e de José, seu divino esposo. Olha, arranja-me ainda uma jumentinha e uma bezerra. Estes simpáticos bichos premde-mos à manjedoira. Vai, quando tudo estiver pronto, avisa-me. O resto é comigo.

Na gruta assim agenciada celebrou o patriarca dos Menores a Missa do Galo. Nunca houve e porventura nunca haverá  no mundo auto mais enternecedor  e concorrido .

Referem ainda os bons agiógrafos que, ao dobrar-se o celebrante  para o bonequinho que representava o Deus-Menino, a sua efusão amorosa foi tal que ele lhe sorriu, irradiando por toda a lapa uma suiave e esplêndida luz. Estava encontrada a parte popular e realista do divino mistério. Todos os templos, desde a pobre igrejinha das serras á sumptuosa Basílica de S. Pedro armarão o seu presépio em que o divino petiz sorri às almas, cândidas ou canceradas, de ricos e pobres, indistintamente. Os próprios papas acabarão por comparticipar do acto de adoração. A missa da meia noite cantam-na em Santa Maria Maior; a missa da aurora em Santa Anastácia e a missa do dia claro em S. Pedro………………………………………………………………….

Todo este fausto, toda esta roçagem litúrgica dixam a perder de vista a desprecavida singeleza do Natal nas serras. As Terras do Demo esboçam o breve e tosco painel do dia amorável:

Ia nascer o Menino-Deus. Já a beata da Clarinha mailo João Lájeas lhe armavam a cabana, colmo de palha, chão de musgo e uma manjedoira para a burra e para a novilha, que era mocha, salvo seja. Em guisa de paredes punham velhos chamalotes, e em torno do berço zagais com anhos às cavaleiras, magos de bornal farto e a rude malta dos caminhos. A Clara pernóstica todos os anos mandava cortar à Glorinhas, que tinha muito boas mãos, uma camisa nova para o Menino; camisa de fina holanda, cóscora de goma, colarinho à marialva, e ele que era mesmo um torrão de açúcar ria, ria nem que lhe estivessem a fazer cócegas no umbigo. E assim fagueiro, nas sombras esvaentes da Missa do Galo, à luz de velas pouco maiores que pirilampos, o dava a beijar o senhor padre, murmurando:

- Venite adoremus.»   

…………………………………………………………………………………………….

Numa entrevista, dada em 1945, quando do lançamento da primeir edição do Livro do Menino-Deus, explicava Aquilino Ribeiro, nos seguintes termos, a maneira como tratara  a legenda cristã:

«-Todos os temas são dignos de interesse e, direi, actuais, tendo variado com os tempos o objecto de observação que podem oferecer ao espectador.

-E qual a sua posição no Livro do Menino-Deus?

- A de quem evoca, mormente. À volta dos meus dez, doze anos, garganteava eu jocundas se bem que desafinadas loas ao Menino Jesus. Quando me debruço para essa época já remota, estou a ver o divino infante pular do altar e, despedindo a bola do mundo que tinha na mão, correr atrás dela e eu com ele de sociedade. Esta transfiguração é de tal ordem que se desvanece a Divindade e o devoto e ficam só dois camaradas.

-Mas esse Menino existe?

-Esse Menino é uma celebridade na Beira Alta desde séculos. Possui riquíssimas rabonas bordadas a oiro, belos e flamantes tricórneos… e mais que tudo tem um sorriso  a dar-vos que nunca mais se apaga……………………...

-Homenagem de um céptico?

-Homenagem de um velho amigo. E afinal pode haver mão mais delicada que a do céptico, pois quantos gestos pratica os desintegra do restante mundo preconcebido?.....................................................................................................

O mundo, de resto, tem mais importância como sonho de que como realidade. (…) No meu livro também sonhei…»

UM PINHEIRINHO QUE SONHOU…
E FOI ÀRVORE DE NATAL
J. F I L I P E  P.  L A M E L A S

 

 

 

 

 

     Bem pertinho de Penude, pela majestosa serra das Meadas (que desagua na não menos nobre urbe lamecense) quis o bom Deus que um dia visse luz aquele pinheirinho bravo (igualzinho a tantos outros bravíssimos pinheiros, que aqui quero lembrar e que por ali o Criador fez germinar entre leiras, penedias, carreiros e giestais, saídos a partir do nada de uma côdea do pão de milho mais o toucinho de porco ou uma sardinhita assada…milagre de criação! E são tantos esses pinheiros, iguais a este pinheirinho da história que eu vou contar - alguns já me esqueci dos nomes, mas que por esse mundo de Deus andarão: Zés Bernardos, outros Zés, Avelinos e Isidros, Leoneis, e Filipes, Altinos, e aqueles que não me lembro?! A todos dessa diáspora, e em particular, àqueles que não ousaram só por causa do pão nosso de cada dia mas que procuraram saciar aquela fome inquietante própria dos homens que não dormem apenas encostados às perguntas mas que querem resposta tão longínquas ou impossíveis…) .

     Nascido de pai e mãe fustigados, vergastados por beirãs nortadas (ora os ventos de Magueija, nevões brancos que nem noivas virgens loucas, ou saraivadas que nem pedras do Balsemão; ora a canícula do demo de verões que nem inferno para o maior dos condenados na iena do Lucifer) o pinheirinho lá foi furiscando a luz do dia, germinando do chão húmido e humilde e parco e sem esperança da sua terra natal.

     E eram tantos os pinheirinhos que ficavam grolos mal a luz os via (ou porque levavam desviu logo à nascença – e lá ia mais um anjinho, acolitado até ao cemitério pela pequenada da cruzada, num caixãozinho branco, caldeirinha da água benta à frente mais o Pe. Borges sempre apressado; ou então porque os pais entendiam que a escola só ensinavam letras e as letras não matam a fome da barriga, por ali tinham de ficar, agarrados à enxada, à rabiça da charrua ou do arado celta, à aguilhada ou cajado dos rebanhos pela serra, ou ganhar o dia no “doiro” sem mais esperança de pão e muito menos de sonho!) Eram tantos minha Nossa Senhora ! ...

     Irmão de muitos irmãos em tão fecunda floresta, não fugiu á regra (dúzia ou mesmo passar disso, pois nestas coisas do que Deus mandava a conta não contava, “loubores a deus! Vem gordinho e sem malinas e, sendo moço nem vai à guerra para o inferno da Angola, Guiné ou Moçambique”). Este pinheirinho tinha de ser bravo como eles os irmãos e tantos outros irmãos de outros irmãos! Conformar -se com a mediania dos pinheiros nascidos de outras árvores que não fazem perguntas…isso é que não !...Não era pinheiro que se amansasse  apenas naquela linha do horizonte que o rodeava entre a serra das Meadas, ou da Póvoa, ou Reconcos, ou lá em baixo a nobre torre de menagem da cidade de Lamego, ou mais além a serra de S. Domingos, ou mesmo aqueles aviõezinhos longiiiincuos que, de quando em vez, passavam por cima do seu chapéu de palha e 3 penas pintadas (comprado na feira de Lamego que é às quintas) cujo riscado branco e logo faziam lembrar o rasto dos morteiros em dia de festa de S. Pedro de Penude ou de Nossa Senhora do Rosairo do Iteiro”. Interessava-se pelo que não via para além dessas linhas, dessas alturas que a sua vista via e perguntava mas não havia resposta.

Mas tinha de haver resposta.

Tinha que haver resposta que ali não havia.

Havia então que saltar. E saltou.

As poucas luzes que lá no fundo germinavam, noite dentro (muitas delas de azeite ou a petróleo) naquela aldeia afundada num silêncio acomodado e doentio, muito cedo  o deixaram  a baloiçar de curiosidade . Queria um dia viajar e vigiar montanhas abaixo e sentir o paladar da verdade dos povoados, das vilas, das cidades. O pinheirinho bravo queria saber um dia dos pontos cardeais, dos oceanos, dos fundos dos mares, do redondo da terra, dos planetas, das estrelas, das galáxias, da verdade da lua (e o homem com um molho de silvas ás costas) das certezas que o seu sábio pai lhe contava no intervalo do almoço nas lameiras (sobre as histórias da bíblia ou daquela ermida lá no fundo naquela serra), queria saber porque razão os homens matam ao mesmo tempo que se encantam com uma flor ou o arco-iris. Queria saber da alegria, da dor, desse ódio e desse amor , da equidade e  da justiça ... Queria saber  do HOMEM: donde vinha e para onde ia...e se Deus era mesmo assim justiceiro e mandava para o limbo ibernar os anjinhos (que se passavam sem serem baptizados), ou existia mesmo aquele mafarrico Lúcifer (pintado lá na bíblia que os seus pais tinham em casa e que liam todas as noites depois da reza familiar do terço e avé-marias) enfornava nas penas do inferno as judiarias dos homens maus (com as forquilhas e molhadas de giestas secas). Queria saber das pobres alminhas do purgatório, coitadinhas, lacrimosas e quase esturriscadinhas, esperando as nossas jaclatórias e trintários para irem para o céu (porque, “quem não tinha pecados, que atirasse a primeira pedra”, e, pelo menos beniais, quem os não tem!?...). Intrigava-o esse Deus que o campanário  da igreja de S Pedro de Penude  que não parava de  lembrar  às criaturas a hora  do “meio-dia”, das “Avé-Marias”, ou notícia de”defuntos”, a “baptizados”, a “novenas”, a “missa cantada” ou “ou fogo no monte ou em casa alguma”... Queria saber  quase tudo de tudo d’ Ele e da obra que em seis dias fez para descansar no sétimo, depois de feito o homem e da costela, a mulher!  O brilho da luz da verdade das coisas  impelia-o sedutoramente para a frente. ..Para uma outra verdade que estava sempre mais além...

      Dias e dias, verões e invernos eram passados nesta sisma e enorme esperança de um dia sair por aquela serra abaixo rumo a terras de um Deus maior. E nada lhe passava despercebido. Via tudo com olhos de reparar.

      Deliciava-se com as histórias de um romeiro, almocreve ou feiticeiro, de um feirante, de um camponês, de uma ave de rapina ou raposa matreira que por aquelas redondezas  de quando em vez passavam  ausentes de tempo (ou para a romaria dos Romédios ou para a feira, ou à caça de qualquer coisa que mexesse)... E registava tudo na sua pormenorizada memória! De todas as narrativas que mais encantavam o pinheirinho bravo eram efectivamente os contos de Natal! Causavam-lhe vertigens (se vissem aqueles olhitos!). Arrepiavam-se lhes os cabelos! O cair de Dezembro deliciava-o...Era o mês de Natal.

     Ora pois, o mês de Natal! Mês que naquelas serranias das Beiras   nos transporta para noites sem fim, colados e aquecidos ao  morrão e ao fumo de uma  lareira , imolando castanhas assadas, ouvindo histórias  bíblicas do Natal de Belém   à luz ténue de  uma lâmpada defumada  e maltratada  por um  mosquedo endiabrado daqueles Agostos abrasadores... Mês da história  de um Natal real. .. Do “adventum”... Aquele João Baptista (profeta barbudo, vestido de peles e a comer gafanhotos e mel silvestre por aqueles desertos da Galileia vociferando sem medos, conrta injustiças e hipocrisias) causavam tremenda admiração ao nosso pinheirinho. A sua estrondosa voz clamando lá do deserto ” Preparai os seus caminhos” inquietava, pois aparecia sempre nas leituras da missa pelos Dezembros!... Mês repleto de ritos mais ou menos sagrados. Em que todos os pinheirinhos (mansos ou bravos, ricos ou pobres, pretos ou brancos) inspiram essa maravilhosa sensação de, por algum tempo, voltar a ser criança, ao tamanho da semente soprada para a vida. Em que, pelo menos uma vez por ano se renasce, de novo. Mês em que o musgo da serra, o bercinho com o Menino de Belém, a cabana, os bonequinhos de barro com animação quase real, voltam a ter sentido. Em que o presépio regressa aos nossos lares   com uma indigência deslumbrante,   de tão simples.  Mês em que todos queremos ser o “Meninos -Jesus “ do presépio da nossa casa .

     E chamo aqui estas coisas porque havia um sonho. Um sonho muito especial guardado ás sete chaves no coração verde, belo e muito atento do nosso pinheirinho bravo: queria um dia ser “ÀRVORE DE NATAL”. Que loucura se pudesse um dia ser arvore de Natal!... Um dia...Nem que fosse por um dia! Ou mesmo pelo tempo de um piscar de uma luzinha minúscula de Natal (segredava o pinheirinho bravo para as três pinhas que baloiçavam, baloiçavam nos braços do incrédulo, entroncado e ancestral vizinho). E de tal modo era o seu recalcado desejo que fazia figas para aquelas respeitaveis personagens, mais conhecidos por “ecologistas” por apregoarem pelos quatro cantos ser crime arrancar pinheirinhos com raízes na terra para servirem de árvores de Natal!... Detestava tal propaganda. Ele (tão vistoso, tão torneadinho, tão fácil de se acomodar debaixo de um braço ou ao ombro, até lá baixo ao casario) é que não podia ter direito ao mais lindo sonho dos dias que por si passavam, apenas e só por ser pequenino e ter raízes bem sólidas?!...

      “Ai se eu pudesse tapar a boca a esses ladrões de sonhos”!... (Murmurava amargurado o bravo pinheirinho).

     Sim, sentia-se perfeitamente vocacionado para o seu mais lindo sonho. E nunca perdeu a esperança. Acreditava. Apesar das campanhas que por aí corriam contra a sua secreta ambição, teve sempre fé de um dia, daqueles de Dezembro, por ali passasse um poeta comprador de sonhos e simplesmente se lembrasse de gostar daquela pequenina árvore, com raízes fundas e bem feitinhas, e o arrancasse sem hesitar, o abraçasse encantado, até lá baixo ao povoado , aprumando-o junto ao  presépio de um doce lar   e os meninos lá de casa  pudessem  acoitar-se junto dele numa lon-on-on-ga noite de Natal !...

     Acreditava.

     Quem espera sempre alcança, dizia-lhe um dia um pastor de ovelhas e também de sonhos (como ele). E eis então o milagre de quem nunca desiste. Num belo dia de Dezembro, rodeado de nevoeiros, nevões, geadas e ventos de bater as castanholas, pela serra Meadas passou um transeunte  que procurava um pinheirinho para a sua árvore de Natal. Com olhos de poeta este homem bom e que percebia de árvores, de pinheiros atentos e corajosos, logo ao primeiro olhar percepcionou o que se passava lá por dentro  do pinheirinho bravo. De facto um especialista em decifrar os grandes sonhos que existem nas pequenas coisas!

     E não teve dúvidas na escolha. O poeta viu, olhou e gostou imediatamente. Amor á primeira vista! Aproximou-se dele. Apanhou-o pelos numerosos, aveludados e tenros bracinhos. De um certeiro puxão vai de o arrancar do ventre materno da terra, também feliz por ver sair um fruto seu para a felicidade de um mundo mais iluminado. O pinheirinho nem queria acreditar! E tremia. E ria! E olhava estonteado para os vizinhos. E resinava duas ou três lágrimas de dor que não era dor mas prazer! Liberto da prisão da terra natal aí vai ele (“bye bye!”), mundo fora rumo às luzes da ribalta das aldeias vilas e cidades, abraçado ao seu sonho, que afinal já não era sonho.

     Ia de rastos, é um facto. O comprador de sonhos era efectivamente desajeitado. Mas pouco ou nada se importava o pinheirinho bravo pois já tinha aprendido nas encostas de Penude de onde vinha, que tudo na vida tem custos... Mas que importava isso quando os sonhos se tornam realidade!? Que importa, pois, ir de rastos pelo chão enlameado e frio e empedrado, se já estava a descortinar umas luzinhas ténues das janelas da aldeia e a torre branca da Igreja de S. Pedro de Penude!? Não era sonho, era mesmo verdade!

     Ei-lo na viagem para o outro lado da linha do horizonte parado. E já se faz luz. Há festa na terra dos homens. O Natal chegou. No casebre do homem pobre havia afinal um palácio encantado de riquezas! Havia muitas crianças com faces rosadas bem moldadas por um clima agreste mas felizes, naqueles olhinhos brilhantes. Havia presépio!Havia o Menino Jesus nas palhinhas deitado !  Era Natal na casa do homem poeta caçador de sonhos moldados em árvore de Natal! 

     E o pinheirinho bravo foi plantado ali mesmo juntinho ao menino Jesus, no bercinho em palhinhas deitadinho, no presépio da casa do homem bom. E como brilhava o pinheirinho: picotado de luzinhas multicolores, salpicado de flocos de farinha de milho fingindo neve, de  umas três prendinhas rodeado, dois fiozinhos prateados e um coro de meninos (filhos também do sonho) cantando: “ No dia de Natal, tudo é lindo não há mal, cai a neve no quintal, para passar o Pai-Natal...”.

     Eis agora o nosso pinheirinho bravo chegado á felicidade! A realidade do seu sonho. Ficou-lhe todavia uma certa mágoa de haver tantos outros pinheirinhos no mundo que também sonham mas que ainda estão tão longe de um porto real... Se houvesse mais homens solidários, com almas de poeta e comprassem todos esses sonhos!... E é preciso tão pouco para transformar tantos sonhos que por aí vão pelo mundo…se os homens quizessem! Basta dar a mão, dar uma oportunidade… aproveitá-la, como os fizeram (o pinheirinho e o seu poeta que lhe apontou a liberdade).

     Por fim, estejam atentos à mensagem do nosso pinheirinho: lutem, lutem sempre e acreditem na energia que brota das vossas raízes sólidas, pois um dia qualquer, sempre aparecerá alguém atento a dar a mão, cabendo, então aproveitar a oportunidade porque não tarda que o sonho aconteça mesmo!

Passal de Penude, Dezembro de 2009

 
Retrato de Beirão
Retrato de Beirão
por José P Lamelas

 

 

 

 Nem todos os penudenses se verão “encaixados” nesta moldura.

Mas vale sempre a pena ler este retrato de Beirão feito por Aqulino Ribeiro em “Arcas encoiradas”

(o resumo, aqui apresentado, é da responsabilidade de José Pereira Lamelas)

 Ficha antropológica do beirão: estatura média/alta, moreno, de cabeça e face sobre o comprido, mento saliente, prima entre outras qualidades pelo feitio positivo, constância e tenacidade. Tenaz, é de todos os atributos o que mais lhe convém. Esta virtude implica, além de génio operoso, firme querer. A sua vida exterior, fortuna, aventuras e heroísmos são, acima de tudo fruto da vontade.

Meditou ter água com que regar o seu quartel minúsculo de feijões, e vai com a mina pelo cerro dentro até sangrar a veia que lhe há-de encher a pocinha que no topo da fazenda dormita debaixo de merugens, ao som de duas rãs caturreiras, ou espelha um céu de iluminura. Saibra o morro para plantar dois bacelos. Sacha três vezes o centeio. Rega quatro vezes o milho. Debulha, vagem a vagem, a sua colheita de feijoal. No tempo dos ninhos passa a manhã à espreita dum casal de perdizes para lhe roubar os ovos. Percorre três, quatro aldeias com um pedaço de pão no estômago a bufarinhar a canastra de sardinha.

……………………………………………………………………………………………………………………

Testo à luta pela vida e em fazer vingar as suas paixões, não parece todavia que seja obstinado. Uma luz mais ou menos clara, mais ou menos bruxuleante, alumia a sua alma positiva: a luz do bom-senso. Resulta daí sentir a terra que pisa trazer pouco a cabeça nas nuvens. Chamem-lhe prosaico se quiserem. Entrincheirado nas suas opiniões que preza como um pecúlio do carácter, deixar-se-á, porém, desalojar sempre que lhe falem à razão. O minhoto consulta a sua Maria, o beirão os seus botões. Pus-me a considerar  - é expressão que se ouve a cada passo e que traduz o estado frequente do seu espírito inquieto e inquiridor. Certa inventivas suas fariam a delícia dum Twain. A esta faculdade denomina ele de manha. Se vira um pedra, se corta um pinheiro, a amansar a novilha a corrigir a balda da jerica, usará de manha, a boa e leal manha que o patrício João de Barros celebrava como virtude meritória nos conquistadores d Índia.

Na Beira existe diferença sensível entre a população da serra e a do vale. Esta é mais amena e amorável, humilde sem deixar de ser impulsiva e aventurosa para que der e vier; aquela, ferrenha em tudo, agreste parece menos imediata nos reflexos e mais circunspecta de entendimento. Com certeza que o serrano confinado em suas barrocas e corujeiras, esquecida do Estado que não seja para a tosquia tributária entregue aos individualismos que derivam inevitavelmente da inexpansão, é mais bárbaro, bronco, e indócil que o seu irmão da planície. Labroste tem contudo a altivez dos homens livres da tribo Quando fala ao fidalgo, não tira o chapéu. Em compensação, ao contrário daquele, por temperamento zombador e inconsiderado, tem horror figadal ao homem da lei, desde o guarda republicano ao juiz.

……………………………………………………………………………………………………………………

 Que um e outro são permeáveis ao progresso, mais do que por espírito de imitação, ressalta à luz da sua adaptabilidade e da sua experiência de migradores.

O beirão, embora não seja insensível ao desenraizamento, suporta facilmente novos climas, noves usos, nova vida. Volta à portela, depois dum banho de civilização. (…) Há alguma coisa a que liga suma importância: o crédito de que goza e os juízos que pode provocar. Conformar-se-á com tudo, os vários desaguisados da fortuna e dos homens, menos com a ideia de que o suponham susceptível de deixar fazer o ninho atrás da orelha. (…) Custa-lhe realmente que alimentem a seu respeito antecipações pejorativas. Achincalhes há-de varrê-los, ainda que lhe custe pena maior. O motejo não somente é superior à sua cordura como à sua compreensão. Fazerem pouco dele é afronta grave. E antes prefere ser lesado em seu interesse, do que ser diminuído em seu brio. Semelhantes reversos tornam-no odioso e vingativo. Nisto é visceralmente hispânico, bicho da meseta.

…………………………………………………………………………………………………………………………………

…Nunca poderá receber dedada que o amolgue. Como tem em grande conta o apreço que merece ao semelhante, não queda refractário à lisonja e, no geral, à cortesia. Mas, ainda que ufano, está muito longe de ser vaidoso.

Que é rotineiro... ? Nada mais compreensível tê-lo sido, haja em vista a sua forte personalidade. Mas, pois que não é escasso de inteligência, vai-se afeiçoando à lei nova, à moeda nova, ao utensílio novo. Já trocou a panela de barro pelo pote de ferro o arado de pau pela charrua, o mangual pela malhadeira mecânica, a água de flor de sabugueiro pelo borato de soda.

……………………………………………………………………………………………………………………..

Triste, de modo geral, não parece que o português o seja. O beirão muito menos. (…) O minhoto é uma cigarra a cantar; o trasmontano activo e impaciente; o beirão vivaz e maleável.

……………………………………………………………………………………………………………………..

A tristeza (…) combate-se comendo bem, bebendo melhor, e não tendo inveja do próximo. Neste particular, pouco há que dizer quanto à Beira. Vinho, pero e pão põem contente o beirão.

 O Beirão é religioso, mas duma religiosidade mais litúrgica do que interior, proselitista porque sempre gostou de ver os outros professar o seu credo, mas raramente eivada de fanatismo. A religiosidade existe nele como uma espécie de pigmentação; é assim porque nasceu assim. Mais devoto na planície do que na serra, nunca em seus transportes se erguerá  em asas místicas para o além. O além está fora da sua geografia ideal. Encara o Céu como uma horta que exige certos cuidados e muito tino se se quer ter a panela suprida.

……………………………………………………………………………………………………………………..

A superstição religiosa do beirão é como os cogumelos que se desenvolvem ao toro das velhas árvores plantadas em terrenos simples. São grandes, gelatinosos, mas nada peçonhentos.

……………………………………………………………………………………………………………………..

A vida social da província acabará por ficar reduzida a cerimónias de igreja. Qualquer prática profana ressuma hoje água-benta. (…) Em votos, romarias e arraiais espraia o instinto tiranizaste de sociabilidade e confraternização. (…) Quem dissociasse no beirão o religioso do social, ficaria inabilitado para lhe penetrar na índole e em certos arcanos do entendimento.

…………………………………………………………………………………………………………………….

A razão porque talvez o beirão preleve mais portugueses em sociabilidade é possivelmente por ninguém ser tão adaptável como ele. Ele vai, faz amigos que deixa a chorar; por seu ânimo dado e empreendedor, seu optimismo saudável é  perna para todas as tripeças e pedra basilar das mais inimagináveis tertúlias.

Dotado de coração paciente, prenda com que raramente os deuses brindam os humanos…, é discutível que seja mais sofredor que sofrido. Se está em jogo a dignidade ou o que julga o seu direito, ei-lo assanhado, não sendo necessário invocar os Magriços de lendária memória para se saber que é corajoso, como atestam as arruaças por mercados e arraiais. Mas a tal candeia que nunca se apaga em sua consciência coíbe-o de chegar às do cabo, temido da justiça local que, já o notou, oprime o pobre e é indulgente com o rico. O beirão aborrece ainda, como peste, o serviço militar obrigatório. Está persuadido que leva à guerra donde se não volta, consoante era de norma nas expedições ao Oriente.

 Em despeito de fértil imaginativa, afigura-se-nos o beirão pouco propenso à arte. Com efeito, em coisas do ramerrão quotidiano, no arranjo caseiro, na utensilagem da lavoira, na oficina, presta maior cesto à utilidade do que à beleza. Para o lavrador na chã, como para o jornaleiro no quintalinho, a preocupação capital consiste em extrair do solo quanto possa dar. O terreno é agenciado de modo que se não perca um palmo em camalhões, cabeceiras carreiros, desafogos. Quão longe estamos do escravo da terra, o saloio, que a cultiva com o esmero e aparato de seu nobre avô, o moiro! A horta deste era um jardim riscado a cordel, com arabescos e mosaicos para regalo dos olhos.

Compreende-se. Tanto o beirão da boa estirpe como o beirão da aba sul da província, denominado ratinho, regam a terra com o suor do rosto e em seu labor ímprobo não compartem do desenfado com que se satisfazem sem sacrifício os caprichos das amantes. O saloio, de modo geral, o homem da várzea meridional, agricultando um solo rico, será instintivamente um jardineiro; o beirão a contas  com a camada de barro ou marga, para que nomes expressivos: barrosela, oazzeiza, courela neiro, nunca passará dum ilota.

Ainda no quintalejo da planície, mormente na casa há mocinha louçã, ver-se-á luzir a de Alexandria, a dália, o crisântemo bastardo, o nome de despedidas do verão; na horta ser além da couve galega, do cebolinho, dos colondros quando muito medram a alosna, o aipo, a arruda, o alecrim, a alfazema, que entram no condimento das mezinhas com que é vezo seu ou era da sua medicar-se. Mas se a árvore de fruto está na do meio da leira porque a sombra prejudica ao cultivo, com razão dobrada não entra ali planta viva apenas para mimo dos olhos. Ama a terra amor entranhadamente egoísta e a ferocidade lobo insatisfeito. Não lhe toquem no talhadoiro águas; cuidado, a charrua do vizinho não desvie o marco um centímetro para a banda; que a cabra pobre não lhe roa as duas fêveras que se inclinam para o baldio; sem licença não pisem o que é e paga boa décima ao «cães da Fazenda»! É idolatria absurda, mas que não o leva a alinda idolatrada. Se rebenta a tiros de pólvora bomardeira o penedo que se ergue a meio da courela, é por mais nada senão porque no espaço que vai ganhar pode plantar meia dúzia de pés de milho. Talvez no fundo desta paixão, deste apego cego e insensato, mais que um sagrado e supersticioso respeito pela terra, que lhe foi berço e há-de ser tumba, não espreite mais que a fome ancestral do mal-herdado.

 
Top