Os almocreves eram
pessoas que conduziam
animais de carga e/ou
mercadorias de uma terra
para outra, durante a Idade
Média e até tempos bem
recentes - meados do século
XX.
Numa época de comunicações
limitadas, os almocreves
eram essenciais como agentes
de comunicação
inter-comunitária (além de
serem indispensáveis ao
abastecimento de bens às
aldeias, vilas e cidades).
De entre as rotas de
abastecimento mais
importantes, destaque para
as que levavam os almocreves
a transportar peixe do
litoral para o interior e,
no sentido inverso, cereais.
No tempo
dos Almocreves
Isidro Lamelas
Nos tempos em que ainda não havia estrada que
permitisse a circulação automóvel, os almocreves e
carvoeiros eram uma presença constante e fundamental na vida
e economia das gentes de Penude. Eram eles que, percorrendo
as vias mais trilhadas, transportavam todo o tipo de
produtos que os lavradores não produziam. Regularmente
percorriam a mesma rota, da serra da Gralheira até Lamego.
Em Penude, carregavam duas montadas de batatas ou algum
presunto que vendiam na Paiva e, de volta, traziam milho,
azeite, vinho, mercearia. Tudo isto era transportado em
odres ou sacos que carregavam no dorso das mulas.
Todo este movimento justificava a existência de uma
albergaria onde pudessem pernoitar e acolher as bestas.
Muitas histórias contavam estes almocreves que eram uma
espécie de semanários que traziam novidades de outras
paragens. À importância económica desempenhada por estes
mercadores itinerantes junta-se o papel primordial que
assumiam enquanto elementos de ligação inter-comunitários.
De facto, não eram só mercadorias que os almocreves levavam.
Com eles iam também as notícias de freguesia para freguesia,
do campo para a cidade, e da cidade para o campo. Quem ia
casar com quem, quem comprou o quê, quem vendeu o quê, quem
é o novo pároco de sítio tal, se as colheitas para lá da
serra prometem, se há perigo de guerra, etc etc...
Muitas vezes ao almocreves de Penude eram surpreendidos na
serra pelo cair da noite, no meio de terríveis tempestades
de chuva e neve, com o ribombar dos trovões a fazerem
alternância ao uivar dos lobos. Na escuridão, que só os
relâmpagos quebravam aqui e além, era impossível seguir o
invisível carreiro que os devia conduzir a porto seguro, às
povoações, onde os esperavam os seus clientes. Embrenhados
em densos nevoeiros e fustigados por fortes ventanias,
quantas vezes se perderam, caminhando sem rumo e à mercê do
destino.
Muitas histórias contavam estes viandantes de Penude que se
aventuravam até à Serra da Grelheira, com seus burros ou
mulas carregados de milho ou batata. Muitas vezes perdiam-se
na serra, reorientando-se aqui e além pelo cintilar da luz
de uma candeia à janela e lá eram acolhidos no palheiro ou
na casa de alguém mais hospitaleiro.
O último almocreve (carvoeiro) de Penude foi o tio Joaquim
Maravilhas, de Penude, que andou nessa vida enquanto as
forças lho permitiram. Jumenta ruça à frente, carregada com
três sacas de carvão, que quase lhe encobriam as orelhas, e
Joaquim Maravilhas atrás, com meia saca às costas e tamancos
ferrados a guilhos nos pés, que faziam grande ruído no
lajedo do caminho, em alternância ou sincronia com as
ferraduras da ruça. Durante muitos anos, esta imagem fez
parte do cenário da nossa terra e arredores. Da serra de
Grelheira à Lapa, calcorreava os árduos caminhos com a mesma
regularidade e paciência que intempérie alguma demovia.
Homem e burra faziam parte da paisagem serrana e era
frequente ver-se a sua silhueta projectada no horizonte, nos
cerros da Costa Lapa. Joaquim Maravilhas era figura típica
da região do Paiva e de toda a serra. O carvão era
transportado do Perneval e das Levadas para Lamego. Com a
sua morte, desapareceram os carvoeiros. Em meados do século
XX também os almocreves desapareceram definitivamente.
Começo por recordar Fernando Pessoa: “tudo vale a pena se a
alma não é pequena”.
Com o nascimento do website da nossa
querida terra,
www.penude.net,
cujos autores quero distinguir e agradecer, torna-se um imperativo
para todos nós, residentes ou na diáspora, participar e contribuir
activamente com os nossos modestos recursos, para dar a conhecer e a
divulgar a todos os cibernautas a terra que nos viu nascer.
Apesar do pouco engenho e arte para a escrita, no entanto,
queria partilhar com todos os leitores o tema que titula esta minha
crónica, de uma forma simples, abrindo espaço à participação de
todos os que amam e estimam as nossas raízes. Todos somos poucos
para engrandecer e homenagear a nossa terra natal.
Bem sabemos que a nossa memória é curta e limitada, ainda
mais quando estamos “ausentes” desde a nossa adolescência. Todavia,
quero aproveitar esta minha modesta contribuição para dizer que
“recordar é viver”.
Vivia-se ainda o rescaldo da 2ª guerra mundial quando vi
pela 1ª vez a luz do dia, numa manhã primaveril. Não havia centros
de saúde, planeamento familiar, assistência na gravidez e pós-parto,
abono de família, subsídios de nascimento, aleitação, creches,
infantários, apenas a escola primária nos esperava quando
perfazíamos os 7 anos.
Sem qualquer protecção social, assistência médica ou
reforma … a população sobrevivia do cultivo da batata, do milho, do
trigo, do centeio e da cevada, com a criação de algumas cabeças de
gado bovino, caprino e suíno, que com a sua carne, leite e força,
auxiliavam no rendimento e desempenho na lavoura. Quem não se
recorda do queijo e leite fresco que as mulheres “leiteiras”
transportavam em cântaros à cabeça até à cidade de Lamego? E a carne
de porco e os seus derivados, como o “fumeiro” e presunto?...
Era assim que o “lavrador” fazia face às dificuldades da
vida do campo que trabalhava de “sol a sol”, sem descanso, sem
ajudas, sem subsídios, sem seguros, enfim, vivendo à sua sorte.
Através das sementeiras, os campos começavam a ficar com as cores
verdejantes na Primavera, anunciando o início das colheitas da
batata e dos cereais, quando o cenário mudava para as cores castanha
e dourada. Com a enxada e a foice, fazia-se, respectivamente, a
“arranca” do precioso tubérculo e a “segada” dos cereais. Seguia-se
a “malhada” nas eiras com o mangual, antecessor da
malhadeira que, tal como o arado e a charrua no amanhar das
terras, veio contribuir para uma melhor qualidade de vida do
agricultor.Já no final do Verão início do Outono,
assistia-se à deslocação a pé e em espírito festivo das chamadas
“rogas” (grupo de homens e mulheres das aldeias), para as quintas do
Alto Douro, onde se fazia a apanha das uvas, que iriam dar origem ao
famoso “vinho do Douro”, hoje, património mundial. Era uma forma de
amenizar as dificuldades de emprego e trabalho desta gente humilde
mas laboriosa
Retenho ainda as imagens coloridas da minha aldeia com as
suas casas de pedra, anualmente, caiadas de branco para receber a
visita pascal. Revivo com profunda nostalgia os tempos outonais em
que percorríamos as leiras, cobertas de giestas e piornas e
nos pinheirais, à procura de cogumelos (gasalhos e sanchas) e, no
Inverno, sob o manto branco da neve, as armadilhas aos pássaros. Na
Primavera, era a caça aos ninhos de melros, pardais e mochos no meio
das fragas. No Verão, aproveitávamos para fazer praia fluvial nas “Poldras”
ou nos “Depósitos”, ou ajudávamos os mais velhos a pescar
trutas… enquanto as mulheres se dedicavam à lavagem da roupa nas
águas do rio Balsemão. Recordo os jogos tradicionais da choca, da
malha, do pião, do pino e tantos outros que ocupavam os nossos
tempos livres.
Da nossa memória colectiva, não posso deixar de realçar que
até 1965 não havia electricidade. Com a chegada da noite, havia que
acender as candeias de azeite ou o candeeiro a
petróleo, não raras vezes geradores de incêndios trágicos. O gás de
cozinha ainda era uma miragem, sendo o seu predecessor a lenha
seca das giestas, o cisco dos pinheiros e as achas das “piornas” que
nos aquecia à lareira, onde se rezava o terço, após a ceia. A água
tão saborosa, fresca no verão e quente no inverno, era transportada
em cântaros à cabeça desde a fonte que ainda hoje resiste ao tempo.
O stress não fazia parte do nosso dicionário. Valia-nos a “bondade”
da natureza, a alimentação “biológica”, o ar puro e a solidariedade
das nossas gentes. Vivia-se em ambiente familiar, em espírito
comunitário.
Foi neste quadro cultural, económico, educativo e social
que vivi a minha infância até à conclusão dos estudos primários. Em
1959, deixei-me seduzir pelo ideal franciscano e com 11 anos, rumei
em direcção a Leiria, onde ingressei no Colégio da Portela.
Prossegui os meus estudos em Montariol, Varatojo e Luz, até que
aos 22 anos optei por regressar à vida secular, confirmando que
“muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos”. No entanto,
quero deixar o meu agradecimento a todos aqueles que contribuíram
para a minha formação, sem os quais, certamente, não estaria aqui e
agora a dar este singelo testemunho.
Está em fase de construção o novo Centro Social. Diria a
este propósito que “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, é certo,
mas temos de reconhecer que há muito tempo a nossa população devia
beneficiar deste espaço cívico e social. As suas gentes bem o
merecem. Defendo que se deve dar mais a quem tem menos para
que as desigualdades e assimetrias sociais e económicas sejam cada
vez menores, para que todos tenham as mesmas oportunidades.
Infelizmente, Penude assenta num vale cujo solo é parco em recursos
naturais, onde existe uma agricultura de subsistência, não há
comércio e muito menos indústria ou serviços suficientes para dar
trabalho a tantos que foram obrigados a emigrar/imigrar. Se essa
força de trabalho ou mão-de-obra fosse residente, estou certo que
teria contribuído definitivamente para alterar o quadro de
subdesenvolvimento que ainda se vive na nossa freguesia. Há que
investir no capital humano para evitar que o envelhecimento e a
desertificação se acentue ainda mais. Ainda vamos a tempo?!
Desde esta “pérola do atlântico”, olhando à distância de
1300 quilómetros, auguro as maiores felicidades a todos os meus
conterrâneos, onde quer que se encontrem, e o maior desenvolvimento
e progresso para a nossa querida terra natal, Penude. Porque, apesar
de tudo o que ficou dito e omisso, reafirmo que “valeu a pena ter
nascido onde nasci…”
Ler alguns dos nossos bons escritores, permite uma descida ao húmus,
ao chão de muitas das nossas raízes.
Aconteceu há dias, numa página magnífica de Raul Brandão. Fui
surpreendido pelo vocábulo “o chincharrabelho” (sic). Estanquei e
estremeci.
Quando eu era miúdo, quando aprendia as primeiras
letras, conhecia os pássaros dos sítios da minha infância. Havia
também o chincharrabelho.
Vagamente me lembro que era um passarito muito irrequieto. Era uma
das nossas referências de rapazes à cata de ninhos. Eu e os meus
amigos dizíamos: “Sei dum ninho de chincharrabelho!”
Ao deixar a meninice e os seus territórios, perdi o chincharrabelho
nas funduras do esquecimento. Foi Raul Brandão quem me trouxe à luz
da memória este passarito e o vocábulo que tão apropriadamente o
denomina.
Como eu gostaria de rever o chincharrabelho. Que é feito
do chincharrabelho? Desapareceu? Ou já ninguém o reconhece e
distingue das outras aves?
O “Grande Dicionário de Língua Portuguesa” de Cândido
Figueiredo deu-me este retrato:
Chincharravelho, s. m. Pássaro dentirrostro, mejengar.
2. s. m. Traquinas.
Quem me descobre e devolve o chincharrabelho?
N.
B.
– Presumo que a passarinha do chincharrabelho se chama
chincharrabelha.
(30/0709 ) - J.
Alberto de Oliveira
AS CONVERSAS
SÃO COMO AS CEREJAS - Manuel Dória Vilar
Já lá diz o ditado que as
conversas são como as cerejas....aguçam o apetite até ao
fundo do cesto...
E vem a propósito do texto do J. Alberto de Oliveira sobre o
chincharrabelho e a questão de alguns nomes de aves de
origem
onomatopeica caso em que
este se insere.
Investiguei e
aqui está um pequeno contributo
para o conhecimento do célebre
passarinho "
Cachapim ",
Chapim " ou "
Chincharrabelho "
30/0709 - Manuel Dória Vilar
MÃE TERRA - J. Filipe P. Lamelas
A propósito deste nosso sítio que o meu irmão José briosamente potenciou aos penudenses que por aí possam existir, ainda capazes de encontrar sentido nas coisas originárias (as únicas que o faro da alma nos faz criar brilhozinho nos olhos, por serem simples e primeiras) lembrei-me de nele entrar e dizer algo que me fosse na alma… Mas para falar de quê, meus amigos?!
Responderão vocês:
- “Da nossa terra, ora!”
Ora aí temos uma boa resposta para a minha primeira entrada no “site Penude - Lamego”: falar da terra.
Reparem na força desta palavra, terra! Já alguma vez alguém vos perguntou qual é o vosso local de nascimento? Ou o concelho de nascimento? Ou freguesia de nascimento? Ou mesmo a casa de nascimento? Ninguém, quase que juro pelas alminhas dos que lá tenho! Mas perguntar a alguém qual é a sua terra é coisa que toda a gente faz.
Portanto, somos todos de uma terra. Da terra da nossa terra. Duma qualquer terra onde todos nascemos e para a terra voltamos que pode não ser “a nossa terra” mas é sempre terra.
Vejam a força criadora e maternal desta palavra “terra”, que ninguém ousa perguntar doutra maneira sobre o sítio do ninho donde saltou um dia para a diáspora infinita da vida que a cada um coube!
A terra é o húmus fértil por onde o arado de Deus sulcou a vida dos homens e das mulheres e outros entes deste universos sumamente belo …enquanto todos nós quisermos!
Tenho, assim, a minha terra como tudo o que respira tem. E dizemos “qual é a tua terra?”, com a mesma felicidade com que dizemos “qual é a nossa mãe”. São duas expressões absolutamente únicas, irrepetíveis, e, mais que isso: são sagradas. Ouvir falar mal da nossa terra custa! Como doloroso é que molestem nossa mãe!
E portanto, é ponto assente que minha terra é Penudo, termo que sabendo a rude (penedos e penedias) tem o outro lado da coisa (a dureza eterna granítica, com sabor a lealdade do antes partir que torcer, dos homens da Beira Alta, do forte e fundo Douro e Trás-os-Montes).
Por ali andei por aqueles caminhos e carreiros térreos, ora caminhando ora descaminhando pelas costelas (na altura lindamente verdes) da serra das Meadas que preguiçosamente desagua na lendária cidade de Lamego. Encostada a essa serrania apinhada de suor sangue e pranto dos nossos antepassados, ali está Penude, a minha terra. Ali dei os primeiros passos antes de saltar do ninho. Ali cresci em grande prol mas também com outros bravos pássaros: na escola de Sucres, na capela do Outeiro, da Matancinha, fiz bessadas e arrancas, segadas e malhadas, embelguei e empalhei, “deitei poças nas lameiras”, e ao moinho à taleiga, pus o apeiro nas “bacas” (jungui-as como podia, algumas ainda nobelas), ida à Coira roçar tojo, apanhar semente de giesta, ao cornelho nos centeios, aos ninhos no Maio-moço (de carriça, ou corcalhé, melro ou xinxarrabelho, falosa e mesmo de cuco catei com ovos no ninho alheio), à missa aos primeiros sábados ou primeiras sextas feiras, segunda à missa das almas, e muito cuidado a ter com o “fogo real no monte”, ou o rádio uivando à noite em casa (num roído infernal) dando notícias da guerra da Angola, Guiné e outros medos (ai os “turras que nos matam”!), e da festa do carneiro (S. Pedro, e do “Iteiro”), e os jogos do pião (e piusgas saltaricas), tiroliro e “espeta-pau”, “stoira-balas” e ferrinhos, patela e bola de trapos, e de tanto anjinho finado que a pequenada levava em grupo o caixãozinho, atrás do Senhor Abade (magestoso Pe. Borges), e as guerras dos “talhadoiros” (no verão a falta de água punha tudo à berdoada entre os batatais embelgados!) a ida à doitrina à Igreja (pr`á primeira comunhão, solene, à crisma ou desobriga), militância na cruzada (marchar em volta da Igreja ao som dum hino de mover montanhas “Mocidade em flor abante abante, Jesus cansa de tanto nos chamar, cerrar fileiras com Jesus à frente, contra o demónio marchar marchar”, isto, sem dó nem piedade meus Senhores!).
No meio desta contenda de ideais que nos fervilhava as veias, o Estado embrutecido de ignorância e fome infame, aqui e ali havia uma grafonola de abissais bobinas e guelas esganiçadas nas casas mais abastas saltando a voz da deusa do fado (Amália dos “são os caracóis são caracolitos” e outras vozes menores) ou de uns ranchos falclóricos cantando o “Manuel da Rola”.
Tempos em que o relógio era de sol, em que o Professor era Senhor Professor, o Padre Senhor Abade, a polícia Guarda Fiscal, o médico Senhor Doutor, o da rabiça do arado o Lavrador ( com direito a ser o primeiro no garrafão e bucha, merenda jantar e almoço) se pedia a “bençopai e à mãe” e se rezava “ò meidia” e as três ave-marias à noite ao entardecer, se rezava o terço em casa (o meu pai ainda reza), e quando se encontrava alguém no caminho “o Senhor nos dê bons dias” e se levava o garrafão!...
Este húmus que me deu o ADN para sulcar o meu futuro e demais à minha volta teve actores de renome que orgulhosamente nomeio, numa lista infindável e que aqui exemplifico: minha mãe Rosa Alves Pereira e o pai Jaime da Pinha (meu referencial eterno, de ex. libris Lamelas) os meus os tios da Matancinha, Pereira, Matança, Arneiros e Residência dos avós, e essa figura imponente que marcou gerações inteiras (nem sempre nos termos certos bem sei, mas que se entregou todinho, do norte ao sul de Penude, pela causa da paróquia, agora ingratamente esquecido), o Padre Manuel Rodrigues Borges, homem de quatro costados, que vestido de batina parecia a torre de menagem do castelo de Lamego, onde tantos eram os botões em fila que nunca consegui contar, encimados num cabeção branco que de aureola de santinho nada tinha mas de diabo vos garanto que também não Senhor!
E havia mais actores, neste teatro de outro mundo (com muitos demónios e Deus, limbo inferno e purgatório) nada menos secundários. Grandes valentes actores, alguns heróis a valer (epícuros à sua maneira!) que dignamente venceram e convenceram pelas suas vidas fora: o Alcides, Gil, Arcílio e Altino da Progaçal. Leonel (Pe. Leonel, o melhor aluno da nossa escola em Sucres), o Avelino (Pe. Avelino Maravilha no nome e no ser); o Aníbal Carola, e tantos, tantos outros colegas, de Quintela, Grandal, Bairral e Sucres e outras terrinhas ali, que por aí andam valentes, fintando a vida que nem o Ronaldo da bola, hoje pais e mães de família e que rarissimamente revejo!
Foi nesta terra que estas sementes germinaram, cresceram em flor e fruto, do nada ou quase nada se fazendo homens de quatro costados. Desta terra tantos saíram na aventura do pão (nosso de cada dia e outros pães que a alma gosta) mas que permanentemente olha de soslaio e lagrimazinha nos olhos para o seu torrão natal, com vontade de voltar ou visitar quando dá…
É neste sentido de regresso, que este “site” tem sentido (entre tantos fins possíveis se a boa vontade quiser). O presente é pouco mais que a soma do passado. Esquecer a nossa memória é ignorarmos quem somos. E se não sabemos quem somos não nos poderemos identificar perante o vizinho ao nosso lado, doutras terras...
Gostava que este sítio fosse uma oportunidade de tentarmos todos identificar quem é afinal este imenso planalto, sentado no colo das Meadas.
A nossa memória colectiva está quase por um fio! É hora dos homens bons, de boa vontade e gesta, filhos legítimos da terra de Penude que o site pode libertar. Espaço também dos demais amigos vizinhos, das terras que nos circundam que falando a mesma linguagem, possam entender e reviver o passado donde vimos para perspectivar o futuro com sentido para a vida.
E isto não custa nada, basta dizermos o que pensamos, de boa-fé opinar (escrevendo, fotografia ou pintura), tudo valendo se o lema for construir ou reconstruir o que somos como povo de Penude que nesta aldeia global quer exercer também o seu direito à diferença (que é o elixir da vida).
Toda a existência humana se desenrola num complexo de relações de comunhão, o mesmo é dizer de comunicação simbólica. Todo o símbolo constitui um núcleo de referências que derivam e, ao mesmo tempo, condicionam a cultura de um povo. Há, no entanto, símbolos que exprimem de tal modo a comunhão do homem com a realidade suma da sua essência íntima que se podem definir verdadeiros sacramentais da vida. Tal é o caso do pão, entendido na substancialidade vital, mas também na sua elementar realidade de alimento quotidiano que, no passado das gentes de Penude, era ainda mais essencial que hoje. É, de facto, desse pão do nosso povo que eu queria falar; desse pão das searas e das eiras, das gamelas e das gigas, desse pão com côdea dura como os calos das mãos que o cultivaram; desse “pão nosso” bendito sempre à mão nas nossas casas, em que se ralhava por mil e uma razões. O pão: nenhum outro alimento aproximava tanto os céus e a terra, Deus e os homens, mesmo quando, por causa dele havia guerras; mesmo quando por outras causas e cousas, como os marcos e os talhadouros, os vizinhos deixavam de partilhar o frumento ou emprestar uma broa. Nada como o pão nos traz à memória tempos e hábitos pretéritos em que cada fatia era aspergida com o suor de rostos saciados na seara da justiça. Como não recordar os gestos sagrados da liturgia das colheitas, os rituais do amassar e cozer o pão, onde o diabo não ousava meter mão; e nos altares pouco profanos de cada teto, nem faltava o incenso que subia ao céu de entre as escura telhas, qual perfume de uma oferta verdadeiramente agradável e Deus e aos vizinhos. Como não recordar esses tempos em que o pão era o elemento à volta do qual decorria a vida comunitária e o ritmo hebdomadário do fadairo da dura vida das gentes penudenses? Como não lembrar esse passado (que nos parece já tão remoto) em que o tempo era ainda de graça e as ceifeiras iam “de troca” encher os campos de vida e das melodias que o sol de verão inspirava. Como não evocar esse ritual quase sagrado de comunhão do frumento comunitário que passava de vizinho em vizinho, consolidando mais os elos de proximidade do que os sermões dominicais do Pe. Borges, sempre tão eloquente nas palavras como no mau feitio? Quem não recorda esses costumes rudes como os penedos dos nossos montes: a eira religiosamente preparada com a melhor bosta de vaca que semanas antes se ia recolhendo e conservando para preparar o eficaz tapete em que seriam recolhidas e malhadas as gordas espigas de trigo ou centeigo; mas a relação entre o pão e a bovina bosta não ficava por aqui, pois esta -sabe-se lá porquê?- era ainda usada para “tapar o forno”. O facto é que, no tempo em que ainda não tinham inventado o fundamentalismo da ASAI, o método era bem eficaz e, tirando o inconveniente de nem sempre cheirar só a pão, não consta que alguém tenha sofrido com tal associação de extremos. Nesse tempo o “pão de cada dia” era duro como a semana de trabalho, mas parecia que mantinha a frescura dos sete dias da criação, quando o Pai Eterno teve a feliz ideia de inventar o dia santo que a Santa Igreja mandava guardar. Era o pão sem prazo de validade, para saborear até ao último naco, na calmia de cada lar e à lareira, quando ainda não se sonhava com a fast food; quando os “fins de semana” ainda não eram de fuga, mas de encontro. Nesse outrora da nossa grata memória, o tempo era conforme Deus o dava, e nem o burrico, guiado pelo paciente moleiro parecia muito empenhado em fazer-se caro. Lá ia de povo em povo a recolher as taleigas do grão que regressava, na semana seguinte, se o rio levasse água, transformado na cândida e preciosa farinha. Nesse tempo, havia, de facto, tempo para tudo: tempo para semear e tempo para colher, tempo para saciar e tempo para jejuar, tempo para dar e tempo para receber. Mas o "pão de cada dia", era a razão de ser dos suores e lágrimas de homens e mulheres que, tantas vezes, até se esqueciam de amar para que esse nunca viesse a faltar. Era o tempo em que o pão era por Deus e só as aves do céu se atreviam a colher em ceara alheia o justo preço pelo seu gratuito canto com que suavizavam as asperezas duma vida toda ela oblação. Era lindo ver os campos de trigo exibindo-se em danças orquestradas pelo vento e o futuro pão ainda exposto nas douradas espigas que, como custódias, elevavam um laus perene à liberalidade do “Senhor da messe”. E quando chegava o tempo de ceifar, começava a grande “eucaristia”: cânticos de júbilo acompanhavam as ceitoiras que, como arcos de violino, pareciam ensaiadas pelo mesmo maestro. Primeiro em paveias, depois em molhos, depois em caxochos ou em rolheiros, até, finalmente ser acarretado para as medas que se erguiam na eira, mais altas que as torres do Iteiro: era este o caminho seguido por milhões de espigas mortas por darem à luz muito grão. Uma vez na eira, preparava-se o sacrifício: a eira comum transformava-se então no palco sagrado do apoteótico dar à luz do “fruto da terra e do trabalho do homem”. Neste espaço e tempo, o sagrado e o profano fundiam-se, o suor e as lágrimas eram de alegria, e as merendas, embora sempre iguais, tinham um sabor único. Quando recordamos esses tempos e modos de vida das nossas gentes que nestas terras áridas e destemperadas se viram obrigados a fazer das pedras pão, apetecia-me erguer-lhes um monumento bem merecido. Como a nossa terra não é muito dada a memoriais, continuo a recordar os nossos ancestrais cada vez que saboreio uma boa côdea de pão.