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FR. J. LAMELAS

UM PENUDENSE DO OUTRO MUNDO!

50 ANOS AO SERVIÇO DAS MISSÕES EM MOÇAMBIQUE

 

 

 

 

 

 

Seu espírito deixou o corpo e voou às 14 horas do dia 4 de Novembro de 2010

 

Ainda há algumas secções do nosso site por inaugurar. Esta era uma delas.

Já tinha tentado fazê-lo a propósito da morte de uma venerável senhora nossa conterrânea, por ser ela a a última testemunha directa e íntima do “Cisma de Penude”. Tal não foi possível, por falta de informação mínima que procuramos, pedimos, mas infelizmente não conseguimos.

Minha gente de Penude, quem seria mais indicado do que o FR. J. LAMELAS para inaugurar esta secção? 

Para mim África sempre teve e tem uma magia que eu tenho dificuldade explicar, racionalizar. Simplesmente sinto isso. E se tivesse ingressado definitivamente na Ordem Franciscana, seria para lá que eu me encaminharia, também.

Em 2000, acompanhei o Fr. Isidro numa sua missão em Moçambique e lá passei uns 15 dias de férias. As emoções foram tantas que chorei em vários circunstâncias e lugares. A tal ponto que, a partir de então passei todas as minhas férias em Moçambique, até 2007. E quem era o meu mentor? O meu grande primo FR. LAMELAS. Foi ele que me “inspirou” aos 8/9 anos. Foi ele que me abriu os olhos para Moçambique e para a obra dos Franciscanos em Moçambique.

Na manhã do dia 4/11/2010 fui informado pelo Fr. Isidro Lamelas de que ele estava “nas últimas”. Deixei tudo e curri porque ainda o queria ver vivo e acompanhá-lo na hora única e sagrada. Consegui. Reagia, mas não falava. Parecia que ainda estava para durar. Mas, pouco depois, o Fr. Melícias informou-me do falecimento. Como eu fique por não ter ficado a vê-lo partir! No dia seguinte, nas exéquias, senti as emoções de quem perde um irmão e chorei, chorei de saudade.

Ele era uma pessoa amorosa, excepcional. Ele foi uma lição de modo de estar na vida. Permanece como uma referência.

JPLam

 

Seguidamente, apresento um resumo adaptado do texto que o seu confrade Fr. Isidro Lamelas publicou no blog deste site.

Missão cumprida.

Há vidas que se exprimem num currículo ou em livros publicados, há homens que deixam obra celebrada em estátuas ou placas celebrativas, há percursos de vida que se reconhecem em homenagens ou medalhas; e há homens que passam por esta vida sem currículo nem prémios, porque a sua vida se esconde totalmente por detrás de uma missão. Há pessoas que dão nome e tornam célebres as terras ou aldeias donde provêm, e há homens que «deixam a sua terra, sua família e a casa de seus pais» para descobrir e ajudar a construir outros mundos. Frei Joaquim Rodrigues Lamelas é um destes homens cuja vida se identifica com uma opção de vida, melhor dizendo, com uma missão toda ela em benefício do próximo.

Nem sempre a história dos que partem se deixa escrever ou comemorar. Alguns deixam de tal modo tudo que não fica qualquer rasto nos “arquivos mortos”, mas fica a sua marca forte nos arquivos vivos da memória e dos corações de muitos. No caso do Frei Lamelas (era assim que ele era tratado pelos amigos de aquém e além-mar), os documentos que falam por si, são os factos da sua vida e as “pedras vivas” que, mormente na Igreja e povo de Moçambique, serão sempre o seu melhor memorial.

De Penude para outros mundos:

Natural de Penude (Lamego), onde nasceu em 1924, entrou no Noviciado dos Franciscanos, em 15 de Agosto de 1948, dia em que na sua terra natal se celebra com popular alegria e solenidade a Senhora do Rosário. Professou temporariamente a 16 de Agosto de 1949. Bastou pouco tempo de experiência para convencer o próprio e seus formadores das suas muitas qualidades, virtudes e consistentes convicções. O que o levou, no dia 24 de Agosto de 1952, a abraçar definitivamente a vida franciscana, acalentando, desde logo o sonho de poder partir para as Missões. E, de facto, partiu para Moçambique logo a seguir, onde chegou no dia 8 de Fevereiro de 1952. Coube-lhe como primeiro campo de trabalho a missão de Mavila, onde apenas residiu por um ano, pois logo o chamaram para outro lugar onde a sua presença era mais urgente. No dia 2 de Dezembro transitou para a missão de Chumbana e, alguns meses depois, já estava na missão de Homoíne. Aqui trabalhou durante 6 anos. A 16 de Dezembro de 1962 regressou à missão de Mavila, onde trabalho até 1967, data em que, mais uma vez aceita partir para Inharrime. Só neste ano, isto é, 15 anos depois da sua partida, regressa a Portugal, para gozar um merecido descanso. Uma vez regressado a Moçambique, foi destinado à missão de Panda, onde chegou a 23 de Janeiro de 1968. Dois anos depois, volta à missão de Inharrime e, dois anos mais tarde, passou a residir na paróquia da Polana, em Maputo. Aí permaneceu até 2002, ano em que aceitou ir servir uma outra comunidade, desta vez em Inhambane, onde trabalhou os últimos anos da sua experiência missionária.

Aos 80 anos de idade (depois de 50 anos ao serviço das pessoas de Moçambique), percebeu que era a hora de interromper a sua missão por terras de África. Despediu-se então dos seus irmãos e amigos moçambicanos que o tinham como um dos “seus”.

Recordo pessoalmente a serenidade com que então disse adeus a tantos amigos e à terra que tinha como sua segunda pátria: «Vou com a consciência tranquila, agradecido a Deus e aos irmão, certo de que em todos estes anos de missão e o que fiz foi sempre e só com os olhos postos em Deus e procurando fazer o melhor que sabia». Nestas palavras simples está resumida a vida e vocação deste homem bom que um dia partiu das rudes terras de Penude não para ser alguém, mas para que muitos fossem alguém. Depois de uma vida a trabalhar só para os outros, regressou sem bagagem nem cerimoniais de despedida ou reconhecimentos oficiais. Não porque a gente assim o quisesse, mas porque ele assim o quis. A sua riqueza ficava toda ali, naquelas gentes, naquela Igreja, nas novas esperanças de uma comunidade franciscana já capaz de caminhar pelo seu pé. Regressava, por isso, sem nada nas mãos, mas com a alegria de coração cheio e do dever cumprido.

Toda a sua vida foi orientada pela bondade e vontade de cumprir o imperativo da sua consciência; Toda a sua acção foi movida e orientada por Deus e para o próximo; em todos os seus anos de missão e de vida franciscana procurou fazer realmente “o melhor que sabia”. E, na verdade, se era pessoa de pouco saber escolar ou teórico, passou o melhor dos seus anos fazendo o bem e semeando bênçãos, graças à sua capacidade de trabalho e lucidez de acção. Como missionário em Moçambique, passou por guerras e revoluções políticas, sofreu com o povo as agruras impostas ora pela imprevisível natureza, ora pela insensatez humana. Sempre ficou com o povo e do lado dos que mais precisavam dele. Foi, por isso, sempre estimado por todos, mesmo nos tempos em que outros missionários ou clérigos se sentiram indesejados. Durante os 50 anos da sua vida ao serviço das missões em Moçambique, prestou prestimosos serviços à Cáritas moçambicana, de que foi principal responsável durante muitos anos, dando a esta instituição um precioso contributo para a sua formação e organização. Ao serviço desta instituição, teve sempre os mais carenciados como prioridade. Sempre disponível a partir de novo para onde uma maior necessidade ou a “santa obediência” o chamassem, doou os melhores anos da sua vida à Igreja e às gentes de África. Ensinado desde o berço a não fugir à dureza do trabalho, esgotou todas as suas energias em benefício daqueles que sentia como irmãos e sua grande família. Dotado de uma singular educação e experiência de vida, também estas herança de seus pais, investiu a sua inteligência prática e demais qualidades ao serviço da Custódia S. Clara de Moçambique de que é um dos mais empenhados construtores.

Foi, além disso, um grande colaborador na evangelização e catequese, estando sempre preparado para levar e trazer catequistas e crianças para a formação cristã. Os irmãos e as comunidades sempre contaram com ele sobretudo para as tarefas de manutenção das viaturas, dos edifícios e espaços pastorais, na edificação de capelas.

Foi realmente um trabalhador incansável na “vinha do Senhor”, que nunca se recusava quando a causa era o bem dos outros. Para os irmãos ele foi sempre uma presença amiga e muito fraterna, sempre disponível para ajudar. Neles os seus confrades encontraram sempre alguém em quem confiar e pronto a colaborar.

Sempre atento aos que sofriam carências materiais, era ele que levava muitas vezes mimos aos velhinhos, acariciando as crianças, sobretudo aquelas que não tinham quem lhes desse aconchego. Quando o carro do Fr. Lamelas aparecia, logo corria um mar de crianças que eram recebidas com o sorriso de um bom pai que se sentia feliz no meio delas.

No meio de tanta labuta e necessidades, Frei Lamelas sempre encontrava tempo para os irmãos e ir desfiando o rosário, muitas vezes escondido entre as suas ásperas mãos calejadas de trabalho. Muitas vezes, ao entardecer, deixava-se levar à contemplação pelo convite de um pôr-do-sol pelo florir de um jardim. À noite, depois de uma sóbria sopa, estava sempre pronto para um passeio, nunca se queixando do cansaço das muitas lidas do dia. E lá se ia metendo com todos os que encontrava pelo caminho, encontrando os melhores modos de criar simpatias nas gentes que com ele se cruzava.

Partir é preciso:

Até que chegou a altura em que as pernas e as energias já não respondiam a tanta vontade de continuar a servir e ajudar. No dia 1 de Julho de 2004, depois de mais de meio século de missão em Moçambique, Frei Joaquim Lamelas regressou a Portugal e passou a residir no Convento de S. Francisco de Leiria.

A irmã morte marcou encontro com o Frei Joaquim Lamelas no Seminário da Luz, às 14 horas no dia 4 de Novembro de 2010.

A despedida desta vida não foi muito diferente da sua partida de Moçambique. Então partiu despojado, mas sem lágrimas, sereno e alegre por saber ter cumprido sua missão; agora, concluída a sua missão na terra, despediu-se de nós e desta terra da sua missão com a mesma paz de quem sabe ter feito a sua parte na Messe do Senhor. Primeiramente, partira da terra que o viu nascer, para terras de África. 50 anos depois, partiu de África para regressar a Portugal. Por fim, partiu para “casa do Pai” e seu corpo voltou à terra de seus pais, onde repousa de tantas “partidas” e andanças.

Penude e suas gentes devem sentir-se orgulhosas deste seu conterrâneo que, na flor da sua juventude, partiu para terras de missão, mas nunca renegou suas raízes. Poucos em Penude o conhecerão, pois na sua agenda totalmente ocupada pelas tarefas missionárias não havia tempo para férias nem para matar saudades da terra. Mas conservou sempre um forte elo à sua terra e muito estimava as suas gentes, por quem perguntava sempre que encontrava alguém de Penude. Por fim e como justo desejo de quem nunca pediu nada para si, quis que os seus restos mortais regressassem à sua terra natal, para repousar junto da memória de seus pais. Dos pais de quem aprendera a ser homem, a trabalhar e a assumir a vida como uma vocação de rectidão, caridade e serviço. E cumpriu-se a sua vontade: a terra que o viu nascer e crescer pode agora senti-lo e recordá-lo mais de perto. Seria bom que os penudenses não perdessem a memória deste nobre filho da nossa terra.

Com saudades e gratidão,

Frei Isidro Lamelas

 

Pe. Manuel Rodrigues Borges - Isidro Pereira Lamelas
 

O Pe. Manuel Rodrigues Borges marcou a vida da freguesia de Penude durante os longos anos em que nela foi pároco. Só o seu temperamento pouco afável e personalidade indomável podem explicar o "esquecimento" que os seus paroquianos lhe têm votado, já que a sua obra não merecia tal indiferença. Na verdade, o Pe. Borges veio de Fazamões, sua terra natal, para Penude para imprimir uma nova vitalidade pastoral e espiritual à nossa

terra. Foi sobretudo um pastor totalmente dedicado ao seu rebanho que levava o zelo, muitas vezes, a níveis que nem sempre foram compreendidos ou poderiam sê-lo. A verdade é que se empenhou a fundo na renovação da catequese, e da formação dos adultos, apostando na criação e promoção de movimentos como a Cruzada eucarística, a Acção Católica, diversas confrarias e irmandades, como a Liga Eucarística. O zeloso pároco não poupou esforços, até ao último momento da sua vida, na catequização e promoção da piedade e cultura cristãs, nomeadamente através da sua pregação – ministério que exercia com reconhecido talento e paixão – ou convidando frequentemente outros afamados pregadores.

Não posso deixar de terminar esta singela evocação com um cunho pessoal. Fui o seu último sacristão, e o seu testemunho de vida e de pastor, totalmente doado aos outros sem nada requerer para si, não deixou de influenciar o meu percurso pessoal. Tive a sorte de acompanhar os últimos anos e horas da vida deste sacerdote, e pude testemunhar como trabalhou até à hora da sua despedida desta terra dando-se todo e a tempo inteiro aos seus paroquianos com os quais não teve sempre fácil relação, mas nos quais acabou por deixar uma marca forte e, no seu todo, bem positiva.

 

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